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Ash Borer – The Irrepassable Gate

Review
Ash Borer The Irrepassable Gate | 2016
João "Mislow" Almeida 14 de Dezembro, 2016
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Wilco – Schmilco

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Estamos no final do ano 2016 e começamos a recolher cada vez mais álbuns até ao final do ano. Muitos deles, alguns que nos passaram ao lado e agora que aguardamos um muito caótico dia 2 de dezembro, anotamos uma série de lançamentos pela ordem da Worm Ouroboros, Steve Moore, Violent Magic Orchestra, Klimt 1918 e muitos outros. Por alheio destino ou não, entre todos estes muito esperados lançamentos, que estavam todos agendados para dia 2 de Dezembro, sublinhamos The Irrepassable Gate, álbum que marca o retorno dos americanos Ash Borer. Para aqueles que não estão muito dentro do cenário de USBM (United States black metal), isto é uma fase do estilo que tem colocado grupos jovens e promissores cada vez mais à altura dos grandes e influentes grupos da Europa. Já a percorrer por argumentos mais que válidos, o USBM coleciona já no seu plantel bandas como Nachtmystium, Xasthur, Leviathan, Agalloch, Krallice, Absu, Wolves in the Throne Room, Cobalt, Young and in the Way e Abigail Williams. Um acumulado de bandas que oferecem amplitudes em termos de tempo de atividade e sonoridade, distanciando-se cada vez mais de um estilo de assinatura, esta é uma onda que se deixa progredir pela sua diversidade e impacto. Há elementos de progressive rock, thrash metal, death metal, hardcore punk, drone, post-rock, e até mesmo shoegaze (para os mais tolerantes apreciadores da nova vaga de “blackgaze”) com Ghost Bath, Deafheaven e Bosse-de-Nage.

Não existe um padrão em lado nenhum e as coisas só se tornam ainda mais interessantes quando assim o é, e no que toca a imprevisibilidade, os Ash Borer são campeões. 4 membros, cada um com uma inicial, A, K, N e A, a comandarem uma filosofia de anti-ego e a sublinharem a importância que a música deve ter para o ouvinte acima da identidade individual de cada um. Oito anos de trabalho, com a curiosidade de terem lançado todo o seu trabalho inicial em cassete, até o primeiro álbum com a editora canadiana Profound Lore. Foi só com o lançamento de Cold of Ages em 2012 que a banda ampliou o formato e começou a diluir pelo país. Por falar neste álbum, fazemos já questão de afirmar que foi neste ponto na carreira da banda que os ouvintes começaram a dar atenção àquilo que a quadra tinha para oferecer. Uma tela de cores e texturas coletivas que com o ritmo da pintura, vão se sobressaindo progressivamente mais intensas. Apesar da extensão das músicas, com o tempo de cada uma a exceder os 10 minutos, algo que a banda nos tem habituado ao longo do tempo, o registo consegue criar e preservar o impacto ao longo das frequentes mudanças de velocidade e das muito profundas odes a Emperor e Immortal da velha guarda. Com uma produção considerada por muitos de baixa qualidade, o grupo consegue tomar proveito do zumbido de fundo e do reverb tresloucado para recriar alguns dos panoramas clássicos da noruega dos anos 90, sendo quase impossível não relembrar os clássicos como Des Mysteriis Dom Sathanas, Pure Holocaust e In The Nightside Eclipse.

Mesmo sem definir uma identidade própria, os fãs ficam imediatamente convencidos pela viagem nostálgica que os Ash Borer conseguem proporcionar ao ouvinte, e mesmo as músicas alcançando os 16 minutos de reprodução, ganhamos a sensação de que já caminhamos o final de cada uma como se de uma faixa de quatro minutos se tratasse. Com uma recepção geralmente muito positiva, o grupo encaminha-se para o EP que os cimentou na geração de USBM dos anos 2010: Bloodlands. Meia hora com 2 faixas, uma delas dividida em duas partes, testemunha o grupo a crescer em definitivo para uma identidade megalómana cujas proporções dão se a conhecer ao pouco nas grandezas irreais das guitarras e da bateria. Logo com o arranque da “Oblivion Spring” que progride como um cancro de cimento, conseguimos ter uma noção do progresso da banda em solos atmosféricos e paisagens prolongadas de peso sedativo. Observando os detalhes visto de perto, denotamos um grupo que abraça a eficiência da simplicidade prolongada, mas ao afastarmos a aproximação, e consumir uma fotografia maior, é fora deste mundo o total domínio dos instrumentos na condução de Bloodlands.

