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Bonobo – Migration

Bonobo

Migration | 2017

PONTUAÇÃO:

8.0

 

 

 

Migration é o mais recente álbum de Bonobo e, longe das sonoridades típicas dos clubs, este projeto tem como principal foco a atmosfera e a criação de um mood, e o seu resultado é relaxado e orgânico. Rochas, ervas, nuvens, céu e fogo convivem em harmonia na capa do álbum e assim é também a sua música. A contemplação e a introspeção são as portas de entrada nesta dimensão do músico e tudo é trabalhado para uma sintonia unânime.

Apesar do seu antecessor de 2013, The North Borders, poder ser algo clínico e quase formulaico, numa tentativa de reinventar Black Sands – talvez o maior álbum da sua discografia -, este álbum é bastante mais uniforme, fazendo que as músicas desaguem umas nas outras com mais naturalidade; o músico britânico encontrou um bom equilíbrio entre os seus antigos trabalhos e os mais recentes. A viagem discográfica de Bonobo floresce em Migration, fazendo com que este seja um dos seus álbuns mais bem conseguidos.

As suas experiências enquanto músico nómada serviram de inspiração e são o pano de fundo das doze faixas. Pianos, guitarras, harpas, violinos, tudo isto se confunde numa mistura de culturas, texturas e sonoridades. O resultado, ao contrário do que se poderia esperar, não se desvia nunca daquele que é o principal elemento do álbum; as percussões atmosféricas dão cor às paisagens pintadas pelas melodias e danças de acordes de uma contemplação infinita. Poucos são os que conseguem criar um palco tão bem cuidado para o groove abstrato aqui fundido, mas Bonobo parece fazê-lo com ainda mais facilidade neste projeto.

Com uma introdução quase digna de um Kid A, juntamente com a festa de ritmos, e a melancolia que se lhe segue, “Migration” é o melhor resumo daquilo que o álbum é: hipnótico na sua aura, contagiante nos seus refrões instrumentais. “You’re my favourite, you’re my favourite / But we’re phasing, but we’re phasing” é ecoada na segunda faixa, e esta repetição constante acaba por ser mensageira de uma espécie de sensação transversal a Migration, mas ainda que “Break Apart” tenha momentos interessantes, não tem o poder que as restantes músicas têm. Este, no entanto, nem é o exemplo mais flagrante desse problema; “No Reason”, que conta com a voz de Nick Murphy (ex-Chet Faker) é provavelmente a música menos interessante de todo o álbum, e a sua duração quase de oito minutos não se justifica de todo. Bonobo nunca teve muito jeito para aliar cantores aos seus instrumentais e o resultado é sempre uma tentativa de música pop (ao seu estilo, claro), o que se torna fundamentalmente aborrecido porque essa não é a área em que ele excela. Mesmo que as músicas pudessem ter outro valor noutro contexto, colocá-las no álbum é fazer com que o ritmo se quebre de cada vez que cheguemos a qualquer uma delas.

“Outlier”, por outro lado, é um dos pontos altos do álbum. O seu gingar de acordes é uma autêntica dança de quase oito minutos, uma viagem que tem início com as notas tímidas de um piano e que culmina com a melodia certeira de um sintetizador, pedindo para contemplar o céu enquanto a música se vai espalhando pelo corpo. Para além de um frenesim aqui e ali, o álbum está repleto de músicas mais recostadas, como “Grains” ou “Ontario”, mas é em “Second Sun” que o etéreo se apresenta mais próximo. Num ambiente praticamente post-rock, colorido por uma conversa entre uma guitarra e um piano, esta música eleva tudo a outro patamar, um sítio onde a nostalgia se passeia livremente ao som do vento, e tudo para que os violinos finais nos transportem para as vibrações contagiantes da faixa seguinte, “Bambro Koyo Ganda”, onde as melodias marroquinas se confundem com a batida consistente de uma tão bem-recebida mistura de trip-hop e folk.

Introspetiva na sua aparência e efervescente na sua essência, “Kerala” é sem dúvida um dos pontos altos de Migration. Os ritmos ondulantes entram pela cabeça, prendem-se às sinapses mais distantes e ligam-se aos músculos mais dançantes, e aqui a explosão de culturas é o instrumento principal e mais vincado.

“7th Sevens” e “Figures” fecham com chave de ouro este capítulo de Bonobo. Se a primeira, com o lado mais efusivo do álbum e com as suas experimentações cativantes dos hi-hats, dá vontade de ouvir um projeto inteiro só de percussão programa pelo músico britânico, a última dá-nos um ritmo melancólico e os seus violinos imponentes parecem saídos de cenas cruciais de filmes antigos. Este é um autêntico epílogo; afinal de contas, é o terceiro ato que nos traz de volta a casa. E isso por si só talvez tenha sido o objetivo de Bonobo, o de fazer um filme, o de criar uma história através da sua música. Para vermos as suas imagens só temos de olhar pela janela de um carro em direção às nuvens.

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Por Pedro Gomes / 24 Janeiro, 2017
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