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Elza Soares - Deus é Mulher

Review
Elza Soares Deus é Mulher | 2018
João Rocha 31 de Maio, 2018
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Between the Buried and Me - Automata I

The Body - I Have Fought Against It, But I Can’t Any Longer
Elza Soares teve de esperar anos - décadas, mais precisamente - para ter o reconhecimento musical que merecia. Em 1999 a BBC considerou-a cantora brasileira do milénio, mas a nível de popularidade pouco ou nenhum efeito provocou dentro ou fora do Brasil. O que lhe deu foi um estatuto dentro dos seus pares que a possibilitou de fazer um álbum de originais à sua medida. Muito impulsionado pelo seu grande amigo de longa data Caetano Veloso, nasce em 2002 Do Cóccix até o pescoço, que juntava na composição e na produção a crème de la crème da música brasileira. Chico Buarque, Gilberto Gil, Seu Jorge, Jorge Ben Jor, Arnaldo Antunes e o próprio Caetano foram assim os grandes responsáveis por detrás de um álbum que mudou a opinião pública de Elza, e que trouxe o MPB para o futuro, demostrando que o género era versátil e podia ser perfeitamente híbrido e actual. Permanece como um dos trabalhos obrigatórios na discografia da cantora, e um dos mais importantes álbuns da história brasileira.

Até lá, a fama dela mantinha-se muito perto da sarjeta. Era menina favelada, negra, desavergonhada (por sempre se ter assumido dona de si e do seu corpo), divorciada, e não havia para ela espaço no Brasil conservador e religioso da altura (não esquecer que a carreira de Soares começa na década de 60).  A sua atitude ousada, enérgica, e voz inconfundível não chegavam também para surpreender a classe musical brasileira, que a rebaixavam a uma mera sambista, não obstante das inúmeras participações de estúdio, ao vivo e televisivas que fez com outros artistas consagrados, como é o caso da arrebatadora interpretação de “Brasileirinho” que fez com Baby do Brasil (Novos Baianos) num programa da TV Globo – que aconselhamos que vão ver e ouvir neste preciso momento – que foi este ano repescada e celebrada justamente na homenagem que fizeram a Elza Soares em São Paulo.

Fossem apenas estas as amarguras que a vida tinha reservado para a cantora carioca, e poderia ter tido uma vida muito feliz. Mas infelizmente não: aos 12 anos o pai “vende-a” a um vizinho para que com este casasse. Desse casamento resulta o primeiro filho apenas com 13 anos. Dois anos mais tarde morre-lhe outro filho, e aos 21 perde o 1º marido, ficando assim viúva com 5 filhos para criar. Viveu mais de uma década em tempos muito difíceis, onde trabalhava numa fábrica para poder colocar o pão na mesa, e mesmo assim o dinheiro que entrava era insuficiente. Durante essa altura, um casal de alto estatuto social e económico propõe-lhe que lhes entregue a sua filha, que dela cuidariam como se deles fosse, dando-lhe uma educação que nunca poderia ter com Elza, mas mantendo-a ao alcance desta para que a pudesse visitar e manter o contacto. Desesperada aceitou, e no momento em que coloca a criança no carro, este arrancou para nunca mais a ver (viria muitos anos mais tarde a encontrá-la já adulta e bem na vida). Mais tarde, aos 32 anos, conhece a estrela do futebol Garrincha, e este divorcia-se para ficar com Elza. Não demorou muito tempo até a cantora perceber o erro em que se tinha metido, tendo o seu novo esposo um historial com a bebida. Assim, viveu um matrimónio recheado de abuso físico e psicológico, de onde resultou apenas uma criança, que viria a falecer em 1986, três anos após Elza Soares se ter  divorciado do jogador da seleção brasileira.

Foi esta vida madrasta que fez dela a mulher do fim do mundo – como batizou o seu penúltimo trabalho -, tendo vivido uma vida tão no limite que sem a sua força de carácter e garra, não seria de todo suportável. E foi esta história intensa que lhe deu a admiração e respeito que Elza merecia. Durante todo este tempo, nunca abandonara a música – a sua grande paixão -, e aproveitando a onda do feminismo que se começou a viver um pouco por todo o mundo, Elza Soares torna-se um símbolo. O nome espalha-se dentro e fora do país, e os concertos começam a multiplicar-se no Brasil e na Europa. É a força de cantar que a move, uma vez que a idade já o impede, e é a sua alma e voz de guerreira, de sobrevivente, que atrai as massas para os seus concertos. É assim que o Brasil acorda para a diva escondida que sempre teve, e rapidamente arranja um lugar no coração para ela, um lugar que sempre lhe foi merecido (um lugar talvez maior do que o de Elis Regina?).

Pode parecer-vos que já me estendi bastante naquilo que se propõe ser uma review de um álbum – sem dele falar -, mas 87 anos de vida, principalmente com uma história como esta, não se resumem em meia dúzia de frases, e acima de tudo seria impossível compreender este novo trabalho de Elza Soares sem percorrermos toda a sua história. Deus é Mulher, o seu novo álbum, é um reconhecimento geral, e uma confiança desmedida depositada em Elza, para que esta possa ter um trabalho com uma produção à altura do seu talento.

