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Bon Iver – 22, Million

Bon Iver

22, Million | 2016

PONTUAÇÃO:

8.0

 

 

 

Bon Iver, a banda fundada pelo cantor e compositor Justin Vernon, contemplou-nos, em 2016, com um novo álbum – 22, A Million – após cinco anos de silêncio e saudade. Cumprindo com a sua absoluta magnificência, transporta-nos agora para uma agradável realidade paranormal.

Inovador, enigmático e revolucionário, demonstra através de uma combinação exaustiva de múltiplas sonoridades, em alvoroço e num perfeito encontro, uma infinidade de emoções. Sem pretensões de querer desvendar o sentimento-base que esteve na origem deste trabalho – apesar da declarada ansiedade com que Vernon se debateu – a verdade é que cada faixa faz despertar o nosso espírito para o mundo que nos rodeia, inquietando-nos e confundindo-nos.

No entanto, esta inquietação não deixa de nos fazer emergir, simultaneamente, num sentimento de tranquilidade e complacência, envolvendo-nos numa verdadeira mística, o que suscita uma curiosa contradição. Esta contradição está, aliás, patente em outros aspetos do novo álbum, na medida em que Vernon, ao mesmo tempo que parece estar ciente do que está a criar, demonstra um certo alheamento da realidade, vagueando entre estados de consciência a inconsciência.

22, A Million trata-se do resultado de um trabalho de introspeção, autoconhecimento, em que o artista se centra em si próprio, e por outro lado, não deixa de ser generoso ao fornecer aos ouvintes ferramentas para eles próprios se redescobrirem.

Vernon parece conseguir cumprir aquilo a que se propõe. Já não soa tão débil como no seu álbum de 2011, Bon Iver, nem tão solitário e destroçado como no álbum de 2007, For Emma – Forever Ago. Reconstruiu-se e surge agora num encontro com o mundo em seu redor, mais confiante e seguro, apesar de claramente mais ciente da dificuldade em encontrar certezas, o que se depreende de algumas passagens, as quais se passam a referenciar “where you gonna look for confirmation?” em “22 (OVER S∞∞N)”; “how we gonna cry?” em “715 – CRΣΣKS”; “why are you so far from saving me?” em “33 “GOD””; “without knowing what the truth is” em “___45___”.

No fundo, este álbum aparece como uma necessidade de superação, de mudança, e consolida estes propósitos em 34 minutos, espelhando a urgência do artista e, em paralelo, a sua objetividade, o que revela o seu grau de consciência, demonstrando bem saber o que, de facto, pretendia com o novo trabalho.

Em 22 – A Million, o compositor já não se refere a lugares como “Perth”, “Michicant” “Minnesota, WI”, “Lisbon OH” – repare-se aliás no que enuncia na música “33 “GOD”” quando refere “These will just be places to me now”, parecendo reportar-se agora a algo superior: à globalidade das emoções, sentimentos e conjunto de vivências da pessoa, sem as quais os lugares ficariam esvaziados e totalmente desprovidos de sentido.

Vernon, ao longo deste trabalho, não mantém um diálogo coerente com o ouvinte, através de frases organizadas. Pelo contrário, arremessa frases um tanto dispersas, que se reconhecem no meio de vários ruídos e ecos, espaçados e desorganizados, mas que, juntamente com a interação de instrumentos a que recorre, encontram o seu sentido, o que nos faz desvendar quase que uma irreflexão ponderada do artista. O ouvinte terá de fazer esse esforço de entendimento, que apesar de não resultar evidente da letra da música, encontrará, certamente, sentido da sua globalidade.

Urge fazer referência à sobreposição de vozes manipuladas, às engenhosas passagens por entre a música eletrónica e o gospel, a acappella em “715 – CRΣΣKS”, misturada com a acústica da guitarra, reconhecidamente branda e delicada sob a alçada de Bon Iver, aliada a sons muito vincados, “maquinizados”, dispersos – mas nunca aleatórios! – culminando numa harmonia ímpar, o que, de novo, só poderá revelar a genialidade consciente do músico.

Vernon ensina-nos a fazer uso de novas sonoridades, recorrendo a vários instrumentos, como o saxofone e o messina, à manipulação e deformação de vozes, explorando um novo território e relembrando o quanto a música ainda tem para criar.

Ainda assim, esta quebra com o convencional não é absoluta. Note-se que em “33 “GOD”” e “00000 Million” reconhece-se, por entre todas as inovadoras técnicas de produção, a beleza do som do piano e, naturalmente a nostalgia do folk, avivando a memória para o álbum de 2011, com “Wash” e “Holocene” que, pensando agora em retrospetiva, talvez fizessem já vislumbrar novos solos.

Apesar da presença deste registo mais marcado e desordenado relativamente aos dois álbuns anteriores, a emoção vertida em cada música continua a manifestar-se com o mesmo vigor, paixão e com o inconfundível registo de Justin Vernon, marcado pela suavidade da sua voz, pelo que toda esta revolução soa, ainda assim, extremamente familiar.

Não importa a quantidade de experimentações a que Vernon recorra, a nossa audição encontrará sempre, em primeiro lugar, o seu característico falsete, capaz de se distinguir num universo de milhares de vozes que atualmente possam tentar assemelhar-se à sua… em vão!

Resta-me desejar que se deixem envolver e isso, posso garantir, não será em vão!

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Por Joana Coelho de Pinho / 30 Novembro, 2016

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