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Gaerea - Limbo

Review
Gaerea Limbo | 2020
Pedro Sarmento 03 de Agosto, 2020
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O panorama musical português sente-se de forma muito familiar. Para além de muitos dos seus elementos se cruzarem entre amizades, relações, gostos e ideias, existe também uma pequena mas diversa e substancial variedade de artistas por onde escolher. Assim o é, que qualquer ouvinte estaria submetido a uma viagem por todo o espectro musical com apenas uma mão cheia de nomes deste cantinho. Gaerea tem sido um nome sinónimo ao crescimento desta cena. Diante de vós, afirma-se um quinteto que, há uns meros quatro anos atrás, rondava desconhecidamente as pequenas salas portuguesas com toda a ambição por coisas maiores. Enquanto os primeiros dois lançamentos oficiais da banda (tanto a estreia em EP como o primeiro álbum de originais Unsettling Whispers – lançado pela anterior editora Transcending Obscurity) demonstram um songwriting arrebatador e uma forte componente performativa e emotiva no seu cerne. Ao fim e ao cabo, isto não passou da ponta do icebergue para aquilo que ainda estaria para vir. Depois de incansáveis digressões pelo próprio país, Espanha, França, Europa e até China, Gaerea anunciou por fim o entrelaçar de uma ligação com a colossal Season of Mist Records, fazendo-se acompanhar pela chegada do segundo disco de originais: Limbo.

Se a discografia até então se velava em promessa, com Limbo a banda sedimenta-se e aniquila qualquer dúvida que pudesse persistir. E não se trata de um aniquilar atabalhoado, tenso e ofegante. Não. O monstro da incerteza é lapidado com mestria calculada, como um feitiço cuja fatal inevitabilidade se revela imediatamente mal são proferidas as primeiras palavras de esconjuro. “To Ain” e os seus onze minutos de faixa introdutória são o bordar da maldição. Atmosferas de sombra instrumental, variações temporais, e uma prestação vocal em que é mesmo possível sentir pedaços de coração e tripa nas ondas sonoras. A purga é feita, do caos para o nada, e seguem-se “Null” e “Glare”. A viagem ganha embalo e a banda revela mais cartas de proficiência técnica e bom gosto. As primeiras notas de “Conspiranoia” estimulam a imaginação pictórica: plano do protagonista a suar, olho esbugalhado, fronte tensa, inquieto, confuso e amedrontado.

O sentimento mantém-se durante o primeiro terço da faixa; se há algo que Gaerea nos ensina é que a nossa perceção do tempo obedece a regras caprichosas na cara do vórtex dos sentimentos mais negros. Destaque para o videoclipe, com planos icónicos que transformam matéria, lugar e edifício em cinematografia com laivos Kubrickianos. O visual do simbolismo negro de Vepar é sempre figura central e rege o fluxo da ação, a melhor referência possível para o som da banda, englobando o poder da água, da morte e da vida. A catarse atinge-se com “Mare” com uns premonitórios treze minutos de duração. O choque provocado nos últimos minutos do tema é abrupto, e compara-se a alguém que acorda de um transe, que expira de alívio, que deixa sair a raiz do mal. Chegámos ao limbo do ser. Resta-nos perceber que rapidamente voltaremos ao ciclo do início, ao topo da montanha que fomenta a queda. A viagem auditiva voltará prontamente a ser uma necessidade.

Apesar da chegada de uma pandemia ao mundo, e com muitos dos prometidos concertos a sucumbirem aos cancelamentos e/ou adiamentos, o grande époque de Gaerea manteve-se inerte e inadiável. Afirmando-se como um padrão e exemplo a todos os que procuram trabalho árduo para que se alcance as devidas alturas de reconhecimento, Limbo poderá vir a ter uma multiplicidade de significados para com alguns dos seus ouvintes portugueses. Além de criar, respeitar e concluir uma grandiosa e sólida composição conceptual, o disco mergulha com uma autêntica super-força nietzscheana naquilo que é a navegação no lodo cósmico, expelindo no processo toda uma proeza de determinação triunfante. A escrita pode muito bem ser a maior evidência de crescimento neste percurso da banda, mas é o resultado final que edifica o seu imponente volume.

 

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