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Big Thief - Two Hands

Review
Big Thief Two Hands | 2019
Joana Coelho de Pinho 21 de Outubro, 2019
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Big Thief merecem, antes de mais, um pequeno enquadramento, pela notoriedade que têm vindo a conquistar e pelo mérito que lhes é devido. A banda nova-iorquina de indie rock com pendor folk ganha vida por intermédio de Adrianne Lenker (vocalista), James Krivchenia (bateria), Max Oleartchik (baixo) and Buck Meek (guitarra e segunda voz).

Poderá convictamente dizer-se que Big Thief têm vindo a atravessar solo fértil, encontrando-se hoje na crista da onda criativa. No espaço de seis meses, a banda apresenta-nos U.F.O.F., publicado em maio transato, e agora Two Hands que está intrinsecamente ligado ao primeiro.

U.F.O.F. é considerado uma obra prima às portas do céu por ser etéreo e representar o imensurável, conduzindo-nos a uma experiência elevada, celestial. Confronta-nos com questões que transcendem a capacidade humana e nos diminuem perante os enigmas da vida. Two Hands, por sua vez, é árido, tumultuoso e acidentado.

U.F.O.F. aborda conceitos mais abstratos e Two Hands posiciona a banda numa orientação mais pessoal, sendo, nessa medida, mais parecido com os álbuns anteriores (Masterpiece, 2016 e Capacity, 2017).

Tecnicamente os álbuns são também marcadamente desiguais. Em U.F.O.F., os sons sui generis e adornados vão-se insinuando ininterruptamente, à espreita. Já em Two Hands, a constância é dos graves e este álbum possui consideravelmente menos textura. Porém, ainda que estruturalmente distintos, ambos operam em regime de reciprocidade, sendo o seu ponto de convergência a prevalência de uma consciência vulnerável e sempre poética.

Two Hands, sobre o qual nos debruçamos hoje, permite-nos uma aproximação quase física à banda e apela à nossa perceção sensorial, estimulando em simultâneo todos os nossos sentidos... O paladar agridoce, a visão cristalina, a audição plena, o calor a trespassar o corpo, o cheiro a terra quente.

Uma faixa que merece especial ênfase é “Not” (não foi à toa que esta faixa foi primeiramente apresentada). “Not” é violenta e representa uma quebra enorme com o álbum precedente, revelando uma estética ostensivamente distinta, embora seja mais semelhante a faixas dos álbuns pioneiros, Masterpiece e Capacity, como “Real Love” e “Shark Smile”.

“Not” reveste-se de efervescência, movimento constante, e a guitarra atinge aqui o clímax por sua conta própria. Inicia-se tensa e prolonga gradualmente essa tensão no decurso dos seus 6 minutos. A banda intensifica-se atrás de Adrianne Lenker – vocalista – enquanto esta vai repelindo terminantemente várias coisas. “Not what you really wanted / Nor the mess in your purse / Nor the bed that is haunted / With the blanket of thirst.” Tanto que é aqui revelado só ao deixar-se claro aquilo que não o é. O fascínio desta música reside no facto de a descrição se fazer pela ausência.

Há uma total objetivação da dor, que não se desvaloriza, mas que simplesmente se permite sentir. Uma entrega total e uma partilha honesta que podem até chegar a causar algum desconforto, por se assemelharem a um empurrão que nos arremessa e confronta com a realidade mais inóspita.

 “Not the planet / That's spinning”, porque a vida continua. Uma analogia ao esforço de aceitação e força de espírito, embora se deixe aqui claro – assim como no decurso de todo o álbum e historial de Big Thief – que a força não anula a vulnerabilidade, atribuindo-lhe até mais dignidade.

Em outros momentos ao longo do álbum a dor é diretamente confrontada, embora nunca se permita uma subjugação a esta na totalidade. “Forgotten Eyes” é um dos exemplos. "To let go of, but it is no less a bruise" – declara-se, num desabafo pragmático.

Esta faixa é uma recordação ávida àqueles que nos abandonaram, seja porque partiram fisicamente da terra, seja porque partiram afetivamente das nossas vidas. Seja um ente querido, seja um amor perdido. Seja uma perda metafísica, por morte, seja uma relação amorosa condenada à morte. Em qualquer das hipóteses, é uma carência que carregamos cravada ao peito, até a vida deixar de ser vida.

And no crying but it is no less a tear / On the common cheek with which we smile” – afirma-se, numa representação sublime das nossas mágoas convertidas em cicatrizes internas. “Everybody needs a home and deserves protection” – entoa-se, num suspiro nu e simplista, mas que na voz de Adrianne Lenker soa sempre a poesia.

Na introdução, o estilo de Big Thief foi classificado como indie rock apoiado nas raízes do folk, pela forma natural como o grupo concilia os sons mais robustos com os mais débeis, jogando com estas dinâmicas sem que se lhes subtraia a harmonia.

“Wolf”, “Cut My Hair” e “Those Girls” são precisamente faixas mais íntimas e serenas. “Wolf” merece também especial destaque pela beleza da sua composição e pelo conforto que nos chega através da guitarra acústica. Esta faixa inicia-se com acordes consonantes e determinados, que aludem a um despertar agradável. Até Lenker perder o controlo ao entoar “Oh, oh, oh”, um fonema associado ao lobo, o recurso à onomatopeia como na faixa “From” de U.F.O.F..

“Two Hands”, a faixa que dá nome ao álbum, contém um propósito claro e talvez seja aquela que mais se imponha, por seguir o tema da proximidade e servir como ferramenta de interpretação e mapa de leitura para as restantes faixas. É fraturada, desalinhada, e a voz de Lenker desponta como um coro, numa alusão ao trabalho de equipa, à criação e descoberta, prolongando uma linha de inspiração frágil e suave.

Big Thief são claramente uma banda sólida, que num espaço de três anos e meio lançou quatro álbuns perfeitamente bem finalizados, enquanto faziam uma digressão incansável. A união é dos pontos dominantes deste álbum, e retira-se de múltiplos aspetos já aqui vertidos, mas também da interação muito próxima dos vários instrumentos; do facto de os temas se terem tornado mais amplos a cada álbum, enquanto que simultaneamente a banda se ia aproximando, como se percebe, aliás, pelo progresso da capa dos últimos dois álbuns, até que a banda se funde hoje no toque pleno, nesta última capa. Essa ausência de distância percebe-se no álbum, onde há mais silêncios, mais pausas.

É um trabalho cru e real, e ao quarteto deve, pois, louvar-se esta visão própria, a consistência do seu trabalho, e a capacidade criativa numa época musicalmente saturada.

 

(Esta review teve uma contribuição especial de João Maria Alves.)
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