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Freddie Gibbs & Madlib - Piñata

Review
Freddie Gibbs & Madlib Piñata | 2014
Rafael Trindade 22 de Dezembro, 2014
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Ariel Pink - pom pom

Machine Head - Bloodstone & Diamonds
Hip-hop. Nos dias que correm, o que significa “hip-hop” para a sociedade? Para os menos atentos à forma artística ilimitada que é a música, muitos até confundem o género musical com os diversos estilos de dança associados ao mesmo (breaking, locking, popping, etc). Mas quando o indivíduo de uma ignorância já normal nos dias de hoje sabe que se fala do género musical, das duas uma: ou confunde com o termo “rap” e acusa o hip-hop de se assumir como um género musical limitado no âmbito do qual “se cospe e se fala a velocidades elevadas diante de um microfone”… ou, em alternativa, estereotipa o género como um de falácias breves, de futilidade lírica e de uma ausência de conteúdo gigante.

Para os que ouvem e admiram a componente artística que é o hip-hop, digo-o como opinião pessoal: não há ninguém que defina o que realmente é o hip-hop hoje do que o senhor Otis Jackson Jr. Também apelidado de Quasimoto, The Loopdigga, The Beat Konducta, Jackson Conti, Ahmad Miller, Malik Flavors, Joe McDuphrey, Monk Hughes, OJ Simpson,… peguemos nas palavras de MF DOOM e denominemo-lo da maneira pela qual ele é mais chamado e reconhecido no seio do espectro musical do hip-hop:

 

“Live on the beats, the one and only, Mr. Madlib

 

Madlib é um “beat-maker”, produtor, DJ, rapper, e sobretudo um precursor. Não só para o hip-hop, mas para a música em geral. As suas batidas são do mais criativo que um género vastíssimo já testemunhou, abrangendo influências de música proveniente de todas as partes do mundo: música funk, electrónica, experimental, clássica, rock, jazz, soul, Rn’B, afro-cubana, popular brasileira, tribal, étnica, indiana, irlandesa… podemos tomar dezenas de cafés num bar angolano enquanto falamos nisto. Discos como The Unseen e Astronaut EP (Quasimoto), Shades Of Blue (Madlib), Soundpieces: Da Antidote! (Lootpack), Down For The Kaz (Kazi), Angles Without Edges (Yesterday’s New Quintet), Experience EP (Joe McDuphrey Experience), Sujinho (Jackson Conti), Flowers (Dudley Perkins), e principalmente Madvillainy (Madvillain) são absolutamente essenciais em ordem de compreender, interiorizar e automaticamente venerar o trabalho de Madlib. Marcam o seu lugar como uma das figuras mais versáteis, exaustivamente trabalhadoras, multifacetadas e enigmáticas no mundo da música. Otis Jackson Jr. sempre foi e sempre será um visionário futurístico de capacidades sobrenaturais e de talentos variadíssimos e descomunais.

Feita a homenagem a Madlib, o ponto da situação é este: Madvillainy é o disco mais icónico, criativo, influente e trespassador de limites da história panorâmica do movimento underground do hip-hop. Comparado a este pináculo foi muito do material que Madlib lançou pós a colaboração com o lendário MF DOOM na conjuração de titãs que é o projeto Madvillain. O disco-lenda conta 10 anos em 2014, e no tempo presente é noutra colaboração conceptual como beat-maker que Madlib aposta: Uma com Freddie Gibbs.

Obviamente de fama inferior à de MF DOOM e com uma quantidade extremamente inferior de projetos musicais e de experiência como MC, Freddie Gibbs não é assim tão diferente do mascarado icónico, mostrando até algumas semelhanças musicais. Embora não opte pelo humor sarcástico e imagética bizarra de MF DOOM, Gibbs é, semelhantemente ao ícone, um letrista introspetivo, profundo e detalhado em todas as letras das palavras das frases que escreve. Tem uma voz grave e poderosa, e sobretudo é um “storyteller” nato. Até ter colaborado com Madlib, o rapper americano nunca tinha mostrado o potencial escondido por detrás do nome desconhecido, mas o infame beat-maker também não tinha mostrado que conseguia inovar com uma colaboração que não esteja de qualquer modo ligada a MF DOOM.