The Irrepassable Gate, segundo a Profound Lore, corresponderia a um álbum de originais cuja composição se dividia num monstruoso conjunto de 6 faixas infernais de estátuas que constroem cidades inteiras com os seus paredões sónicos e pilares de peso. Um registo que à partida, podia quebrar ou ganhar os Ash Borer. Isto porque quando se agenda um lançamento, 3 anos depois de um registo memorável, é sempre arriscado uma banda atirar-se de novo ao estúdio, tendo em mente ou não, plantar-se noutro som. Facto é, que foi isso que aconteceu. A sonoridade mudou e em todo o comprimento nota-se a falta de funcionalidade orgânica que encontrámos em Bloodlands, e que se demonstrava fixada numa espessa construção de som reforçado. Logo na faixa de abertura “The Irrepassable Gate”, denotam-se imediatamente algumas decisões arriscadas nas transições de momentos nas músicas, onde a banda deixa de insistir em passagens fluidas e preferem tornar tudo muito mais arquitetônico e estrutural. Para alguns, isso pode ser o puxar do gatilho para o sucesso do álbum, mas para nós, as progressões continuam extremamente bem trabalhadas e o mérito não deve ser retirado só porque a banda prefere sustentar 2 minutos ao invés de 5 para definir uma passagem. “Lacerated Spirit” é um exemplo de como a banda ainda consegue explorar os confins da distorção em prolongamentos de ruído e drone. Mesmo com o começo muito parado e introspectivo, quase submisso ao ritmo, a faixa usa a tal paragem para que o impacto de retorno seja maior, e a encaminhar-nos para o final da música surge a aparição de novo e o álbum ganha uma imagem única de melodia e velocidade envolta numa catarse tremenda, e é nestes momentos que nos apercebemos do quão bem conseguido conseguido está o conceito do trabalho final.

“Grey Marrow” é a malha do álbum. Inquestionavelmente a única faixa do álbum que seria capaz de incorporar Bloodlands que nem uma luva. Compõe desde o início uma lentidão massacrante de melodia emocional e se deixa lá ficar por cerca de 3 muito memoráveis minutos até que o domínio divinal surge e toma posse da cor e da imagem da faixa. O loop sistemático do riff contribui tão bem para a característica grandeza que o grupo conseguiu construir no passado, a velocidade surge e a propagação está centrada agora nas ondas de choque daquilo que foi o epicentro do álbum. Como se o trabalho de cordas não fosse já surpreendente o suficiente, o final acaba com um cantarolar de melodia distorcida que com consecutiva repetição, impregna-se sem dificuldade nenhuma na consciência do ouvinte. Como um conto de guerra medieval, este é o tomar posse do castelo inimigo, este é o banhar do sangue nos escudos destemidos e este é o grito de vitória. Êxtase absoluto!

Os momentos infelizmente muito esquecíveis são sublinhados por algumas decisões menos boas como no interlúdio “Lustration I” e no muito extenso registo “Rotten Firmament” que dá a perder alguns dos riffs mais emblemáticos na banda entre progressões pouco desenvolvidas e encorpadas. Claro, não implica que os riffs não estão lá, mas o sobressair destas torna-se diferente e o resultado final não é tão bem conseguido, mas felizmente (o álbum não tem de acabar mal) a banda consegue fechar o álbum com a “Lustration II” que com um loop constante de batidas lentas e sangradas, as guitarras submissas, espessas e nebulosas conseguem invadir um final justamente positivo. Quer seja para progredir ou preservar o nível de intensidade, os Ash Borer conseguem utilizar a repetição de uma forma única, que com sucessivas utilizações acumula  uma intensidade quase desumana ao longo de cinco, seis, sete minutos de pura devastação. Resultado final geralmente muito positivo, com momentos que podiam estar perfeitos, tomando até em conta que a banda teve que se colocar numa mudança de filosofias, de forma a que conseguissem encontrar um balanço saudável entre quantidade de faixas e a duração de cada uma, que foi a meio termo, muito respeitado, com exceção da quinta faixa, que ultrapassou os 11 minutos, o que por sua vez, acabou por ditar o esquecimento de momentos cruciais para a pintura completa da tela. Mesmo que esse aspeto tivesse sido conseguido, houve transição, e na nossa opinião, não havia necessidade disso, tendo em conta a significância do som de Bloodlands. A produção não foi melhor do EP para o álbum, mas os recursos ofereciam mais condições, apesar disso.  Para o ouvinte que quiser mais de Bloodlands, vai ficar admitidamente pouco saceado com The Irrepassable Gate, mas para o ouvinte que quiser uma história concreta e diferente, este é o caminho certo.
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