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Ermo - Amor Vezes Quatro (EP)

Review
Ermo Amor Vezes Quatro (EP) | 2015
Rafael Trindade 03 de Abril, 2015
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Purity Ring – Another Eternity

Matthew E. White - Fresh Blood

Estamos num bar bracarense que permite a entrada de fumadores e que parece uma ressurreição do ambiente que se verificava nas tabernas dos anos 40: fumos prejudiciais flutuam por todo o lado e é possível observar um copo preenchido por uma bebida alcoólica na mão direita de toda a gente. No balcão, encontram-se quatro homens que discutem uma questão que consegue ser em si só ainda mais paradoxal do que a infame questão do ser ou não ser. Uma questão à qual ninguém consegue responder dogmaticamente; o definir do indefinível, o equacionar da substância jamais equacionável:

“O que é o amor?”

PESSOA 1: Faço minhas as célebres palavras de Manel Cruz, “o amor é uma doença na qual julgamos ver a nossa cura“. O amor só nos traz problemas, embora saiba eu que é indispensável à vida humana. Mas as pessoas parecem olvidar todo o sofrimento que este maldito sentimento nos pode trazer, adjacente à segunda faceta do amor: o seu irmão, o ódio. Digo, assim, que o amor é bipolar, multifacetado e paradoxal.

PESSOA 2: Discordo da tua perspetiva, meu caro amigo. Eu acho que apenas nos deixamos iludir por todos essas advertências negativas se deixarmos o nosso ego sobrepor-se ao sentimento lindo que é vermo-nos numa pessoa e não precisarmos de um espelho, mas sim de uma pessoa para olharmos no nosso rosto todas as manhãs. O amor é não haver polícia; é essência, infinidade, é compaixão; é um brilho que se sente e não se vê, é erotismo e é conectarmo-nos a alguém; convertermo-nos a uma religião que faz de nós livres. O amor é colidir com alguém inconscientemente e nunca mais voltar, a única droga que regenera a alma.

PESSOA 3: O amor é plenamente, estritamente e meramente racional, e por isso, aquilo que nós pensarmos e quisermos que seja. Precisamos dos nossos nervos para sentirmos a ansiedade adjacente à chegada da nossa paixão, da fixação para sentirmos tristeza ou alegria, e da memória para sentirmos saudade. Precisamos de todas as três para escaparmos da realidade e disfrutarmos de sensações que nada senão o amor nos pode transmitir. O amor é deitarmo-nos numa cama para nunca mais voltarmos, é uma punheta. Repito-o: o amor é uma contundente, inexplicável e gratificante punheta.

PESSOA 4: Nem te atrevas a dizer coisas dessas! Considero isso uma blasfémia para com aquilo em que acredito. O amor é o maior pecado do ser humano: o prazer carnal, o tocar de um homem porcamente imundo na “res extensa” que não lhe pertence e que é propriedade de outro filho de Deus. O amor é um protesto contra tudo aquilo que é santo no mundo. A adoração e a veneração para com o Senhor, essa nos salvará de todo o mal.

Em Amor Vezes Quatro, o vocalista António Costa personifica estas quatro pessoas de perspetivas diferentes no que toca à definição de “amor“, acompanhado pelos instrumentais engenhosos, melodramáticos e sempre versáteis de Bernardo Barbosa. São 17, os minutos intensos que constituem aquilo a que podemos chamar “um breve resumo musical daquilo que é o amor”, e “intensidade” é definitivamente o termo mais adequado para definir o mais recente projeto dos Ermo. Para aqueles que falam lusitano, é impossível não sentir o estômago a arder e às voltas ao escutar a faixa título de Amor Vezes Quatro, em que António Costa desesperadamente vocifera que o amor é uma força constante que come corações ao jantar, personificando este sentimento como um monstro abominável. Em contrapartida, o conforto que a doce e erótica “Fado Teu” transmite é inevitável; a personificação musical da conexão romântica.

Mas o desconforto volta com a tremelicante “Súcubo”, faixa na qual António Costa relata detalhadamente a masturbação enquanto Bernardo Barbosa solidifica o desassossego sonoro através dos seus instrumentais dramáticos. É impossível não tremelicar enquanto o vocalista descreve o retirar da roupa, o imaginar de rostos e corpos diferentes, o intensificar da ação, o escape da realidade e o eventual clímax proveniente do ato. Arrepiante.

Acabamos a curta viagem com “Recreio”, onde somos reconfortados com um instrumental relativamente colorido, isto claro, a acompanhar a mórbida história que nos é contada por António Costa acerca de um padre chamado Tobias, a ilustração do típico padre aparentemente devoto que encontra deleito no pecado carnal. A dicção constantemente emocional com que António Costa liberta o seu “storytelling” vívido, os arranjos instrumentais brilhantes de Bernardo Barbosa e a maneira como estes dois elementos colidem e convergem perfeitamente: são estes os elementos que constituem a fórmula-chave que faz dos Ermo um dos projetos musicais e artísticos mais relevantes e geniais da atualidade portuguesa.

Chega o término de Amor Vezes Quatro e saímos do bar bracarense fictício como se tivéssemos sido brutalmente cuspidos pela própria boca do monstro ou guardião que é o amor. Sentimos uma dualidade que vai do pensamento à emoção e ainda nos perguntamos persistentemente: “o que é o amor?”. António e Bernardo intencionalmente deixam a questão pendente. O amor é aquilo que nós quisermos que seja. Honremos o amor em cântico, quatro vezes: “O amor! O amor! O amor… o amor.”
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Ermo - Amor Vezes Quatro (EP)
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