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Go Ahead and Die – Go Ahead and Die

Comece-se por afirmar o que urge ser dito: está aqui um dos melhores discos que Max Cavalera gravou ao longo da sua longa e ilustre carreira. E não, não é exagero nenhum afirmá-lo, é a mais pura e crua verdade – tão pura e crua como a música que aqui se escuta. Metal/punk old school cavernoso, demolidor e implacável; acima de tudo, feito com uma categoria capaz de trazer lágrimas aos olhos. Na verdade, será um desafio para qualquer apreciador de música pesada da “velha escola” resistir a esta coleção de malhas – sim, porque é exatamente isso que aqui temos, malhas que parecem relíquias perdidas do underground dos anos 80, numa espécie de tributo ao passado que moldou o influente músico brasileiro, mas feito a pensar no presente.

De facto, a própria formação destes Go Ahead and Die (repare-se na pujança do nome, e em como está em perfeita sintonia com o som) vive de um fascinante cruzamento de gerações, com Max na posição de veterano a colaborar com o filho mais novo, Igor Amadeus  Cavalera, e com o excelente (mas mesmo excelente, há que deixar bem claro) baterista que é Zach Coleman (Khemmis e Black Curse). Uma escolha que, de resto, mostra como ambos os Cavalera (neste caso, pai e filho) prestam atenção ao que se vai fazendo atualmente no mundo do som extremo, incorporando umas quantas influências modernas, sobretudo de bandas como Gatecreeper ou Conan, e misturando-as com pérolas antigas como Hellhammer, Celtic Frost, Sodom, Napalm Death, Discharge, entre outros tesouros do baú da música pesada. Aliás, uma das grandes atrações deste disco é observar que foi feito por fãs que eventualmente se tornaram músicos, alternando de forma espantosa entre a vontade de homenagear e o desejo de deixar a sua própria marca.

Outro aspeto que não pode ser ignorado é a performance irrepreensível e apaixonadíssima de Max, pois há muito tempo que não o víamos tão cheio de garra e energia, e isso deve-se completamente ao facto de estar a tocar com o filho – uma união bem bonita, inspiradora e, acima de tudo, um sonho que o papá orgulhoso ansiava poder concretizar. É certo que já tinham partilhado palcos, incluindo em Portugal, no Rock in Rio 2010, onde o “Igor pequeno”, como Max o descreveu na altura, interpretou na bateria o hino dos Sepultura “Troops of Doom”, mas esta foi a primeira vez que estiveram juntos em estúdio, dividindo entre si a gravação das guitarras, baixo e vozes.

Já a escrita das letras, ainda que um esforço coletivo, teve uma contribuição mais significativa da parte de Igor, explorando temas como a pandemia ou a brutalidade policial – quase como uma galeria de horrores da realidade contemporânea – e evocando aquela deliciosa atmosfera irreverente e inconformista de no fucks given que caracterizava os Nailbomb. Sente-se bem na pele, aliás, a indignação de natureza punk em versos como “It’s always authority killing minorities” ou “fascist fucking pigs”, este último proferido com um nível de intensidade tão visceral e intimidante que até dá vontade de partir tudo. É música de protesto, na onda de uma “Refuse/Resist” dos Sepultura, com Max a revisitar os tempos em que se encontrava revoltado com o mundo e usava o metal como uma plataforma para, entre outras coisas, descarregar toda a raiva e frustração que nele residia.

Quanto a composições que se destacam, não há como negar a força do refrão marcante de “Punisher” (“Life despises you/ Death denies you”, repete Max como se fosse um slogan berrado numa marcha), os riffs recheados de um groove aliciante – a relembrar o período áureo dos Helmet (um caso onde as referências são um pouco mais modernas) – em “El Cuco”, a impressionante combinação do ataque direto e ríspido dos Hellhammer com paisagens death metal em “G.A.A.D.”, ou o soberbo registo punk, sujo e agressivo como manda a tradição, de “Worth Less Than Piss”, título sem papas na língua que podia batizar uma música dos Nailbomb. Todavia, o que mais contagia é mesmo o tom rasgado e cheio de atitude de Max; aquela simplicidade genial, muito mais alimentada pelo sentimento e paixão desenfreada do que pela técnica, que dá a estas composições um toque extra de genuinidade refrescante. Enfim, não é um disco que vá mudar as regras do jogo, mas é uma “jarda” brutalíssima, bem tosca (no bom sentido) e grotesca… Quarenta e três minutos de irresistível “porrada” sonora. E mais não se pedia.

Por Jorge Alves / 24 Junho, 2021

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