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Cult Of Luna & Julie Christmas - Mariner

Review
Cult Of Luna & Julie Christmas Mariner | 2016
João "Mislow" Almeida 03 de Maio, 2016
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Quem não conhece Cult Of Luna? Consigo dizer-vos com toda a certeza que esta é uma banda que ao longo dos anos se tem declarado cada vez com mais postura como um dos nomes de grande relevo dentro do Post-Metal. Um género pioneiro pela deformação biomolécular do Sludge e do Prog. Metal, cujo resultado pode encarar as mais complexas arquiteturas de som com a maior das simplicidades de caráter, algo que pode justificar os habituais extensivos registos de bandas como Isis, Neurosis, Tool, Altar of Plagues, Jesu, Russian Circles,This Will Destroy You, Nadja e muitos mais. O género por si utilizou registos como o Streetcleaner dos Godflesh, Meantime dos Helmet, Houdini dos Melvins e Waiting Room dos Fugazi que serviram como combustível e tela de inspiração para moldar a blueprint do género. Apesar de existirem linhas algo distorcidas no tempo aquando da criação exata do post-metal, consigo dizer que este adotou elementos do Metalcore, Space Rock, Post-Harcore, Noisecore, Prog e Doom, numa altura em que lançamentos da Relapse e da Earache Records usavam uma densidade mais notável de baixos e retratos mais debruçados sobre o abismo.

Estando neste momento ao mesmo nível de bandas como Russian Circles, Year of No Light, Light Bearer e Buried Inside, Cult Of Luna retrata-se como uma das grandes apostas da Earache no incio dos anos 2000, a contar já com um total de 7 lançamentos de originais, uma grande maiorias com um presença memorável no catálogo da banda, sem menosprezar o sucesso dos restantes álbuns que não obtiveram tanto louvor crítico como o Salvation ou Vertikal ou até mesmo o Somehwere Along the Highway.

Ao longo dos anos sempre foi característico dos suecos alterarem os planos de fundo ou as temáticas,e estas acabam por dar direção e força ao que vem depois. Variando desde temáticas como a eterna procura de validação espiritual, a industrialização da alma, a solidão e “self-conflict”, a banda tende construir, já por regra, panoramas de som com um enorme peso de alma, explorando céus frequentemente cinzentos a derramar lágrimas de chuviscos em tardes de inverno. Vagueando prolongadamente entre planicies de peso estonteante, cuja distorção te deixa confuso e sem orientação, e marés de pura paz e serenidade.

Numa fase em que a banda tenta baixar o ritmo de rendimento, num espaço de 3 anos desde o Vertikal, estes tentam não se apagarem por completo do espectro do mercado, lançando de lés a lés uma compilação, um ep e um split. Como uma inesperada surpresa anunciam o Mariner como álbum de colaboração, a contar com a Julie Christmas na proa do barco sueco.  A contar com 5 malhas de divina dádiva, o coletivo aposta no som furtivo, cuja densidade quase que personifica Moby Dick, num fugaz e efémero empurrão de presença. Altivos momentos de pura fúria transmitidos a partir de um muro de sensações claustrofóbicas, guitarras graves de esmagadora consequência, perfeitamente cooperativas com a muito notável voz de Julie Christmas, cujo contraste se eleva à medida da atmosfera. Algo que já notámos com muito respeito nos outros projetos em que a Americana esteve inserida.

Dificil dizer que isto é um som completamente renovado dos Cult Of Luna mas a presença de Julie contribui sem dúvida nenhuma para um som deliciosamente refrescante, algo cada vez mais dificil de encontrar no estilo em questão, e para além disso também se pode destacar o layout  e a nova viragem na temática do grupo, óbviamente inspirado na exploração espacial e na eterna procura do desconhecido. Para complementar essa visão, a banda procura enaltecer a presença de melodia através de elementos de elétronica e ambient, progressões pesadas repletas de cor e textura, combinações essas que ajudaram o álbum a obter uma vida diferente, mais vívida e a sobrevoar de extâse acima das linhas do céu.

