Emptiness - Not For Music - Wav
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Emptiness - Not For Music

Review
Emptiness Not For Music | 2017
João "Mislow" Almeida 06 de Fevereiro, 2017
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Com 2017 a arrancar bem com datas de concertos e cartazes de festivais, podemos dar-nos por satisfeitos com a qualidade de alguns dos lançamentos de arranque do ano que já estão cá fora. Já com uma agenda bem apertada de registos muito esperados, temos de nos contentar com o que já saiu e com o que daqui a duas semanas haverá de estar cá fora. A evitar listas e focos desnecessários, a atenção está neste momento virada para estes belgas. No pavimento algo anestesiado do metal belga onde somente bandas com o carácter único e sofisticado do hardcore punk e sludge (Amenra, Wiegedood, Oathbreaker e Hessian) é que conseguem saída para o mercado exterior, é nesse sentido que Emptiness acaba por ser um desfavorecido, um underdog no cenário internacional, apesar da imensa experiência de actividade no mercado. Mesmo estando juntos desde 1998, os belgas só começaram o seu percurso de registos com duas demos em 2000 e 2002, tendo só depois disso lançado o seu álbum de estreia Guilty to Exist, em 2004. Este último, diga-se de passagem, é naturalmente fraco, sem ambição e sem definição, e objetivamente medíocre, não há como escapar essa realidade. Com Oblivion, em 2007, já numa editora mais reconhecida, a banda consegue melhorar o som e definir algumas linhas de lógica, mas no global é uma genética que está já perfeitamente cunhada no black/death polaco em bandas como Vader, Behemoth e Hate. Em 2012 lançam Error que mostra imediatamente alguma independência na postura musical, pode-se até dizer que é neste ponto que a banda começa a marcar a sua transição para o destaque no meio de um cenário musical saturado e marcado pela sua genérica normalidade. Aquilo que desenvolveram neste registo, passaram para o Nothing But The Whole que se torna ainda mais obscuro e característico, que tem força suficiente para transportar o ouvinte num romance de sensações e texturas, sempre impulsionado por um característico contexto de afinações baixas, e simulando uma casa assombrada, esta é uma fachada que atrai, agarra e amarra com força! É impossível negar a qualidade em demonstração nesta mudança de rumo, uma clara tentativa para sair da rotina da permanência igual e digamos que foi, bem conseguida!

Mesmo a tocar música que contradiz a sua “classificação”, os critérios diluem num meio que ainda preserva a mesma atmosfera apesar da transfiguração de fronteiras entre o ritmo e a cor das guitarras, e mesmo perante vocais que se recuam de tal forma no fundo dos instrumentos, que quase faz parecer um eco no fundo da caverna, é aqui que as definições alteram e o resultado final se torna incrivelmente interessante de se ouvir. Um registo sem dimensão, apesar da força de impressão, mas que avança por igual com todos os elementos em perfeita sintonia. Apesar da atmosfera assombrosa e deprimente, Nothing But The Whole reúne todas as condições para ser um novo exemplo de black metal moderno, e dito isto tudo, a harmonia neste álbum só é encontrada por quem a procura. Apesar da personalidade catalisadora, muitas das faixas são funcionais e eficientes no seu intuito, definitivamente crucial no elemento atmosférico da coesão global do registo.

Chegamos ao dia de hoje onde, felizmente, há cada vez mais bandas a tentar algo diferente e deparamo-nos com os Emptiness a lançarem Not For Music, através da muito relevante Season Of Mist (Sinistro, Abbath, Inquisition, Gorguts, Rotten Sound e Wormed),  numa situação onde temos uma editora que é inquestionavelmente uma das mais gritantes no investimento de música estranha e inovadora dentro do metal, e uma banda cada vez mais confortável na sua direção em se diferenciar do resto na sua própria natureza algo Avant-Garde. Admita-se, no entanto, que nunca o risco é proporcional ao sucesso garantido, isto é um registo que arrisca muito e que infelizmente não deve convencer todo e qualquer ouvinte. Verificar-se-á mais tarde que este é um álbum que vai acolher e bem qualquer ouvinte acostumado à estranheza dos The Cure e Christian Death mas que por bem ou por mal, se sente igualmente confortável a ouvir Mayhem e/ou Emperor, e sim, estes quatro nomes estão na mesma frase!

