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Cosmo Pyke – Just Cosmo

Cosmo Pyke

Just Cosmo | 2017

PONTUAÇÃO:

 

 

 

 

Há cerca de um mês foi lançado na Internet, através da plataforma SoundCloud, um maravilhoso álbum de apenas cinco faixas, que apesar do número reduzido de músicas consegue nunca saber a pouco, sendo que as poucas que nele existem contêm uma enorme originalidade, qualidade e beleza. Algumas músicas podem ser facilmente associáveis à música de King Krule, sendo que a forma de cantar e os dedilhados de guitarra simples e belos fazem lembrar imediatamente o seu álbum de estreia Six Feet Beneath The Moon. No entanto, não demora muito para percebermos que Just Cosmo, o álbum em análise, vale por aquilo que é, pois as suas músicas são compostas com um sentimento único e revelam uma franca sensibilidade. Cosmo Pyke é um rapaz inglês de apenas 18 anos residente no distrito de Peckham em Londres, skater e artista de street art, mas também um talentoso guitarrista e cantor. Estreia-se agora com um álbum atmosférico e enternecedor onde demonstra indubitavelmente ser um talento a ter em vista.

O álbum deve ser ouvido como o ponto de vista de Cosmo, tanto a nível lírico como musical. Isto porque não só as suas letras expressam claramente várias perspetivas do artista sobre a sua vida, como a própria música expressa inevitavelmente a sua peculiar persona musical que passa por uma mescla de várias épocas, estilos e culturas. O resultado são sonoridades extremamente originais que fundem vários géneros de uma forma cuidadosamente descomprometida. Desde o hip-hop ao reggae e do jazz ao neo-soul Pyke, sem nunca se levar demasiado a sério, acaba por criar um género musical que pode ser descrito entre outras coisas como sonhador, etéreo e até ligeiramente psicadélico.  É também fácil associarmos o som de alguns efeitos de flanger e phaser que ele usa na guitarra com as estranhas sonoridades dissonantes popularizadas nos últimos anos por Mac DeMarco e Connan Mockasin, apesar de Pyke as utilizar em contextos significativamente diferentes, criando com a sua voz um estilo só dele em que demonstra ser um cantor dotado de uma capacidade admirável de misturar o rap e a balada de uma forma profundamente interessante.

Para além das suas composições musicais Cosmo Pyke escreve também com uma grande confiança e imagina bonitas frases para expressar os seus pontos de vista em relação a diversos assuntos da sua vida, abordando os mais variados temas com uma coragem e sinceridade louváveis. Abre-se sobre as contradições e complexidades do que sente em relação a uma pessoa amada na belíssima track “Wish You Were Gone”, faz observações interessantes e inteligentes acerca do impacto negativo das redes sociais nas relações amorosas e na vida em geral na faixa “Social Sites”, reflete sobre abandonar os estudos e questiona o seu futuro na música “After School Club”, apresentando-nos assim uma amálgama de descrições honestas daquilo que lhe vai na cabeça sem ter medo de se expor e se dar por completo, com todas as suas fragilidades e incertezas, mas também com todas as suas forças e qualidades.

Para finalizar deve também ser dito que uma das coisas que tornam este um álbum de tão caraterística singularidade é talvez principalmente a sua descontraída simplicidade. Pyke compreende que poucos instrumentos e sons menos complexos podem levá-lo bem longe, o que faz com que a forma simples com que este compõe e toca as suas músicas, recorrendo a melodias pouco complicadas, mas repletas de beleza, acrescentem uma dimensão curiosamente rebuscada às emoções que estas, juntamente com a harmonia da sua voz, transmitem.  E assim, porque tudo o que é refletido em demasia acaba por perder parte do seu sentido, passa a ser necessário que uma descrição deste álbum exista também dentro de uma certa simplicidade, visto que não há nada que possa ser dito que altere o facto de que este é um trabalho musical que merece ser ouvido, repetido e recordado, seja pela sua inovação, pela sua qualidade, pela sua beleza ou por qualquer outra razão que diferentes pessoas possam vir a encontrar, é sem dúvida um álbum que merece ser difundido e apoiado um pouco por todo o lado.

 

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Por Lucas Keating / 22 Maio, 2017

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