Tentei percorrer o álbum o melhor que pude e as vezes necessárias para que não deixasse escapar nenhum detalhe que me pudesse ser crucial para completar o puzzle. O trabalho lança-se com a primeira faixa “A Greater Call” com um inicio calmo e divagante, a deixar acumular a antecipação até que por fim explode! Guitarras melódicas num poderio de reverb completamente fundidas com os berros rasgados em dualidade com a voz angelical da Julie, como que a abalar da superfície terrestre e a lançarem-se às camadas da atmosfera, isto tudo a marcar uma partida ainda com muita distância para percorrer, mas neste caso “devagar devagarinho”, e o som vai-se adensando com o resto do instrumental à medida que os growls assustadores dos suecos rasga o céu azul à nossa vista nua. Este é um exemplo do uso itensivo de melodia que o tema exige à banda, para que as sensações sejam genuínas no nosso coração.

Com um potencial enorme, o coletivo mergulha na “Chevron” com a dinâmica de explorar essa mesma dualidade de perceções. A voz da Julie persistentemente acompanhada pelo baixo e por um ritmo assimilativo, sustentando-se um ao outro numa progressiva mudança metafísica à medida que se distanciam do cinturão de Saturno. A distorção das guitarras, fundindo-se em melodia de uma elegância perfeitamente dançável e contagiante, banha-se numa explosão estelar com os synths polarizantes, intercetando a voz da americana que por sua vez se torna cada vez mais envolvida nas chicotadas do abismo e rasga-se até ir ao encontro do vozeirão nórdico que só por si reforça a imensidão da faixa.

Esta última e a próxima: “The Wreck of S.S. Needle”  são sem dúvida nenhuma os meus registos favoritos do álbum. A perfeita ilustração sónica do distanciamento terrestre e do perpétuo mergulho nas mais profundas fendas da nossa galáxia, justamente traduzida no Instrumental assutadoramente bélico. Um poderio de energia que em poucos casos consegui ver feito com boa ciência. Aqui é prolongada a consistência do álbum, continuidade de algo que tem sido perspicaz e bem calculado, e até aqui, só me apetece encontrar mais “Mariner”s pela internet.

A partir daí o som foi-se estagnando cada vez mais, até um ponto, que secalhar para mim, viajou demasiado distante, dando ao ouvinte uma combinação estranha de acordes e ritmos, nota-se o doom a aprofundar-se na “Approaching Transition” que como o nome indica, tenta recriar a lentidão dos confins cósmicos a uma altura já impossível de retornar. As dimensões vão-se abstraíndo e os sinais de vida também. Provávelmente a faixa que não me alcançou tanto quanto gostava mas entendo o contexto que esta tem no conjunto total. Apesar de gostar de diversidade e de saborear o som dobrado da banda só por si, já fico com saudades da dinâmica com a Christmas. Sem dúvida a mulher do jogo neste álbum.

Com a última faixa, o coletivo despede-se com um funesto som, e já que é para terminar, que se feche o álbum à grande e à francesa. Aproximadamente 15 minutos de incessante peso, a conjugar entre duas faces da mesma moeda, tanto guiado por breves descargas de ressonância discordante onde por pouco é dado tudo por tudo ao peso do som, como por perpétuas mas longas passagens de pura calma e paciência, com estas a banda tenta chegar a um ponto final na odisseia com um alcance e uma despedida lacrimejante, recolhendo no final da viagem, os pontos altos e os pontos baixos, os momentos de sublime elação e os de dolorosa cicatrização, a esta aventura é justa de chamar “Mariner”

É a minha vez de dar fecho à minha aventura, e posso dizer com toda a satisfação, que este álbum é brutal. É normal negá-lo ao início mas insisto que lhe dêm uma segunda, terceira e quarta oportunidade para apreciar com atenção às pequenas subtilezas e interiorizar a fotografia maior. Espero poder ver mais de Cult Of Luna nos próximos meses (não me importava de ver umas datas europeias a correr pelas redes) juntamente com a Julie Christmas que me conquistou a atenção, aparentemente, sem grande esforço.

Aqui fica, Mariner.
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