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David Bowie - BlackStar

Review
David Bowie Blackstar | 2016
João Rocha 11 de Janeiro, 2016
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Eleanor Friedberger - New View

TV Rural - Sujo

O exercício de tentar relembrar todas as personagens de David Bowie ao longo da sua carreira pode levar a um grande momento de frustração de memória ou cultura geral. Do andrógeno Ziggy Stardust, a um fanático por bolas de cristal enquanto Rei Goblin, sem esquecer o saudoso Major Tom, em 2013 com “The Next Day”, o camaleão esperneava-se para tentar camuflar-se entre a maturidade da carreira e a sonoridade rock dos novos tempos. É, no entanto, no início de 2016, que Bowie, com “Blackstar”, atreve-se a contrariar as suas mil e uma imagens ousando ser ele próprio.

Em muito a carreira deste astro do rock foi construída com base na sua esquizofrenia pessoal. Aladdin Sane era a evolução do irreverente Ziggy Stardust, Major Tom o heroico navegador no espaço, enquanto que The Thin White Duke era um galã desprovido de emoção. No entanto um aspecto comum ligava as suas vidas: o abuso de drogas. Possivelmente é através desta dependência que surge a necessidade patológica de criar e matar personagens. Mais tarde em 1980 com “Ashes to Ashes”, já Major Tom viajava pelo espaço fazia onze anos, este volta a ser mencionado como um passado que para trás ficou, metáfora de um Bowie livre de dependências.

Não é pois à toa que “Lazarus” é escolhida como única música retirada do seu espectáculo com o mesmo nome. Alguém que se esgotava criativamente, ressuscitava tempos depois, conceptualmente novo e refrescante. O mesmo se passa com este vigésimo quinto álbum da sua carreira. “Blackstar” é um novo despertar artístico que apesar de ser transversal a vários momentos do seu percurso (não é a primeira vez que o ouvimos a enveredar pelo Jazz), soa arrojado e inovador, mas acima de tudo profundamente pessoal.

O álbum começa com a faixa homónima, que apesar de se encontrar dividida em duas partes conta uma só história: a sua. O início mais esquizofrénico e alienado, progressivamente transforma-se em algo mais acolhedor e confortável, glorificando a sua existência através da sua significância. “’Tis a Pitty She Was a Whore” já nos era conhecida do ano passado, mas aqui com uma roupagem diferente, onde fazem-se salientar os arranjos soberbos por parte do mestre Donny McCaslin. A vertente de sopro Jazz que este traz ao álbum, é em grande medida o factor que faz de “Blackstar” uma aposta bem sucedida, como se faz bem notar na obra prima que é “Lazarus”. Nesta conjuga-se perfeitamente a meio-termo o rock clássico e pessoal que Bowie nos tem dado a conhecer ao longo dos anos, com o saxofone avant-gard de McCaslin. Sendo um dos dois melhores momentos do álbum, é no outro momento que voltamos a re-encontar esta fórmula. Assim como em “Lazarus”, “Dollar Days” é um manifesto a um percurso agri-doce que o fez ser quem é, que o faz ter adorado cada momento (até os maus), mas que agora não consegue viver de outra forma que não à distância dessa realidade, razão provável pela qual actualmente o Camaleão da música não concede entrevistas.

“Blackstar” não é um mero álbum: é jazz e rock, é brilhante e negro, experimental e clássico, inovador e previsível, revoltado e conformado. É a metáfora perfeita de uma vida que se fez de altos e baixos, que aprendeu com tudo o que ela lhe deu e que agora senta-se num lugar que é seu mas que não se importa de ceder. O álbum pode terminar com a sua faixa mais fraca, mas é com “I Can’t Give Everything Away” que Bowie faz anunciar a morte de uma estrela que já não quer viver da sua outrora glória, nem que se quer re-inventar (talvez isso lhe esteja inato no sangue). Não pode renegar a sua história, está conformado que ela criou-o, e sente-se agradado com isso. É desta aceitação e ausência de medo do futuro que no fim de contas fez um álbum de glorificação e penosa nostalgia à sua imortalidade, que com ou sem corpo presente, sabe que Bowie se fará ouvir sempre.
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