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Big Thief - U.F.O.F.

Review
Big Thief U.F.O.F. | 2019
Tomás Quental 07 de Maio, 2019
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Vampire Weekend - Father of the Bride

Kevin Morby - Oh My God
Spoiler alert: aquela alien do Camp Rock agora escreve serenatas à Radiohead e faz-nos olhar para as estrelas.

Foi pelos idos de 2015 que o (na altura) duo de Adrianne Lenker e Buck Meek decidiu que o seu som folk já não acomodava as canções rock que andavam a escrever – foram, assim, em busca de novos membros para arranjos frescos e mais cheios. Ambos formados em Berklee, encontraram, num reencontro inesperado de velhos amigos, um baixista (Max Oleartchik); no engenheiro de som, um baterista (James Krivchenia). Uma estória de acasos e evoluções lenta que imita na perfeição o som orgânico e maduro ao qual os Big Thief já nos vêm acostumando desde o seu disco de estreia, Masterpiece (2016). Agora são todos bons amigos baseados em Brooklyn e em não ter um estilo específico - saltam do rock para o pop, do pop para o indie, do indie para o folk e não assentam em nenhum deles -, um quarteto que se apresenta igual a si próprio neste terceiro disco. Talvez a diferença, se é que isto faz sentido, é que se mostram ainda mais iguais a si próprios, num exercício natural de apuramento da sua identidade de genre benders ligeiramente sobredotados. A dificuldade que têm em fixar um estilo concreto é a facilidade com que esta música assenta neles mesmos. Uma honestidade e clarividência cada vez mais complementares à voz desafetada de Lenker.

U.F.O.F., ou, traduzindo sem cuidado e compaixão, o “amigo objeto voador não identificado” é o nome do disco e da sua segunda faixa, que arranca com os versos “To my UFO friend / Goodbye, goodbye”. Pode parecer, à primeira vista, um trabalho fortemente enraizado na ficção científica ou em teorias da conspiração, mas segurem para já o “Ancient Alien” dentro de vós: este disco tem mais de transcendente e espiritual do que tem do clássico programa do Canal História. Esse que tenta provar que tudo o que não foi construído por pessoas de ascendência europeia é obra de aliens mais inteligentes que nós.

Com jogos de imagens, luzes, sombras, sensações, Adrianne escreve letras magníficas sobre cenas quotidianas de um universo que não é o nosso. Desde inspirações mais fraturadas e absurdistas até um estranho psicadelismo surreal, não há uma palavra transportada nos suspiros de Lenker que não venha com uma nitidez e lucidez absurdas. A palavra “absurdas” aqui exprimindo a minha incredulidade e inveja, mas também o estilo da escrita. Certas vezes, parecem letras de Cocteau Twins, mas menos aleatórias. Outras são mais claras e minimalistas, como algo tirado da melhor lírica de Thom Yorke: “Vacant angel, crimson light / Darkened eyelash, darkened eye / The white light of the living room / Leaking through the crack in the door” em “Open Desert”. Não seria exagero dizer que a poesia que vem neste disco é das melhores e mais fascinantes da música dos últimos anos. É possível encher um artigo inteiro só com análises e palavras de admiração, mas para alívio de toda a gente este texto só tem um pequeno parágrafo sobre este tema aborrecido que é o "blá blá blá" das canções. Afinal o Gangnam Style ficou conhecido foi pela lírica incrível? Não, claro que não. Ninguém quer saber. Mas eu quero saber e este é o meu texto, portanto agora vão levar com isto, sem reclamar. Há muita perseguição, loucura, aqui na internet...