Tudo isto nos leva a Piñata, o regresso de Madlib e a ascensão de Freddie Gibbs ao poderio do hip-hop. Em Piñata, tudo se sente. O talento inacreditável de Madlib enquanto músico é de destaque: todas as batidas contidas neste disco não são menos que fenomenais. Freddie Gibbs aposta a 100% na sua faceta introspetiva, relatando em muitos dos temas de Piñata aquilo e aqueles que o rodeiam e como ele se sente em relação a isso, a eles e a elas… e noutros, situações com as quais um dia Gibbs se deparou e cujas viveu, sobrevivendo assim para contar a história. Tomemos o primeiro single, Thuggin’, como exemplo de tudo isto. Roubos, negócios, artimanhas, pobreza, violência e perseguições policiais, tudo isto analisado ao extremo da introspeção pelo MC americano, por cima da batida de Madlib que grita uma justaposição entre elementos psicadélicos, eletrónicos e jazz hop. Gibbs assume-se como orgulhoso por ser um “thug” das ruas, escondendo o arrependimento e as razões sentimentais pelas quais rouba com linhas que evidenciam o que Freddie Gibbs tenta omitir, tais como “I’m tryin’ to feed my family, give a fuck about your feedback, I done been to jail and did my best not to repeat that”.

As colaborações em Piñata encaixam no contexto e na música como novos membros do gang de Freddie Gibbs e Madlib, constando o elenco de nomes como Raekwon, Scarface, Danny Brown, Domo Genesis, Casey Veggies e Earl Sweatshirt (membros da coletânea de hip-hop, Odd Future), G-Ziz, Sulaiman, Meechy Marko, Ab-Soul, Polyester The Saint, BJ The Chicago Kid, Big Time Watts e Mac Miller, soando todos eles surpreendentemente bem nas faixas em que foram inseridos (muitos deles na faixa título de Piñata).

A faixa "Supplier", que abre o disco tema desta crítica, é breve mas resumidamente mostra que Piñata é mais agressivo que Madvillainy em termos sónicos. Falemos agora de Run the Jewels e em como El-P tem o hábito de moldar os rappers com quem trabalha nas suas batidas e transformá-los no seu produto. Madlib toma uma abordagem que é uma volta de 180º para a de El-P: Otis Jackson Jr. deixa as rimas fluir, quer elas se afoguem ou nadem nas batidas vertiginosas e diversificadas do visionário. Isto dá espaço a Freddie Gibbs para executar as suas tarefas prolificamente, sendo isto nunca mais evidente do que em faixas como "Deeper", "Harold’s", "Shitsville" e "Real".

Destaquemos "Lakers", faixa para a qual colaboram Ab-Soul e Polyester The Saint. No décimo terceiro tema de Piñata, Freddie Gibbs vê-se, não obrigado, mas compelido a recordar todas as viagens que já fez pelo mundo, nunca tendo todos os sítios em que já esteve em maior consideração do que Los Angeles, a sua cidade natal. A homenagem à cidade e aos bons momentos que já lá passou mas que nunca mais poderá ter é uma viagem emocional que tem os versos de Gibbs como, digamos, um guia turístico. Ab-Soul e Polyester The Saint são também oriundos de Los Angeles, encaixando perfeitamente no tema lírico da faixa.

Resumamos. Piñata consegue abranger uma vasta quantidade de emoções. Nostalgia, raiva, arrependimento, calamidade, paz e melancolia, tudo isto relatado com um sentido de consciência, de introspeção e de algumas gargalhadas pelo meio. Mas sobretudo, Piñata consegue conciliar Freddie Gibbs e Madlib como dois artistas que estavam destinados a colaborar juntos, sendo a química resplandecente, pintada em tons vívidos de criatividade e canalizada numa musicalidade de invejar. Piñata não é o novo Madvillainy, porque assume com toda a franqueza e frontalidade que não tenta e nunca tentou ser. Ao invés disso, Piñata apresenta-se ao público como uma obra da sua própria categoria e de desígnio exclusivo. E da parte de Freddie Gibbs e do ilustre Madlib, não poderíamos pedir mais que isso.
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Freddie Gibbs & Madlib - Piñata
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