“Meat Heart” é a primeira faixa e arranca com uma onda de emoção como se numa viagem de cores passageiras a consciência cegasse, algo que ajuda sempre a adormecer (no bom sentido). Com os pixeis de iluminação a subjugar a transparência da música, a melodia desaparece e ouve-se cordas a rastejarem os recantos do corpo, sinistro e profundo, a voz surge e num mergulho imediato o ouvinte é transportado para um mundo completamente diferente, imerso em escuridão e hostilidade, frio, podre e corrompido no seu núcleo, inesperadamente e a funcionar em perfeita sintonia, a bateria e o baixo transformam a desconfiança e relutância do início em algo surpreendentemente dançável e remanescente do darkwave e deathrock dos anos 80. A simplicidade dos instrumentais facilita, sem dúvida, a digerir a sonoridade global, mas o que lhe eleva muito acima da fasquia é a relação vocal-guitarra, onde o contraste é monstruoso e muita da emoção e cor luta contra o monocromo do drone de fundo. A faixa interrompe-se e retorna a ganhar fôlego com a nostálgica batida com synths a sublinhar o reverb das guitarras em êxtase com o sussurro das cordas e vocais, e por aí fica.

Logo com a abertura destaca-se a naturalidade com que a banda se opõe a um seguimento convencional de secções na estrutura da música, compreendem e abrangem a funcionalidade do esoterismo dos elementos wave interceptados pelas cores deprimentes das cordas desesperadas por circulação.”It Might Be” desenvolve esse mesmo argumento com imenso estilo e característica, dificilmente se deixa passar despercebido mas ao lado da “Circle Girl”, estas duas são as faixas com mais argumentos de malha! Esta última é sem dúvida a mais “metal” e castigadora de todas, mas não deixa de depender das transições melancólicas para se identificar em sequência com o percurso do álbum. O seu epicentro conta com as berrantes cordas de guitarra a rasgar o bordado celestial da nossa mente, como uma cama de pregos a acentuar a ansiedade do ouvinte. A bateria, mais uma vez a proporcionar o elemento dançável à atmosfera e a facilitar a imaginação de que um dia este álbum pode vir a passar numa discoteca perto de nós.

Como se a quantidade de faixas estranhamente bem compostas que enfrentámos até aqui não fossem já muitas, deparamo-nos agora com “Digging The Sky” que começa tão calmamente e despida, cordas no altar a cantar com clareza e distinção, notam-se as cores do fundo, os vocais em sintonia, gravíssimos como apóstoles a declamar colecionam o ritmo entre as linhas das cordas, uma relação que até aqui ainda sobrevive no registo, a faixa desenvolve-se numa lentidão até a distorção e a bateria se juntarem em função de um dos momentos mais memoráveis do álbum, a sensação claustrofóbica de perseguição, uma correria incessante entre as ruas de Bruxelas, as arquiteturas e as arcadas a perfurar a consciência em andamento, suor quente a pingar a calçada do chão, enquanto um vácuo na mente persegue toda a existência do fugitivo, não há escapatória. Como um cancro, a dor domina, os membros paralisam, o sangue pára e o coração estremece num grito enforcado, calou-se de um segundo para o outro. “Ever” leva o título da faixa mais catchy e contagiosa do álbum total, a música que melhor consegue descrever a estranheza em que a banda se colocou com este mergulho ainda mais intenso no desconhecido. Algo que a banda qualifica como uma exploração em “nothingness”, mas se o “nada” assim soa, esperamos poder ter oportunidade de encontrar mais artistas com este resultado final em 2017.

A penúltima faixa desenvolve-se em torno de choro de guitarra a contrastar com as teclas dos synths, numa melodia funerária e compulsiva, como gotas de sangue a cair no pavimento do soalho, o baixo é gritante nas transições, grave e pulsante, a rasgar as batidas uniformes até entrar em loop com a melodia, e mais uma vez o contraste a manter a pouca vida que sobra da música num êxtase vivido e com potência suficiente para abraçar e sublinhar o texturado dos tecidos, como veludo banhado em petróleo. Em percurso do final, a faixa vira tão graciosamente para uma batida tão altiva e animada, tão nostálgica do italo synth-pop, e prometemos não estar a gozar com esta afirmação, mas o fecho desta faixa é mesmo assim, e acreditem, foi muito bem conseguido.

No final do álbum, ficamos todos perplexos com a dinâmica nata do grupo em aproveitar tanta influência externa ao rock no geral e aplicá-la em algo tão caracteristicamente escuro e inanimado, que não só proporcionou a chave para um registo diferente, e essa é a palavra-chave deste balanço, como fê-lo de forma funcional e eficiente. Not For Music, se tiver oportunidade, será um álbum crucial para derrubar algumas das barreiras que separa a música extrema da música pop, sem sacrificar a filosofia nuclear do black metal, muitos podem negar esse desejo, mas o resultado fala por ele próprio. Nada disto consegue ser nem pode ser forçado, portanto é nosso dever acreditar e sublinhar que no final do dia é uma questão de “take it or leave it”. Mais vale uma banda a sair da estagnação eterna e ainda fazê-lo em estilo do que só mais uma num rebanho interminável de clones. Bem-vindos ao vazio, estes são os Emptiness.
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