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Crystal Fairy - Crystal Fairy

Review
Crystal Fairy Crystal Fairy | 2017
Ana L. Marinho 15 de Maio, 2017
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Proposta a induzir o vómito desde 1999, a Ipecac Recordings introduziu no mês passado no mercado um novo xarope mágico, Crystal Fairy. Pelo laboratório discográfico independente nascido do génio de Greg Werckman e Mike Patton, além de grande parte dos trabalhos conduzidos por este em Faith No More, Fantômas, Tomahawk ou Peeping Tom, foram já prescritas fórmulas magistrais de nomes como Isis, Mark Lanegan, Young Gods, Bohren & Der Club of Gore e até de Ennio Morricone.

Os compostos de Crystal Fairy não serão também alheios às prateleiras dos maníacos da música de peso, sobretudo daqueles com especial adicção às medicinas com o selo de garantia de Patton. Crystal Fairy resulta pois da atuação de quatro agentes assíduos nos elixires da casa. Buzz Osborne e Dale Crover (Melvins), Omar Rodríguez-López (At the Drive In/The Mars Volta) e Teri Gender Bender (Le Butcherettes) formam uma solução coesa e concentrada de vontade para purgar os estados de alma enfermos.

O “superquarteto”, que toma o nome do filme Crystal Fairy & The Magical Cactus (2012) do realizador chileno Sebastián Silva, irrompeu de uma tour conjunta entre Melvins e Le Butcherettes no ano de 2015. Em cada uma das últimas performances de Melvins e a seu convite, Teresa Suárez (aka Teri Gender Bender) contaminava o palco para uma comburente reinterpretação do hino “Rebel Girl” (Bikini Kill). Rodríguez-López, amigo e companhia de Bender em Bosnian Rainbows, e entretanto ocupado da documentação fotográfica da tourné, partilhava com eles os espaços comuns, entre os quais a ideia e a vontade de se agruparem. Não tardou até que Crystal Fairy se fizesse sujeito e objecto.

Por contingências das agendas a preparação do LP foi dividida entre Los Angeles e El Paso e nele cabem onze temas que bem denunciam a substância activa dominante.

“Drugs on the Bus” foi o primeiro sintoma de um álbum potencialmente nocivo, pessoalmente, e um dos temas mais infestos. Se contagia pelo passo arrastado e pegadiço, reminiscente da antiga agressividade de Melvins, é a fusão da visceral dinâmica vocal de Teri que nos absorve e que faz desta uma das melhores composições. “Necklace of Divorce” e “Crystal Fairy” são-lhe as duas maiores adversárias. Se a primeira não for a mais arrojada, é seguramente a mais dramática. Como que num divórcio de ânimos, dois registos são contrapostos precipitando os desatentos julgarem ouvir tema distinto. O carácter reagente e a atitude protestante que Bender herda de Le Butcherettes e que é consequência de uma irreverência patológica conhecida por “riot grrrl”, identificável ainda em “Bent Teeth”, “Posésion” e “Vampire Xmas”, dão lugar a um contrastante salmo de arrependimento, com igual contrição no acompanhamento. Não seria, no entanto, merecedora de rotulagem inflamável, se não terminasse com nova acometida do humor e do tempo. A este propósito, especiais advertências recaem sobre “Chiseler” e “Bent Teeth” que, pertencendo ao grupo dos chamados agentes “antifleumáticos” e actuando através de andamentos convulsos e urgentes, provocarão surtos de pernas inquietas. Proscreve-se, por cautela, a condução de veículos ou a operação de máquinas.

Porventura o tema com um desempenho instrumental mais característico e robusto, “Crystal Fairy” tem na sua receita um baralho de manobra, vigor e ganho, apto a resistir aos (en)cantos e travessuras da confessa Fada de Cristal, que segue distribuindo vícios e feitiços.

Estéril a tentativa de o cristalizar no heavy metal, Crystal Fairy é um terreno movediço. Cada canção flui entre os estados mais clássicos do género àquilo a que a Rolling Stone cunhou de sludge psicadélico, e que a intensidade de “Moth Tongue” melhor ilustra.

Do ouvido imaculado ao ouvido incisivo colhe-se a impressão de candura. Um álbum sem pretensões ou vaidades. Um álbum, sobretudo, de íntima diversão e descoberta. Resta, para terminar, sarar a dúvida. Será correto espalhar ao vento as falhas de um trabalho em que o prazer foi o pretexto?

Parecer-nos-á perverso dar um relevo que não o acessório às estimulações monótonas provocadas pelo uso repetido, por vezes, de certas sonoridades. Se o compasso e instrumentação de “Under Trouble” puderem suscitar manifestações dessa habituação ou resistência, é também o aprumo e o timbre sofisticado da frontwoman que divertem atenções. Como se Teri fosse antídoto para todo o veneno.

Nota: este autor usa o Antigo Acordo Ortográfico
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