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Glass Animals – How to Be a Human Being

Glass Animals

How to Be a Human Being | 2016

PONTUAÇÃO:

8.3

 

 

 

Glass Animals são um quarteto originário de Oxford, liderado pelo vocalista e também principal compositor, Dave Bayley. Em 2014 lançaram o seu primeiro LP, ZABA, que lhes permitiu, rapidamente, afirmarem-se como uma banda de referência num panorama musical, onde nomes como Django Django, Wild Beasts e, principalmente, alt-J vêm “transformando o alternativo no novo pop”.

Apesar da fácil associação aos nomes referidos, seria completamente injusto alegar que os Glass Animals são uma imitação destes. Em ZABA, a banda explora a sua própria identidade, aglutinando elementos de indietronica e hip-hop a uma percussão quase que tribal, vocais sensuais e sons de animais, revestindo as suas músicas de uma atmosfera obscura, mas lentamente dançável, fazendo nos sentir como se estivéssemos algures na selva, apreciando o crepúsculo.

Passados dois anos, eis que surge How to be a Human Being que, mais que um álbum, é uma coleção de histórias. Durante a tour da banda, Bayley encontrou e falou com as mais diversificadas pessoas, por todo o mundo, recolhendo as suas histórias, que serviriam de inspiração lírica para este segundo álbum da banda. Cada música segue uma personagem (fictícia) diferente – as várias personagens podem ser observadas no artwork da capa e cabe ao ouvinte deduzir quem é quem.

Na transição para este novo álbum, a banda procura redescobrir-se a si mesma, através dos personagens criados. Antes, o foco era a selva, os animais, mas agora o foco são as pessoas. Os animais procuram saber o que significa “ser humano”.

A banda está assim mais madura, apresentando letras mais ricas e menos abstratas. Os temas das músicas são variados. É o fã de sci-fi que é demasiado estranho para se integrar na sociedade em “Life Itself”, seguindo para a mãe que abandonou o filho para lhe poder proporcionar um melhor futuro em “Youth”, passando pela mulher (possivelmente esquizofrénica) que não sabe se matou ou não o marido em “Mama’s Gun” e é “Agnes” onde a depressão e suicídio são os assuntos abordados. Conseguimo-nos aperceber duma certa vontade em explorar a desagregação do ser humano perante a sociedade, perante si mesmo e perante aqueles que outrora amou.

Mas os Glass Animals não pretendem criar um álbum depressivo e sombrio, muito pelo contrário. Os beats são coloridos e os refrões radiantes culminando em músicas divertidas, facilmente dançáveis, sempre envolvidas numa atmosfera solarenga e rejuvenescedora.  A banda aproveita assim para redefinir a sua sonoridade, sem perder a sua identidade e, logo em “Life Itself” e em “Youth”, as duas primeiras faixas do álbum, vemos esta transformação acontecer de forma natural, em que a introdução das músicas se assemelha muito à fórmula usada no álbum anterior, mas rapidamente somos apanhados por uma avalanche de sons estranhos e indecifráveis que, juntamente com os refrões energéticos, nos preenchem de otimismo e bem-estar.

Uma característica a que a banda já nos habituou é a sua predisposição para brincar com os sons e isso não é exceção neste álbum. A conjugação de samples de videojogos, que com uma batida R&B serve para criar uma balada romântica em “Season 2 Episode 3”, ou a sobreposição de camadas de sintetizadores que aliadas a um loop de vocais codificados originam a viciante e elétrica “Cane Shuga” são apenas alguns dos pontos altos resultantes desta brincadeira.

O álbum encerra com “Agnes”, a canção mais pop de todo o álbum, que é também a mais melancólica e inspiracional. A melodia e letra tristes, transformam-se ao mesmo tempo numa aura de esperança, mas também de finitude, que deixa o ouvinte introspetivo e com a sensação que o álbum não poderia acabar de outra forma.

Contudo, mesmo que a banda neste novo álbum apresente um portefólio de canções muito mais eclético que em ZABA, repete-se a sensação que, na segunda metade do álbum, as músicas, apesar de bastante consistentes não acrescentam nada de único, e funcionam essencialmente como uma espécie de filler, como acontece com a “The Other Side of Paradise” ou com a “Poplar St”.

Em suma, podemos dizer que How to be a Human Being, é muito mais uma reflexão sobre o que é ser um ser humano, do que propriamente um manual de instruções. É uma análise da diversidade do ser humano, das suas diferentes perceções, escolhas e arrependimentos. E é através da sua música esperançosa e fluída que pretende combater um certo sentimento de “fragilidade humana”.

Um álbum que certamente superou as expectativas deixadas pelo seu antecessor, e nos faz acreditar que os Glass Animals são certamente uma banda que poderá dar muitos frutos no futuro.

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Por Luís Rodrigues / 4 Janeiro, 2017

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