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Childish Gambino - Awaken, My Love!

Review
Childish Gambino Awaken, My Love! | 2016
Pedro Gomes 28 de Dezembro, 2016
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Quem chegou atrasado ao ano de 2016 decerto tem perdido todas as notícias que envolveram o nome de Donald Glover. Depois do sucesso de Community, estreou-se agora com Atlanta, uma série criada e protagonizada por ele, tendo tido grandes audiências nos EUA. Para além disso, o ator americano irá interpretar Lando Calrissian num dos próximos filmes da saga Star Wars, um dos maiores franchises de sempre da história do cinema. Mas o melhor de tudo só chegou no final do ano com o lançamento de Awaken, My Love!, o último álbum do seu alter-ego musical.

Gambino sempre foi experimental no seu percurso musical, e isso acentua-se a cada novo projeto, fazendo com que a sua base de fãs se polarize constantemente, mas a verdade é que isso nunca o assustou e acaba sempre por ser catalisado a seu favor. Este álbum não é exceção, tratando-se de um embarque num tipo de som completamente diferente daquilo que se estaria à espera do rapper americano. Mudanças de sonoridade de álbum para álbum não são novidade no panorama musical - basta olhar para o caso de Radiohead, uma banda que faz questão de evoluir o seu som e nunca fazer a mesma coisa duas vezes -, mas uma mudança tão radical e abrupta, entre géneros, é algo raro no panorama mainstream, e muito menos num artista que conta já tantos e tantos seguidores.

Faz algum sentido analisar este álbum à luz de uma viagem temporal. Numa altura tão cheia de músicos a tentarem ser o mais modernos possível, a nostalgia é imperatriz em Awaken. Ainda a primeira faixa vai a meio e já estamos completamente imersos nesta cápsula musical reminiscente do início dos anos 70 em Detroit, altura e local onde o funk era rei.

A produção densa aliada à tremenda performance vocal de Gambino fazem desta “Me and Your Mama” uma das melhores introduções deste ano; a ambiência quase de embalar que lhe dá início é a porta de entrada para este mundo tão ricamente arquitetado. Camadas vão-lhe sendo acrescentadas à medida que a música avança e a certa altura, sem que nada o tivesse previsto, estas notas solitárias e flutuantes dão espaço a guitarras distorcidas e a um coro de vozes fulgurantes, catapultando uma aura psicadélica intempestiva por parte do músico de “Heartbeat”. E se este princípio é extasiante por si só, é também o mensageiro do mood geral do álbum, conseguindo conciliar um intimismo ternurento com uma explosão vibrante de ondas sonoras.

Fazendo uso do título da primeira composição, Awaken é contado a partir da perspetiva do pai. É sabido que um dos álbuns que Glover mais ouviu durante o seu crescimento foi Maggot Brain, dos Funkadelic, por ser um dos preferidos dos pais, e por isso não é de espantar que este projeto vá buscar muita inspiração a essa fonte do funk. Até a capa deste álbum pode ser lida como uma homenagem a essa imagem clássica do coletivo de Detroit.

Este é um álbum íntimo, entre muitas outras coisas. Sabe-se que Gambino dedica este projeto – pelo menos em parte – ao seu filho, e isto passa desde o nome do álbum como ao conteúdo inerente das músicas. Se “Have Some Love”, numa musicalidade gospel, apela à empatia entre toda a gente, “Boogieman” é uma parafernália coloridamente psicadélica e um aviso sobre a polícia e a descriminação racial que esta exerce sobre a comunidade negra, um tema recorrente nos EUA; “If you point a gun at my rising sun / Though we’re not the one / But in the bounds of your mind / We have done the cry”.

“Zombies” reflete sobre como as pessoas se podem tornar em abutres que se alimentam do sucesso de alguém - como as editoras musicais, por exemplo -, e isso é explícito nos versos ao longo da música: “We’re coming out to get you / We’re all so glad we met you / We’re eating you for profit / There is no way to stop it”. Este tom paternal é algo transversal nas onze músicas, quase como se se tratasse de uma longuíssima canção de embalar (obviamente composta com sonoridades completamente diferentes daquelas que bebés estarão habituados a ouvir… mas uma canção de embalar, ainda assim). Mas muito para além de todas estas mensagens e letras que visam vários temas, desde a consciência social aos conselhos empáticos de um pai a um filho, a produção é o que sobressai neste álbum. E de que maneira.

Ludwig Göransson fez um trabalho impecável em todas as músicas (coproduziu e coescreveu praticamente todas), desde as guitarras freneticamente molhadas que ecoam de uma ponta à outra (a guitarra de Gary Clark Jr., na penúltima música, não é nada menos que sublime), passando pelos apontamentos do glockenspiel cintilante feitos pelo próprio Glover, os sintetizadores exuberantes ou a percussão relaxada. Tudo é ouvido com uma precisão cristalina, e este álbum, ao contrário dos projetos anteriores, soa realmente a uma banda a tocar em estúdio, desprovida de toda e qualquer artificialidade. Tudo soa vivo e orgânico e isso por si só já é uma lufada de ar fresco no panorama mainstream atual.