O processo criativo continua a permanecer a Guilherme Kastrup, que mantém a mesma fórmula de A mulher do fim do mundo: samples sujos e guitarras distorcidas a contrastar com a limpidez das cordas e dos instrumentos de sopro. No entanto, neste novo trabalho, tudo soa mais exuberante e mais rico, de certa forma até mais intenso e apaixonado. Há um claro acréscimo no investimento feito na produção, mas a magia continua a residir na voz e ousadia de Elza Soares. Em Deus é Mulher, assume uma atitude punk, e na dianteira do enorme grupo de pessoas que a seguem põe em causa a política, a educação, a sexualidade, o sexismo, enfim, todo o sistema em geral. É o seu historial de vida, mas acima de tudo o querer mostrar que é o mero facto de viver, que lhe dão esta autoridade transformada em rouquidão.

O início do álbum segue as pisadas do seu antecessor. A voz da cantora carioca surge só e introduz logo ao que vem: “Mil nações/ Moldaram minha cara/ Minha voz/ Uso p’ra dizer o que se cala/ O meu país/ É meu lugar de fala”. É com este samba de Douglas Germano, e com arranjos do próprio Guilherme Kastrup que se inicia “O que se cala”, a primeira faixa. Nela, somos logo alertados para o sofrimento vivido por Elza, mas que a sua voz será sempre usada como galhardete do seu pensamento, e da sua vivência enquanto mulher livre. Nasce assim em 2018 um novo hino punk na história da música brasileira.

Segue-se “Exu nas Escolas” (“Exu” refere-se a uma divindade criada pelos escravos africanos quando estes começaram a misturar a sua religião com a indígena e a dos europeus, formando-se no Brasil o Candomblé enquanto religião), onde aborda um dos temas mais controversos dentro do Brasil na actualidade: o projecto-lei “Escola sem partido”. Apresentado pela bancada evangélica, o texto define que todas as salas de aulas tenham um cartaz com as obrigações do professor. Este faz-se pautar por uma conduta heteronormativa onde se proíbe o uso da palavra “género” ou a expressão “orientação sexual”. Fica também o professor impedido de abordar questões políticas, não podendo abordar o direito à manifestação ou outros que tais. E obviamente vindo de uma bancada evangélica, a lei coloca a educação escolar abaixo da educação familiar/moral, nunca podendo sobrepor-se a esta. Apelando à diversidade social/cultural/religiosa – “Exú nas escolas/ E a prova do ano/ É tomar de volta/ Alcunha roubada/ De um Deus iorubano” -, surge esta canção, na qual Elza assume o refrão para acusar o uso do entretenimento como distração ao que acontece – “Exú no recreio/ Não é show da Xuxa” -, enquanto Edgar aproveita todo um rap para acusar fortemente toda esta situação – “Se Jesus Cristo tivesse morrido nos dias de hoje com ética/ Em toda casa, ao invés de uma cruz, teria uma cadeira eléctrica”-. A questão religiosa volta mais tarde a ser abordada no tema “Credo”, mas aí não existem dúvidas e Elza é direta na sua liberdade, cantando que “Minha crença eu te conto de cor/ Não preciso que ninguém me ensine/ Que o amor é o deus que não cabe na religião”.

Deus é Mulher, o título do álbum, não pode ser mais claro no que ao seu tema toca. Se por um lado há uma forte componente de liberdade e até de alguma ruptura religiosa, no outro há uma pessoa que se afirma sem medo ou sem pudor como mulher. Dois lados distintos, mas não diferentes, pois ser mulher é poder ser tudo. Assim como ao homem, também assiste à mulher o desejo carnal, e esse nem com oito décadas de existência parece esmorecer em Elza Soares. O título da música não dissimula a vontade, e em “Eu quero comer você” encontramos uma mulher pronta para o jogo da sedução. “Eu quero dar p’ra você, mas eu não quero dizer/ Você precisa saber ler”, ouve-se no refrão de uma canção muito explícita e descritiva no como tudo poderá acontecer. No entanto, todo o poder da feminidade acontece no single de apresentação “Banho”, que resulta também no ponto alto do álbum. Haute couture, foi escrita para Elza na sua exata medida, como se de um vestido se tratasse. E que bem que lhe assenta! Escrita por Tulipa Ruiz, o texto encaixa na perfeição na atitude que Soares sempre nos apresentou, o que faz com que a sua voz soe aqui melhor do que nunca. A ela junta-se um coro feminino, forte como ela, e a percursão pujante de Ilu Obá de Min – uma coletividade de mulheres negras de São Paulo –, criando uma canção toda ela no feminino.

Em Deus é Mulher não encontramos uma cantora que se quer afirmar enquanto divindade (apesar de para nós o ser), ou que pretende chocar apenas por chocar. Deus é tanto mãe como é pai, e acima de tudo somos todos seus filhos, sem diferenças, iguais e livres. Essa é a mensagem que Elza Soares tenta passar com a sua vida e com a sua voz. Esta última usa-a como arma, usa-a pelo seu amor divino pela arte de cantar, como podemos ouvi-la em “Língua Solta”, “Quero voz e quero o mesmo ar/ quero mesmo é incomodar”. Que o continue a fazer durante muitos anos, porque por cá, continuamos a querer ser incomodados pela diva brasileira.
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