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Death Grips – Bottomless Pit

Death Grips

Bottomless Pit | 2016

PONTUAÇÃO:

8.0

 

 

 

A meio de uma série de semanas em que contamos com o lançamento de imensos esperados álbuns, desde Lemonade de Beyoncé, Views de Drake, Nonagon Infinity dos King Gizzard & The Lizard Wizard e claro, o mais recente esforço de Radiohead – A Moon Shaped Pool, é nos oficialmente entregue o novo trabalho de Death Grips. Já há algum tempo se esperava pelo enigmático lançamento deste LP (que foi vítima de um leak cerca de uma semana antes do lançamento oficial) e pela habitual cacofonia que este trio, constituído pelo psicótico e hiperativo MC Ride, o produtor e baterista Zach Hill e co-produtor Andy Morin, nos tem habituado.

Bottomless Pit é o resultado de um ano recheado de sucessos para o grupo após o lançamento do duplo álbum The Powers That B que arrecadou um bom aglomerado de críticas e reconhecimento internacional, sendo considerado, por alguns, como um dos melhores álbuns do ano que transitou. Para além disto, várias figuras conhecidas como Tyler, the Creator, o guitarrista Tom Morello, a recentemente falecida lenda David Bowie, Iggy Pop, e até o realizador Edgar Wright, demonstraram publicamente o seu apoio e admiração ao grupo californiano. O facto de Death Grips continuarem a ser e terem atingido o auge do seu estado como meme na atual cultura da internet também contribuiu para a disseminação do seu trabalho e para que as expectativas fossem elevadas.  Apesar de os concertos na edição deste ano do Coachella Festival, pouco ou nada, terem revelado sobre a natureza ou novidades que este novo registo poderia oferecer, o álbum consegue definitivamente sobreviver ao hype e às expectativas que o assombravam e é se logo, rapidamente arrebatado pela dualidade que existe: continuando a apática aleatoriedade que envolve toda a discografia de Death Grips, BP (Bottomless Pit) consegue ser provavelmente o lançamento que mais violentamente experimental e extremo se torna, mas ao mesmo tempo, um dos mais acessíveis e diretos quanto à direção que toma, equiparando-se à qualidade elevada em The Money Store. Parece-me até que o trio tenta expandir a sua base de fãs e assim tornaram-se mais aceitáveis pela vasta generalidade do público.

Irreverência, esquizofrenia, caos, sujidade, morbidade apatia e rebelião são caraterísticas que têm sido transversais à sonoridade de Death Grips ao longo dos anos e BP não é uma exceção, sendo dotado de um sentimento caótico cada vez mais marasmo e mais direto. As mensagens entregues por Steffan Burnet (MC Ride) são constantes animalescas asserções de indiferença, algum ódio, apatia e mostra o comportamento pouco recetivo que o grupo tem demonstrado perante tudo e todos – incluindo fãs e crítica.

“We know trash, we know clean don’t last/Never last when we load trash/We upload trash/Face down, trash begets trash”Neste tema, “Thrash”, Ride tece uma crítica à visão materialista e pouco sentimental que as sociedades modernas induziram. O facto de vivermos numa era digital e de enorme consumismo levou a que tudo eventualmente se torne “lixo” para nós, mesmo aquilo que inicialmente tanto apreciamos passa a tornar-se irrelevante, pois nos acostumamos a estar rodeados por esses utensílios/pessoas. MC Ride sabe, também, que ele próprio é uma vítima desta condição.

“No one’s ever seen me feel shit but eh / Lil’ bits of eh gleaming like Piss Christ / (…) Shoot a glance at the desperate like / Then I forget shit like Death Grips like, eh / I wave them off, I wave them in / Gotta flake, I fuck ‘em off ‘cause I ain’t them”. Em “Eh”, MC Ride demonstra indiferença e total aversão por tudo em que se envolve, fazendo comentários negativos a quem o tenta compreender/ajudar, referindo o seu vazio sentimental, a sua visão negativista e ameaça mesmo ao dizer que era bem capaz de abandonar os colegas sem grande alarme, provocando-lhe pouquíssima dores de cabeça ou qualquer forma de arrependimento. Por sua vez, no tema de abertura “Giving Bad People Good Ideas”, há uma clara e objetiva observação ao facto de a música e a arte em geral, servirem como um meio de incentivo à corrupção ou mesmo até de corrupção.

