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Filho da Mãe & Ricardo Martins – Tormenta

Filho da Mãe & Ricardo Martins

Tormenta | 2016

PONTUAÇÃO:

7.5

 

 

 
Uma guitarra poderosa, enérgica, explosiva e uma bateria em constante convulsão. Estes são os ingredientes para uma verdadeira Tormenta: apenas dois, mas ambos com um travo incrivelmente ativo. Nem sempre doce, nem sempre amargo, mas certamente bem temperado, este projeto de Filho da Mãe e Ricardo Martins que aqui foi alvo desta infeliz analogia gastronómica era um dos mais esperados do panorama musical nacional para este início de 2016. Como não poderia deixar de ser, estes dois virtuosos de vasto currículo não nos deixaram ficar mal.

Rui Carvalho, membro dos há muito aclamados If Lucy Fell (como temos saudades), já nos tem vindo a impressionar ao longo dos últimos anos com os seus trabalhos sob o nome de Filho da Mãe, como o magnífico Palácio, de 2011, ou com o mais recente Cabeça, de 2013, o seu mais longo disco até à data. À sua guitarra de dedilhados intermináveis e extenuantes e paisagens sonoras que nos levam do maior classicismo de um Carlos Paredes ou Norberto Lobo ao rock dos Dead Combo, junta-se agora Ricardo Martins, baterista de um sem número de projetos, dos quais podemos destacar o duo de noise rock Lobster, Cangarra, Papaya ou Adorno. Desde o final de 2014 que estes dois ilustres se juntaram para improvisar, compor e gravar (não necessariamente por esta ordem) aquilo que agora é Tormenta, uma viagem que nos leva do rock do Magrebe de uns Tinariwen ou Bombino até ao pós-rock de ritmos intrincados, quase matemáticos, a fazer lembrar os agora regressados Tortoise.

A estrutura destas composições é claramente pedida emprestada a um pós-rock tão ávido de uma inovação que aqui, felizmente, é bem-vinda. A música que Filho da Mãe e Ricardo Martins nos trazem em Tormenta tem muito mais do que “sobes e desces” de intensidade: é rica em ritmos distintivos, paisagens sonoras e sobretudo na autêntica comunhão entre dois instrumentos que funcionam como um só. A fantástica faixa de abertura, “Estrela E Acabada”, começa com a sensibilidade das seis cordas de Filho da Mãe e explode quando um ritmo absolutamente contagiante da bateria Ricardo Martins irrompe pelos nossos ouvidos dentro e eles como que dão a ordem para que o resto do nosso corpo se liberte num qualquer tipo dança étnica, irresistível.

Tanto nos momentos mais ásperos do disco como “Pessoal Beto Em Sítios Chungas” ou na machadada final “Truta Salmonada”, como noutros mais rítimicos e cerebrais como “A Tia Dela” ou a maravilhosa “Tritão”, a comunicação entre Filho da Mãe e Ricardo Martins parece telepática: a precisão quase militar com que os dois instrumentos se transformam numa só peça central durante todo o disco é assustadora. A simbiose perfeita entre a guitarra de Filho da Mãe e a bateria de Ricardo Martins fica marcada de forma imaculada pelo facto de nenhuma delas ganhar posição de destaque durante a meia hora de disco: não há espaço para solos épicos, holofotes, entradas e saídas de cena.

Tormenta volta a confirmar Filho da Mãe e Ricardo Martins como dois dos mais criativos músicos da cena musical nacional. Tormenta são dois homens e dois instrumentos que se fundem num apenas. E é um terramoto de todo o tamanho.

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Por Luís Sobrado / 19 Fevereiro, 2016

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