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Full Of Hell - Trumpeting Ecstasy

Review
Full Of Hell Trumpeting Ecstasy | 2017
João "Mislow" Almeida 07 de Maio, 2017
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Por fim! O muito aguardado terceiro álbum de originais dos americanos Full Of Hell! Por muito arriscado que possa parecer, faz cada vez mais sentido dizer que esta banda é o símbolo mais justo da modernização da música extrema. Quem conhece bem este projeto e quem o acompanha já desde o primeiro álbum, não tem como discordar com esta afirmação, mas se ainda não tiveram oportunidade de o conhecer, então prestem atenção, pois este é o grupo que mais alto eleva a tocha, do extremo, nesta geração. Com tão pouca exposição, enquanto maioritariamente inseridos numa cena local, a banda só conseguiu chegar onde está hoje com muito trabalho e dedicação, e isso reflete-se nas inúmeras datas e concertos ao lado de nomes como Immolation, Toxic Holocaust, Entombed A.D., Drop Dead, 1349, Trap Them e muito mais. Fundada em 2009, a banda só ganhou inclinação em digressões de peso após a estreia Roots Of Earth Are Consuming My Home em 2011, através da A389 Records. Nessa altura, a banda era notória por desenvolver uma versão de hardcore punk orientada em d-beat e crust, muitas das vezes em estruturas relativamente minimalistas mas com forte recorrência aos elementos de drone e doom. Convenceu públicos por conseguir destacar-se num mercado saturado por sonoridades demasiado semelhantes e pouco insistentes em pontos de desenvolvimento interessantes a aprofundar.

2013 é o ano do lançamento do muito aclamado Rudiments Of Mutilation, que continua a ser até hoje um dos registos mais bem conseguidos da nova vaga de power-violence e grind dos Estados Unidos. Para além de desenvolver com clareza e força progressões fortemente acentuadas nos blast beats e em explosões de caos, a banda consegue dar um volume característico à estética nihilist através do uso pesado de drone e noise, muitas das vezes a contrastar com os instrumentais, e a combinar na perfeição com as letras dolorosamente pessimistas. Tanto nas partes lentas, onde o drone e a densidade atmosférica se deixa impregnar com o ruído, como em passagens de plena escavação lunática, a prensar o ouvinte com catatónicas descargas de energia, a elaboração das músicas demonstram-se estimulantes para não dizer perfeitamente inovadoras na sua natureza catártica, e em relação àquilo que já pudemos testemunhar até hoje dentro do género.

Um ano depois, anunciam o início de uma colaboração ao lado de Merzbow, um dos artistas de noise mais prolíficos do Japão e admitidamente um grande fã da banda. Este acabou por ser o motor central para empurrar os americanos durante a verdadeira revolução sónica que foi o resultado final. Trabalho este que testemunhou o crescimento do grupo em termos de escrita, estruturação, textura, cor e distribuição de energia, enquanto a flexibilidade é suprimida num som maioritariamente guiado por rough noise e flancos mecânicos de ruído ancestral. É em malhas como a “Burst Synapse”, “Blue Litmus”, “Thrum In The Deep” e “Fawn Heads And Unjoy” que vemos a banda em plena forma mental e com uma capacidade de leitura desavergonhadamente amadurecida. A filosofia primal da simplicidade na escrita joga de trás para a frente com o poder de argumentação nos riffs das guitarras, em especial ênfase nas poderosíssimas transições e mudanças de passo, onde o conjunto total ambiciona soar simultaneamente técnico e repugnantemente pesado.

O ano passado, Full Of Hell anuncia outra colaboração, desta vez com amigos próximos The Body. Outro projeto que serve de grande exemplo da modernização da música pesada nos dias de hoje, onde neste caso lidamos com um duo a explorar os limites lógicos do doom, e a utilizar influências de música eletrônica, ambient, drone, trip-hop e até mesmo de  orquestra para erradicar as convencionalidade do estilo. O projeto designar-se-ia One Day You Will Ache Like I Ache, e serviu de oportunidade para testemunhar um trabalho coletivo das duas bandas, a trabalhar como uma. 40 e tal minutos de composto caos, intervalado entre solavancos de arrítmica pulsação nervosa, e gritaria moribunda. Muitas das vezes ampliado pela penetração de camadas acima de camadas, pura força de tom e definição, frequentemente a habilitar-se a condições extremas perante pontos de elevado contraste e oposição. No meio de tanta palavra, a que mais reserva justiça, é atrito, tanto na primeira metade do registo que testemunhou ferocidade ateada, como na segunda metade que ficou marcada pela concreta tangibilidade dos instrumentos em função à atmosfera. 2017 arranca com a notícia de que a banda vai, por fim, lançar o seu terceiro álbum de originais pela Profound Lore e com o muito experiente Kurt Ballou ao leme da produção. Tendo a banda um historial que denuncia um claro crescimento de forma ao longo dos anos, não é estranho ver uma editora dar tanto a um álbum que pode muito bem vir a ser o mais importante da banda e do gênero, e bem sabemos que Kurt Ballou + God City Studios é a combinação ideal para se conseguir tirar o melhor desta situação. Depois de sucessivas audições, é difícil descrever em palavras exatamente aquilo que Trumpeting Ecstasy nos fez sentir.

