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Gus Dapperton - Where Polly People Go to Read

Review
Gus Dapperton Where Polly People Go to Read | 2019
Tomás Quental 24 de Abril, 2019
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Kevin Morby - Oh My God

Anderson .Paak - Ventura
“Ai ai, Gustavo, mas o que vem a ser isto…” – disse eu à primeira audição de Where Polly People Go to Read. Ele não se chama Gustavo, mas eu gosto de lhe chamar assim por duas razões: primeiro, porque quero que haja alguma intimidade entre nós; segundo, porque o corretor automático teima em discriminar “Gus” em favor de Gustavo e eu já perdi a paciência para acertar.

Gus Dapperton é o nome artístico de Brendan Rice, um americano de 22 anos que, em fevereiro de 2019, era anunciado em Portugal como “a nova certeza da indie pop”. Isto sem ainda ter lançado um único LP. Foi com 2 EPs e uns quantos singles lançados desde 2016 que conquistou a atenção de muita gente, incluindo o vosso humilde reviuista. Revisor? Avaliador? Não, avaliador parece muito sério, fica reviuista. Apresentando-se sonicamente como um cantor soul de bedroom pop e visualmente como um Justin Bieber para alunos de Belas Artes, Brendan Rice criou, em Gus Dapperton, a imagem de uma estrela pop para as novas gerações, com o equilíbrio perfeito entre o genuíno e o cuidadosamente construído. Em palco traz uma banda tirada de um filme Disney realizado por Wes Anderson, cada um com os seus outfits de cores berrantes e passos de dança espampanantes. Desde as pequenas coreografias até ao tom de voz quando aborda o público, não há nada no seu espetáculo que não esteja aperfeiçoado ao pormenor, nem mesmo a (aparente) naturalidade de todo um ethos. Dá até a impressão de ser um artista completo e maduro, algo que este LP de estreia vem desafiar.

Talvez seja com alguma injustiça que criei expectativas para Where Polly People Go to Read. Talvez tenha sido por causa dos incríveis singles que Dapperton foi lançando nos últimos tempos e que estão na tracklist do LP. “World Class Cinema”, “My Favorite Fish” e “Fill Me Up Anthem” teriam perfeito um EP incrível e prometiam mais do que este disco acaba por trazer. Foram um embrulho maldosamente bonito para as excelentes peúgas que recebemos. Peúgas essas que calham sempre bem, mas devem ser oferecidas com a antecipação proporcional ao valor emocional de uma peúga; ou uma caixa de bolachas deve ter bolachas e não utensílios de costura, mas voltaremos a esta questão fraturante da filosofia moderna mais à frente. A verdade é que estou a culpar o artista por algo que, no final de contas, é culpa do ouvinte. Afinal, fui eu que pensei estar perante um artista completo e maduro e fui eu quem criou a expectativa. Se tirarmos esse termo da equação o disco ganha automaticamente mais valor.

Estamos perante um conjunto de canções escritas, gravadas e até masterizadas por uma pessoa só e nenhuma delas é propriamente má. Todas seguem a assinatura sonora já bastante demarcada de Gus, o que não quer dizer que estejam exploradas ao seu máximo potencial. Há uma clara tentativa de as tornar o mais harmoniosas e fáceis possível. Esforço esse compreensível quando falamos de pop, mas caem demasiado para o lado do insonso e repetitivo do que propriamente das cores berrantes a que nos habituou Gus Dapperton. Algumas linhas de baixo fantásticas parecem esticar durante demasiado tempo, alguma da percussão parece encaixar mal, por vezes – serve mais a assinatura do artista e menos a canção. A fluidez do disco também foi claramente trabalhada, mas dá a sensação de baixar seriamente de rendimento entre “Nomadicon” e “Roadhead” – as terceira e sétima faixas –, ensanduichadas entre os singles em ambas as pontas. Esta escolha faz sentido, mas eclipsa o potencial de alguns momentos melhores. Da segunda para a terceira faixa, o disco faz cortar a energia contagiante de “World Class Cinema”, não volta a trazê-la até ao fim, e esconde o que “Nomadicon” poderia ter sido com melhor vizinhança. A abertura e fecho do disco são os momentos mais fracos. “Verdigris” é o ponto de partida e o ponto que menos dinâmica tem em toda a lista. Esta sequência inicial faz com que a meio do disco já se tenha perdido qualquer tensão que pudesse haver, e o final, que devia ser triunfante, já chega tarde demais. De faixa em faixa repete-se o padrão de uma cortar a energia da anterior, numa decisão que, apesar de consistente, tira valor à experiência que podia ser ouvir este disco.

As letras são consistentes com as anteriores, saltando entre o despreocupado serviço à melodia e a esperteza espontânea. Um momento excecional é a lírica mais, digamos, erótica de “Roadhead”. A melodia synth envolve palavras saídas da mesa de trabalho de Kanye West num momento estranhamente compensador. Fica a aprovação pelo risco tomado que, infelizmente, não acontece no resto do trabalho. Algo totalmente compreensível quando se está a fazer pop.

É aqui que quero trazer de volta as peúgas já meio esquecidas. Em 2015, dizia Kevin Parker (Tame Impala) à revista Mojo: “When I became a rock musician, I assumed pop music was easy to write, and that interesting rock music, or alternative music, was hard. It was only later I realised that writing a pop song is the hardest thing musically.” Rematando com “é muito mais difícil chegar aos corações das pessoas do que aos seus cérebros.” Pois bem: o pop, quando é ligeiramente imperfeito, fica demasiado parecido aos presentes-peúgas. Parece útil, mas descartável. Também é necessário, mas não envelhece bem. É essa a previsão – se alguma hubris me é permitida nestes assuntos – que faço deste disco: não parece que vá envelhecer bem. E se este LP de estreia demonstrou as falhas de um artista ainda em desenvolvimento, conseguiu mostrar onde ele pode chegar se desenvolver os seus pontos fortes. É um disco que se perde no caminho para o coração, porque o pop é mesmo assim, mas vem de um artista que já mostrou estar na rota certa. Com os singles e EPs memoráveis, se há algo que Gus Dapperton já mostrou saber fazer em outros formatos é chegar ao coração.
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