A ser obrigatório escolher, alguns dos melhores exemplos são os relacionados com a temática do grito. Sem querer ferir mentes sensíveis, já que estamos em época de spoilers, considerem-se avisados. A primeira faixa muda de tom subitamente na segunda metade, enquanto os instrumentos adotam um espírito mais roqueiro, e Lenker grita desalmadamente como se estivesse a tomar banho num filme de Hitchcock. Nas palavras da própria ao site Bandcamp, “the idea was this person who could sort of see the sunlight through the water, and suddenly they feel this hand on their arm and they get pulled up. (…) They can feel everything because they’re alive. (…) It’s the scream of birth—of being knocked back into life”. Infelizmente não voltamos a ouvir guinchos poderosos, mas o tema vai aparecendo nas letras. A quarta faixa, “From”, uma versão alterada da faixa homónima no último disco a solo da vocalista, tem uma das composições mais hipnotizantes, a utilização perfeita da voz e é um excelente exemplo da escrita descritiva e não linear de todo o disco. Termina assim: “One ear to the floor / My dog barking loud / Couldn't tell for sure / Where the screaming sound / Was coming from // One ear to your womb / Puppy on the floor / Baby’s coming soon / Wonder if she'll know / Where she's come from”. Em “Orange”, os gritos são dos cães, outro momento de transcendência: “Hound dogs crowing at the stars above / Pigeons fall like snowflakes at the border / She kneels down and holds the frozen dove / The moon drips like water from her shoulder”.

Já está, a parte aborrecida. Prossigamos para a música, os sons, essa coisa divertida que nos faz dançar e chateia as mães quando está demasiado alta. Não é só na letra que há semelhanças com Radiohead, especialmente com A Moon Shaped Pool. Seja por alguma da progressão rítmica, os coros de fundo ou simplesmente o groove (essa palavra que não quer dizer nada e tudo ao mesmo tempo), este é um disco que apela a muita da mesma sensibilidade. A estética do shoegaze aparece também em passagens mais intensas, quando o disco foge das raízes acústicas do núcleo da banda. Ouvir U.F.O.F. é como entrar numa daquelas cenas de guitarrada à fogueira, num filme de adolescentes, ou um anúncio de pacotes de telemóvel para millenials. Estamos todos à volta do fogo, bem maquilhados, bem iluminados, vestidos com roupas claramente lavadas que acentuam os dentes magnificamente brancos e direitos. Sim, mas em vez de um tipo barbudo com um ar artístico e ligeiramente edgy (não demasiado para não assustar potenciais compradores) a tocar “Dunas” ou “Wonderwall”, temos os protagonistas do Camp Rock da depressão. A Demi Lovato é um alien de guitarra elétrica personalizada, que grita e nasce várias vezes, o Joe Jonas tem cabelo à emo... Ou seja, é o Joe Jonas no Camp Rock. Em 2019, os Big Thief querem ser o universo alternativo desse clássico da Disney, ou do anúncio com os marshmallows à fogueira. Aqui o tempo é não linear, as sensações são fortes e épicas, mas chegam devagarinho. É folk hipnótico, que nos deixa sugestionáveis. Ponham-me já neste acampamento ao pé de um grande lago americano, com os pinheiros e carvalhos a dançar tristemente ao som deste disco e eu assino os pacotes de telecomunicações que quiserem. Raios, até vou para aquele ligeiramente menos vantajoso que me tentarem impingir.

As canções são modestas, abordam-nos tímidas e sem espalhafatos, escondendo os seus pontos fortes com uma dose invejável de humildade. Compõem o disco mais comprido até agora (doze faixas e 43 minutos). Dos três singles escolhidos, dois nem fazem parte das canções mais espetaculares de U.F.O.F., um despojamento que roça a autodepreciação e chega a meter nojo. No fundo, é daqueles trabalhos que pede atenção, calma e paciência. Faz trocar algum do apelo pop dos dois discos anteriores por uma dose corajosa de experimentação. E assim, como quem não quer a coisa, marca o início de uma sonoridade realmente própria – depreendo que até os membros da banda não saibam bem de onde vem. São canções que fluem com a naturalidade e perícia de uma intuição artística realmente alienígena. Se Adrianne Lenker e companhia não fossem brancos ocidentais seria caso de chamar Giorgio A. Tsoukalos, com o seu cabelo alucinado, para apresentar mais uma temporada de “Ancient Aliens”. O tema deste episódio: “Inspiração divina? Ou um raio de laser cósmico de uma civilização galáctica atinge quatro artistas?”
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Big Thief - U.F.O.F.
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