Na verdade, há muito poucas palavras no geral que façam justiça em conseguir ilustrar a inteligência brutal da banda neste novo trabalho, mas algo podemos dizer, mesmo sabendo que o álbum ia ser bom, não estávamos à espera que o resultado fosse tão bem conseguido. Para além da produção cristalina, Full Of Hell conseguiram desafiar novos parâmetros ao abraçar mais influências estrangeiras do que é hábito, e conseguindo isto mesmo sem abandonar passados argumentos. Querendo dizer que a banda insiste em olhar para a frente, sem perder uma grama de peso no seu som. Consegue soar renovada, musculada, tonificada, sem ter que subtrair substância à qual a banda nos habituou. Mediante a tentativa, o coletivo ainda consegue soar mais demente do que nunca. Malhas como a “Deluminate”, “Bound Sphynx” e “Digital Prison” são exemplos indiscutíveis de como a banda consegue fazer frente a muitos dos mais experientes artistas do death metal e grind. Não só por conseguirem esboçar uma linha quase transparente entre a complexidade da técnica e a potência no peso dos instrumentos, como ainda o fazem com tremenda facilidade e domínio no estilo, como se andassem nestas andanças há décadas. Apesar disso, a banda ainda consegue encontrar momentos ideais para explorar transições a fundo e ainda recriar conceitos novos na sua música, tanto com breakdowns, passagens a arrastar e até mesmo progressões atmosféricas. Faixas como a “The Cosmic Vein”, que destaca uma banda a expandir o som noutros formatos e cada vez mais confortável em variações desembaraçadas e metricamente calculadas, ou a “At The Cauldron’s Botton” que encerra o álbum com seis minutos de pura estruturação arquitetónica e complexidade vetorial, onde conseguimos observar elos de ligação completamente obliterados pelo sufoco das monstruosas guitarras e das balísticas da bateria, enquanto intercetadas por um refrão a brutalizar repetidamente as palavras:

 

Trumpeting Ecstasy! Trumpeting Ecstasy! Trumpeting Ecstasy!

 

E a ditar um final elegantemente conduzido para uma progressão submissa e total. Atmosférico, grave, pulsante e sangrento. O que não falta até são bons momentos de pura histeria cardiovascular. A circulação de sangue nos instrumentos percorre a uma velocidade vertiginosa cuja combinação com a distorção das guitarras e baixo deixa qualquer ouvinte sujeito a condições mentais absurdamente antinaturais. Uma das faixas mais memoráveis que testemunhámos foi a “Crawling Back To God” que conta com uma contribuição (diga-se exímia) por parte de Aaron Turner de Sumac. A faixa arranca com um sample desvanecido em pixels desgastados, e apresenta-se tão instantaneamente como um soco imediato na cara do ouvinte que não deixa margem para recuperar fôlego. O riff inicial reparte-se em secções pausadas, muito obviamente concebido através das influências dos clássicos de Morbid Angel e Deicide. Chega o pedal duplo e o ritmo acelera como um enxame de vespas, enfurecidas e despertas a aguardar o temível vocal, a suspirar sem timbre, de Dylan Walker, até que a tangente da faixa abranda e Turner entra com o seu rochoso grunho, como uma montanha a surgir entre abismos e quedas livres para o inferno a narrar:

 

On bent knees, crawling back to God
On bent knees, crawling back.

 

A “Gnawed Flesh” entrega uma porção bem justificada daquilo que a banda fez no Rudiments Of Mutilation, uma dose quase desmedida de grind a contrastar com o doom pessimista em esperança de que o Homem falhará sempre, a encaminhar-se para um final progressivamente mais lento, intrusivo, claustrofóbico e catártico. De todas as faixas que mencionámos, sobra caracterizar uma, e é desde a primeira audição do álbum, a faixa que mais nos despertou a atenção por demonstrar a nua ecleticidade da banda neste registo, que por sua vez acaba por mostrar um pouco de tudo daquilo que o próprio coletivo ouve no dia-a-dia. Seja o grind de Brutal Truth, ou o death metal de Immolation, ou até mesmo o black metal de Gorgoroth, obrigar Full Of Hell definir-se com somente um gênero seria uma falta de respeito para com a ambição do grupo. “Trumpeting Ecstasy” ilustra com a fragilidade de porcelana o quão obscura e brumosa é a visão do grupo em tentativas atmosféricas. Admitindo que de facto nunca ouvimos nada como tal, e poder ver este resultado final integrado num meio ambiente puncionado pelo negativismo e indulgência ao destino fatal de todos nós, a morte, faz todo o sentido dizer que este é o título mais libertador do álbum todo. A faixa inicia com um loop de guitarras, travadas na mesma nota e a progredir num ouroborus de tom. A voz etérea de Nicole Dollanganger quebra o pleonasmo da repetição com uma graciosidade angelical, que ainda assim não evita a sinistralidade do contraste entre o timbre e o abismo, muito graças ao que afirma com ária:

 

Eternal happiness clapped in irons. Eternal happiness, mighty strikes.
Break their bands asunder. Cast away their cords from us.
Cadence of horror. Pull the hammer fast.
Pull the scalp back.”

 

É com este final, que vemos a importância de termos uma banda como Full Of Hell na nossa geração. Bandas que continuam a seguir definições e a recair nessas mesmas regras e limites não conseguem nada senão viver à custa de um passado ainda em progressão, mas testemunhar algo que ao contrário disso, prefere viver isolado de todas essas regras e imposições pré-faturadas, é meio caminho andado para criar algo completamente novo e próprio, e é esse o caso de Trumpeting Ecstasy, um registo que não  quer ser nada senão hostil e temível. Os Full Of Hell vivem por essa experiência, e depois de ouvir isto vezes sem conta, a conclusão permanece a mesma desde a absoluta primeira vez que ouvimos a banda: puro pasmo.
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Full Of Hell - Trumpeting Ecstasy
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