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Car Seat Headrest – Teens Of Denial

Car Seat Headrest

Teens Of Denial | 2016

PONTUAÇÃO:

8.5

 

 

 

Car Seat Headrest: quando o banco de trás do automóvel é muito mais do que um simples espaço para transporte de passageiros. Foi assim que Will Toledo, jovem norte-americano nascido em 23 de Agosto de 1992 em Leesburg, Virgínia criou, a solo, este projeto.

Tudo começou em 2010. Tímido e angustiado, Toledo personificava e ainda personifica o verdadeiro estilo geek. Nada popular na escola e de poucos amigos, sentia muitas vezes a necessidade de se refugiar naquele que considerava o seu porto seguro.

Conduzia o carro até ao estacionamento público próximo da casa dos pais – por sinal pequena e sem a privacidade que desejava- e, munido da guitarra elétrica e do laptop, ali mesmo no banco de trás, qual cenário mais hipster, começou a gravar os primeiros solos e riffs de guitarra e voz. Aliás, vociferava como se não houvesse amanhã, ou não fosse ele fã incondicional de Kurt Cobain e dos Nirvana. Fascinava-o aquele sentimento misto de raiva na voz e a depressão voraz da adolescência.

Do rock, ao indie rock lo-fi, foi compondo e gravando dezenas de músicas (chegam a ser mais de 100) que resultaram no lançamento de onze álbuns no Bandcamp, com destaque para Twin Fantasy, lançado em 2011, o mais popular até aquele momento e que, por si só, viria a conquistar uma nova e considerável falange de admiradores.

A partir daí, a ascensão deste talentoso músico e letrista foi meteórica. Em Setembro 2015 e já tendo chamado a atenção da indústria discográfica há algum tempo, assinou contrato com a Matador Records que levou à edição do primeiro álbum fora do Bandcamp, de seu nome Teens of Style. Nada mais, nada menos do que a compilação de onze músicas retiradas do vasto trabalho de Will, até então. Uma nova etapa do projeto, já enquanto banda, que juntou Will Toledo na guitarra aos amigos, Ethan Ives, no baixo e Andrew Katz, na bateria.

Começava aí uma nova vida para Will, de malas e bagagens em direcção a Seattle, deixando para trás a cidade natal Leesburg. Continuava a ser aquele rapaz inseguro, pouco conversador e nada confortável perante entrevistadores (a não ser em palco, acompanhado da sua guitarra), mas que já tornara fúnebre o solitário Will Toledo: “As a young person, i was kind of a loner.”, afirmou o próprio em entrevista à Noisey em 11 de Setembro de 2015.

A enorme aceitação dos Car Seat Headrest extravasava finalmente a cena indie norte-americana e já fervilhava por esta Europa fora, culminando com a gravação em estúdio do primeiríssimo álbum, Teens of Denial, em 20 de Maio de 2016.

De forma quase espontânea, a crítica foi unânime, um pouco por toda a comunidade indie e, também, na esfera da Comunicação Social em geral, considerando este trabalho como a prova da grande afirmação de Will e seus pares.

Candidato para muitos a disco do ano de 2016, Teens of Denial, composto por doze faixas, desperta inúmeras sensações, como que nos levando a viajar num carrossel musical, cheio de versatilidade, destacando músicas tão distintas como “Fill in the Blank”, logo a abrir, com riffs de guitarra orelhudos e crus e uma intensa bateria, quase a convidar ao mosh, ao mesmo tempo que Will Toledo entoa, reclamando quase como de seu exclusivo direito, “You have no right to be depressed / You haven’t tried hard enough to like it / You haven’t seen enough of this world yet / But it hurts, it hurts, it hurts, it hurts.”, ou “Vincent”, onde o groove do baixo anda de mão dada com a distorção eléctrica da guitarra e ambos se cruzam com a suavidade do trompete e o som puro do trombone.

Destaque ainda para a nostalgia de temas como “Drunk Rivers/Killer Whales”, ou “The Ballad of the Costa Concordia”, onde o piano sobressai, acompanhando guitarras em crescendo, ou para o reivindicativo “Not What I Needed”, cuja letra revela frases marcantes como, “I have nothing but questions / I need answers, those would fill me up / I know when I’m being catered to! / I know when I’m being catered to! / I will not settle for the lowest common denominator.”

Este cativante álbum cola-se aos ouvidos, do princípio ao fim, em que cada faixa musical é parte integrante de uma série de doze entusiasmantes capítulos que se ligam, dentro de uma história rica que nos surpreende com pormenores deliciosos, desde a voz melancólica e tão própria do frontman Toledo- qual ator principal de um elenco tão volúvel- aos coros vocais inesperados, acompanhados por uma verdadeira orquestra instrumental indie.

Cada elemento da banda interpreta inúmeros papéis musicais performativos e não se confina apenas ao instrumento principal que toca.

Ao longo do Teens of Denial Will, para além da voz e da guitarra, chega a tocar órgão e piano e ainda a dedilhar o teclado eletromecânico polifónico do Mellotron 400; Ethan Ives não se limita ao baixo e aos coros vocais e acaba a dar uns toques na guitarra ou até mesmo no órgão; Andrew Katz viaja da bateria à percussão, passando pelos coros e ainda dá uma mãozinha no Mellotron. Para colorir esta resplandecente parafernália musical, o disco acrescenta ainda a colaboração de Seth Dalby, no baixo, em “Unforgiving Girl (She´s Not An)”; Jon Maus na trompete e no trombone em temas como “Vincent”, “Cosmic Hero” e “The Ballad of the Costa Concordia” e Jim DeJoie, no saxofone, em “Connect the Dots”.

O indie rock norte-americano tem, de facto, crescido em qualidade e criatividade e, quando intérpretes multifacetados como Will Toledo demonstram, naturalmente, tamanha capacidade, apesar dos tenros 24 anos de idade, Teens of Denial é a prova cabal de um estado de maturidade musical precoce que os Car Seat Headrest revelam.

Por isso mesmo, Teens of Denial é, sobretudo, análogo a um bom vinho tinto e como ele deve ser: encorpado. Se pudesse ser bebido ou degustado, despertaria certamente uma vastidão de sensações nas papilas gustativas de quem o fizesse. Seja pelo estilo e voz muito próprios de Will Toledo, ou pelos recursos infindáveis de um jovem letrista muito maduro e pela sua versatilidade e dos restantes membros da banda a nível musical.

Venham, por isso, mais viagens até ao fim do Mundo. No banco de trás.

[Este autor usa o Antigo Acordo Ortográfico]

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Por Rui Pedro Guimarães / 22 Dezembro, 2016

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