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Jonathan Uliel Saldanha – Tunnel Vision

Jonathan Uliel Saldanha

Tunnel Vision| 2016

PONTUAÇÃO:

8.5

 

 

 

O terceiro lançamento Silo Rumor – editora independente sediada do Porto e distribuída pela Cargo UK, que se move entre os espaços intersticiais da música exploratória, composições eletrónicas, pulsos arcaicos e dub – traz ao mundo o segundo LP em nome próprio (seis anos depois do primeiro) de Jonathan Uliel Saldanha, nome sonante da cena avant-garde portuguesa, que conta com projetos como o coletivo SOOPA, HHY & The Macumbas, Mécanosphère com Adolfo Luxúria (Mão Morta) e o francês Benjamin Brejon, ou Fujako com o belga Nyko Esterle (Ripit, Solar Skeletons) e um sem-fim de MCs Europeus. Saldanha trabalha com som, filme e encenação, já colaborou com nomes nacionais e internacionais que dispensam apresentações como Adrian Sherwood ou Carlos Zíngaro e tem trabalhos lançados pelas suas editoras – SOOPA e Silo Rumor – e outras com a Tzadik (Merzbow, Jim O’Rouke).

O álbum, Tunnel Vison – que sucede The Earth as a Floating Egg de 2010 –, teve origem na banda sonora do filme de ficção científica com o mesmo nome realizado por Raz Mesinai (co-curador da Silo Rumor), e é apresentado agora reeditado, remasterizado e “mixado como um álbum dub destinado a um soundsystem do futuro”, usando o processo que Saldanha refere como “Skull-Cave-Echo”. Em Tunnel Vision ouvem se as fanfarras sombrias e a influência dub de HHY & The Macumbas, mas aqui é elevado ao limite. À escuridão das fanfarras são adicionados coros de um negrume incrível como em “Fanfare from The Resonating Geophone”. A percussão é exotérica como no seu antecessor, mas mais imprevisível e cativante. Como se isso não fosse suficiente as gravações foram feitas em túneis espalhados pela região do Porto, permitindo captar os subgraves mais profundos e criar um ambiente claustrofóbico e ao mesmo tempo vasto, de fazer temer e desejar o subsolo.

As faixas são detalhadas, disformes e de evolução constante. “Train Tunnel/Crane Dub” é o perfeito exemplo, desde as pulsações graves off-beat e sons animalescos, aos sons aguçados e cortantes daquilo que tanto podem ser sinos Burma ou Tingsha como as panelas e tachos das vossas casas, esta faixa surpreende a cada batida. Já nas passagens drone de faixas como “Ressurection of The Concrete Jungle”, é possível ouvir e sentir os sons a aparecer e desaparecer como se da realidade se tratasse, e somos transportados por momentos para um local inferior onde conseguimos ouvir ao longe o caos desta selva de concreto. Ouvem-se buzinas de carros e avisos sonoros de marcha atrás por exemplo, mas tudo a uma distância confortável, a distância de quem olha a realidade pelos olhos de Saldanha.

Tunnel Vision não é um álbum dançável como se espera que seja um típico álbum dub, mas esse também não é de todo o seu objetivo. Os seus graves densos e caráter abstrato exigem uma sala escura, uns headphones de qualidade ou um bom soundsystem, disponibilidade para ser confundido pela música e abandonado pela consciência e deixar que cada faixa vos leve cada vez mais fundo neste mundo perturbador.

 

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Por Rafael Baptista / 25 Novembro, 2016

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