Os idiossincráticos, por vezes quase impercetíveis, gritos de Steffan são já uma marca do mesmo que continuam a aparecer ao longo de todo o registo. Optando por adotar uma lírica mais frontal e objetiva sem grandes rodeios, isto ajuda a construir o ambiente animalesco, visceral e brutalmente concreto do álbum. Embora continue a existir este lírico desinteresse aparente, temos sempre o elemento cómico aliviante das letras de MC Ride que conjuga perfeitamente com a excelente e primorosa produção eletrónica de Zach Hill inserindo-se num contexto de elevadíssima música eletrónica e experimental que nos tem sido disponibilizada ao longo da última década. Há a construção detalhada de uma ténue linha entre a insanidade e a desconvidativa lucidez durante os quase 40 minutos de duração do disco que ortodoxamente é composto com 13 composições que pouco excedem a marca dos 3 minutos. Há uma mistura acentuada de diversos géneros musicais e de influências, ideias e conteúdos que originaram de tudo um pouco o que se insere no quotidiano de Death Grips.

Como referi anteriormente, Bottomless Pit é profundamente influenciado por ambientes mais extremos, sufocados com ódio, estridência e revolta comos os ideais anárquicos e tumultuosos abrangentes à sonoridade Punk. Tal pode ser observado em temas como “Giving Bad People Good Ideas” e “Hot Head” devido à incorporação de “blast beats” e guitarras extremamente distorcidas caraterísticas de géneros mais demolidores e derradeiros como Grindcore. Em contraste, existe também uma assimilação de timbres mais convidativos e sedutores. Os menos distorcidos sintetizadores industriais projetam uma sonoridade borbulhante e efervescente, tornando-se cativante e deixando-nos cada vez mais agarrados à medida que ouvimos uma e outra vez o álbum. Em tracks como “Thrash”, “BB Poison” e “8080808” a batida, a sonoridade e o rumo que toda a instrumentalização toma torna-se viciante e excecional. Não poderia deixar de mencionar “Eh”, que para além de ser a música que melhor salienta esta caraterística aliciante sonoramente, é juntamente com “Hacker” (The Money Store), o mais próximo que o trio se encontrou de um hit de radio e o mais afastado da originalidade monstruosa que costumam criar.

Outra peculiar discrepância estrutural que nos é concedida refere-se à existência de refrões que se repetem frequentemente durante a maioria das músicas, algo que não tem acontecido com tanta regularidade em álbuns anteriores. Este facto, faz com que BP apreenda uma vibração constante e similar e se torne o álbum mais próximo de The Money Store na sua generalidade. Contrastando com a desorganização estrutural e as exorbitantes mistelas musicais das últimas gravações, BP é ineditamente direto e adota uma digestão surpreendentemente fácil de se fazer no meio do selvagem tsunami de cacofonia. Este disco possui definitivamente o melhor fim numa gravação que podemos encontrar na discografia destes americanos. Este álbum torna-se uma composição musical que merece a sua presença como a música que mais se sobressai devido ao incrível balanço de todos os traços e qualidades que o álbum ostenta num só tema, para além de ser extremamente cativante.

Concluindo, Bottomless Pit é um dos melhores registos do grupo. É um álbum bastante consistente e de elevada qualidade que mantêm toda a sonoridade abusiva e excentricidade a que nos acostumamos, revestida de duras e hilariantes constatações degeneradas, nefastas e absurdas de MC Ride, servindo como um álbum de progresso e evolução enquanto, a meu ver, continuam a aperfeiçoar e levar ao extremo a maníaca mensagem sónica de audácia desrespeitosa, atrevimento e insolência de que são autênticos portadores.

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Por João Ricardo / 18 Maio, 2016

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