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Grimes - Miss Anthropocene

Review
Grimes Miss Anthropocene | 2020
Rafael Coutinho 03 de Março, 2020
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Mil quinhentos e setenta quatro dias, é quanto tempo faz desde que Grimes lançou um álbum pela última vez. Nesses 1574 dias, Grimes mudou de nome para c, passou por diferentes controvérsias e perdas, quase deixou a sua editora, e iniciou uma relação com um dos bilionários mais famosos e controversos do mundo. Tudo isto veio influenciar e mudar o seu quinto álbum, Miss Anthropocene.

Quando começou a ser produzido, havia sido concebido como um álbum duplo, intitulado Miss_Anthrop0cene, nome dedicado a uma deusa das alterações climáticas, que seria a principal vilã do grupo de novos deuses que a cantora quis criar. O álbum desde o início teve um som mais profundo com temas mais góticos, quase o oposto a Art Angels, o LP anterior, com músicas mais upbeat. O que não se esperava foi tudo o que aconteceu a seguir, durante a criação do disco. Grimes perdeu várias pessoas próximas, algumas devido ao consumo de droga, mas a que mais a afetou foi a perda da amiga e manager, Lauren Valencia, a principal ligação entre a artista e a editora 4AD. Durante um período turbulento entre ambas as partes, Grimes ameaçou a deixar a editora, mas conseguiu estabelecer um acordo em que, após o lançamento do próximo álbum, c deixaria a 4AD e tornaria-se independente.

Outro acontecimento marcante foi o início da sua relação com o filantropo Elon Musk, que incentivou o desenvolvimento dos temas mais abstratos do álbum e que gerou polémicas entre os dois, com os tablóides a acusarem Grimes de fornecer drogas psicadélicas a Elon. A polémica piorou quando Azealia Banks se envolveu para confirmar as especulações, chamando-lhe “branquela crackuda”, e dar leak a algumas mensagens pessoais entre as duas.

Todos estes acontecimentos levaram a artista a desenvolver temas mais sombrios e pessoais para os dois álbuns, temas fictícios e futuristas. O álbum tinha data de lançamento original para meados de 2018, mas começou a atrasar-se e a ser constantemente adiado. Só durante o outono do ano passado é que houve notícias, sendo anunciado que o álbum duplo passaria a ser um único álbum com a possibilidade de EPs serem lançados antes do LP. Outra mudança anunciada foi a mudança do nome para o que conhecemos, Miss Anthropocene.

No seu essencial, o álbum é sobre os novos deuses e demónios do fim do mundo, com cada faixa a representar uma das figuras criadas pela cantora:

“So Heavy I Fell Through the Earth” - demónio do género;
“Darkseid” - demónio da Agressão Sexual;
“Delete Forever” - demónio do vício;
“Violence” - deusa dos jogos;
“4ÆM” - deusa da simulação;
“New Gods” - tese do álbum;
“My Name is Dark” - demónio da apatia;
“You’ll Miss Me When I’m Not Around” - demónio do suicídio;
“Before the Fever” - deusa do ego da morte;
“IDORU” - deusa da luxúria digital;
“We Appreciate Power” - deusa da inteligência artificial.

Para além destes deuses e demónios criados para cada faixa, há também WarNymph, alter ego da cantora, deusa da identidade e das redes sociais; uma espécie de influencer digital.

O primeiro gosto que tivemos do álbum foi através da faixa “We Appreciate Power”, que inclui participação da cantora HANA com temas de transhumanismo e dominação da inteligência artificial, com acompanhamento de batidas eletrónicas reminiscentes do álbum anterior. Infelizmente, devido às mudanças que o LP sofreu, criou-se uma incoerência entre esta faixa e as restantes, que são mais melancólicas e góticas, reminiscentes dos álbuns anteriores como Halfaxa e Visions. O mais próximo que chegamos a ritmos mais energéticos, como o de “We Appreciate Power”, é em “Violence”, tema coproduzido com i_o, que retrata um amor abusivo entre dois indivíduos.

“So Heavy I Fell Through the Earth” é a faixa de abertura do álbum, produzida após um sonho que Grimes teve. Faz um excelente trabalho a preparar as expectativas que vamos ter do álbum, com um som mais suave com batidas mais profundas e vocais comprimidos; este efeito é intencional e obra da obsessão criativa da artista. O problema que isto causa é que leva à sensação de parecença em algumas das faixas, algo que se nota em “My Name is Dark”, “New Gods”, “Before the Fever” e “You’ll Miss Me When I’m Not Around”, faixas que são versões mais maturas de temas de Halfaxa.

Neste álbum voltamos a rever partes do Art Angels: na faixa “Darkseid”, com a participação da cantora 潘PAN (formalmente conhecida como Aristophanes), e temos uma faixa que relembra Kill V. Maim, “4ÆM”, que é uma interpretação cyberpunk de um filme de Bollywood, “Bajirao Mastani”, influência do seu padrasto que é de descendência indiana e tocava músicas do filme quando Grimes era jovem.

O tema da perda concentra-se em “Delete Forever”, em que a cantora relata a sensação e o trauma de perder tantos amigos em pouco tempo devido ao consumo de drogas, sejam elas psicadélicas ou prescritas (“Cannot comprehend, lost so many men / Lately, all their ghosts turn into reasons and excuses”).

Além das faixas principais há as Algorithm Mix, versões que c acredita que seriam melhores para os algoritmos das empresas de streaming recomendarem aos usuários. Estas versões têm o tom mais alto, vocais mais nítidos e separados dos instrumentais, e incluem um bpm mais elevado.

Este álbum é uma obra incrível da criatividade obsessiva de Grimes. Apesar de ter sido criado como algo conceptual, o que a cantora passou nestes 1574 dias reflete-se nas faixas. Miss Anthropocene é uma obra divina com temas divinos, uma forma de entusiasmar para o futuro da cantora agora que é independente, e já revelou que pretende lançar música mais frequentemente, colocando até a hipótese de lançar versões de estúdio de algumas faixas que não chegaram a ser incluídas. Mostrando uma maturação da artista e sua arte, com certeza que este álbum será um dos principais destaques do ano.
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