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WAV

Deafheaven – New Bermuda

Deafheaven

New Bermuda | 2015

PONTUAÇÃO:

8.5

 

 

 
Como é que um artista se redescobre e se reinventa para continuar a partilhar com o mundo grande parte da sua visão?

Provavelmente esta foi uma pergunta com que os californianos Deafheaven mais se bateram nestes últimos anos. Se me fosse permitido descrever o New Bermuda numa frase, diria qualquer coisa como: O New Bermuda é um álbum de Black Metal com elementos de Post-Rock, Trash e Shoegaze, enquanto que Sunbather é um álbum que mistura Post-Hardcore, Shoegaze e Post-Rock com Black Metal.

New Bermuda é, provavelmente, o álbum mais Metal da banda, conseguindo algumas das músicas mais intimidadoras, afiadas e intensas que os Deafheaven já gravaram. Para isso contribuem os vocais altamente intensos e mais severos que George Clarke, vocalista da banda, já nos apresentou, com letras impercetíveis que falam de temas como depressão, natureza ou existencialismo e que interpretam um papel fundamental na equação. A juntar a isso temos algumas fantásticas leads na guitarra, alguns tons diferentes de álbums anteriores, com layers suficientes para criar esta atmosfera sombria e vaga. As dinâmicas do álbum e a variedade de influências apresentadas pelas guitarras permitem manter o interesse à medida que o album avança. Algumas das minhas partes preferidas respeitantes às guitarras, são sobretudo nos momentos mais subtis, calmos e gentis, com influências, novamente, de Post-Rock. O trabalho do baterista, Daniel Tracy, aqui também é fantástico, mesmo dispondo de menos tempo para respirar, consegue suportar a música e dar-lhe corpo, sempre com qualidade de som e com técnica apurada. Os blast beats são constantes, adequados, fortes e factor chave para a grandiosidade das partes mais arrebatadoras do album.

Em relação às músicas propriamente ditas: Há uma fórmula um pouco diferente do Sunbather, há menos tempo despendido em fade outs e em secções melódicas. “Brought to the Water” começa com um riff trashy – uma versão moderna de um riff de Slayer – seguido de um belo interlude de Post-Rock. Constantes crescendos e repetições de versos que acabam numa bela melodia de piano.

Segue-se “Luna” – o primeiro monstro de dez minutos – e que é possivelmente a melhor música de todo o álbum. Começa, também, com um ritmo trashy e os harsh vocals demoram pouco a aparecer. Esta música tem uma dinâmica interessante e faz parar a respiração para saber o que se vai passar a seguir. Estes versos explodem uma melodia lindíssima de piano, a uns 5 minutos da musica acabar, que se misturam com mais um riff de Post-Rock que volta a fazer a música crescer em brutal intensidade. São os Deafheaven a dizerem quem são, levantando o seu cartão de identificação e a mostrar o seu melhor lado: Cutting edge vocals, weeping guitars, athmosphere, pianos and blast beats.

De seguida na tracklist aparece “Baby Blue”, possivelmente a música mais esquecível de todo o album. O que me faz perder o interesse nesta música, apesar do excelente riff atmosférico de três minutos, no final do verso surge um “Wah solo” demasiado fraco para o nível que eles nos habituaram e que simplesmente não soa bem, culminando com vários segundos de shredding. Pessoalmente, considero a parte menos boa de todo o álbum. A música acaba ainda assim por terminar numa sample, tal como já tinha ocorrido em Sunbather. “Come Back” tem uma introdução  com guitarras a voar notas que dura apenas uns segundos, quando entra mais uma blast section de cortar o pescoço. E com mais versos incríveis, arrepiantes mesmo. A restante metade da música é possivelmente o melhor riff do álbum, com uma enorme sensação de Sul dos Estados Unidos: Um loop com toneladas de lush e reverb.

Depois deste álbum, haverá muita gente na comunidade de Metal – comunidade essa que sempre teve problemas em aceitar bandas como os Deafheaven, Bosse-de-Nage ou Woods of Desolation – que finalmente irá aceitá-los sob a sua alçada. Não que seja especialmente relevante, pois o que é realmente importante é que a música de Deafheaven é o perfeito contraste entre beleza e agonia, e este é o seu álbum mais eclético, maduro e menos aventureiro até à data.

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Por Francisco Silva / 19 Outubro, 2015

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