Childish Gambino sempre foi um artista criativo e definitivamente alguém que não se resigna com o meramente banal, por isso é natural que também neste projeto ele tenha tomado algumas medidas fora do normal. O músico disse numa entrevista à rádio triple j que decidiu experimentar as mais variadas experiências vocais neste álbum, numa tentativa de fazer com que as pessoas tenham reações a sonoridades que nunca ouviram antes. E isso é bastante óbvio em “California”: num beat algo havaiano e contagiante, Gambino apresenta-se a “cantar” de forma atabalhoada, quase como se tivesse a boca cheia; este é o caso mais gritante do álbum e que divide os fãs em fações bastante rígidas: ou adoram ou odeiam. Mas mesmo que não se goste, há uma certa inovação que eleva este projeto para algo moderno e pertencente aos nossos tempos, e isso passa também por todas estas experiências com a voz e todos os efeitos que a ela estão ligados, sem, no entanto, existir alguma vez o uso de correção de pitch, como aliás foi provado – para espanto de muitos - na performance ao vivo de “Redbone” no programa de Jimmy Fallon.

“Redbone”, aliás, é um dos grandes pontos altos de Awaken. Esta música ouve-se como uma fusão inspirada em dois clássicos de 1976; Gambino junta os mundos de “I’d Rather Be With You”, de Bootsy Collins, e “Portrait of Tracy”, do lendário baixista Jaco Pastorius, e cria algo verdadeiramente seu e único. Mesmo que as influências sejam reminiscentes destas duas músicas, “Redbone” é algo novo e com uma roupagem diferente, e aqui muito se deve, novamente, à produção de Ludwig – o baixo groovy e galopante conduz a música como mais nenhum instrumento, à boa maneira do funk, e a voz é o veículo perfeito para esta atmosférica balada. A percussão sincopada é a base para toda a instrumentação e o resultado é mais que bem executado; esta sonoridade, e a imagem de alma suada que lhe é adjacente, é algo que transpira e perdura ao longo do álbum, mas é principalmente notória nesta música.

Certas músicas podem soar algo derivativas, com “Have Some Love” a assemelhar-se a clássicos dos Funkadelic - como “Can You Get to That” ou “Jimmy's Got A Little Bit Of Bitch In Him” - ou o caos frenético de “Riot” chegar mesmo a utilizar um sample da música “Good To Your Earhole”, da mesma banda, mas à medida que se ouve o álbum vamos tomando consciência de que o som é moderno o suficiente para que Awaken não seja uma mera réplica daquilo que as bandas deste género musical estavam a fazer há 40 anos atrás. É possível traçar muitas influências neste álbum, claro, desde Prince a D’Angelo, passando por Maxwell e Jimi Hendrix, mas há sempre um spin refrescante de volta delas – e a produção aqui tem um papel crucial. Talvez a maior prova disso seja a viagem épica de seis minutos que fecha o álbum.

Ouvir “Stand Tall” é uma experiência por si só. Começar com conselhos paternais para o seu recém-nascido filho e terminar a música ainda no mesmo comprimento de onda – “Keep all your dreams, keep standing tall / If you are strong you cannot fall / There is a voice inside us all / So smile when you can” -, só para ser ressuscitada com aquele sintetizador-foguetão – que grita Tame Impala, aliás – e que dá início à revolução musical que acontece na segunda metade da música, é o elo de ligação perfeito entre a infância de Gambino e aquela que ele quer dar ao seu filho. É o casamento entre o som antigo e o som moderno. A guitarra acústica cheia de groove, que entra perto do final, junto do resto da banda e ritmada sempre pela presença imponente da batida, é a conclusão ideal para esta jornada cósmica.

Independentemente da opinião que se possa ter do álbum, este é o projeto mais maturo de Childish Gambino. Mesmo que tudo isto seja algo estrangeiro para os fãs que esperavam um álbum de rap, Awaken, My Love! ouve-se como um álbum do qual tínhamos saudades e nem sabíamos. Tem alma, é contemplativo, inquietante e ternurento, pode ser algo estranho em partes e familiar noutras, mas acima de tudo é um álbum que tem uma fluidez notável. Se num momento ouvimos “Terrified” e tudo é desconcertante, tenso, embrulhado num ambiente notívago, a seguir entra “Baby Boy”, onde tudo é calmo e bem mais tranquilizante, culminando numa jam que nos faz lembrar Stevie Wonder e que nos faz viajar para tempos bem mais distantes. “The Night Me and Your Mama Met”, com a sua atmosfera bela e arrebatadora, encapsula em três minutos aquilo que se sente ao conhecer alguém especial e o nervosismo apaixonante de um primeiro encontro, e não há nenhuma outra música – desprovida de qualquer palavra, como aqui – que tenha feito isso tão bem este ano.

A última faixa acaba de maneira abrupta, como se alguém tivesse desligado toda a energia no estúdio de repente, e talvez isso sirva como presságio para o próximo projeto de Gambino. Ou então talvez não; o músico americano já provou que tem sempre intenções de impressionar a cada novo lançamento e portanto qualquer especulação que se possa fazer revela-se algo redundante. A única certeza que se pode equacionar é que o próximo álbum deslumbrará uns e alienará outros, como é regra na sua discografia. Mas por enquanto, Awaken, My Love! é a viagem perfeita a um universo longínquo e é uma revisita mais que talentosa de sons antigos.
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Childish Gambino - Awaken, My Love!
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