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Kevin Morby - Singing Saw

Review
Kevin Morby Singing Saw | 2016
Miguel Teixeira 20 de Dezembro, 2016
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“Amor e destruição”, “morrer e renascer”, com estas palavras podemos descrever o novo e terceiro álbum a solo de Kevin Morby, que aos 28 anos parece estar ainda melhor, fazendo-nos viajar para a terra dos coyotes e ao mesmo tempo, para o folk dos anos 60, 70. E coincidência, ou não, este disco surge no mesmo ano em que acontecem dois marcos, nos dois heróis inspiradores da música de Morby: Dylan, que recebe o nobel da literatura e Cohen que, infelizmente, nos deixou este ano.

Singing Saw, assim se chama o novo disco do ex-Woods/ The Babies, continuando, como bem nos habituou nos seus anteriores trabalhos, com o estilo folk-rock dos anos 60. Em 2014, Kevin muda-se de Nova Iorque para o bairro de Mount Washington, em Los Angeles. Inspirado pelas colinas no seu novo bairro, e tendo encontrado na sua nova casa, um piano e folhas com notas introdutórias, deixadas pelos antigos residentes, ali deu os primeiros passos no piano. Resultado? Este grande álbum composto por 9 faixas, com uma duração de 43 minutos. Este é daqueles álbuns em que se nota, em relação aos anteriores, uma profunda diferença marcada pela mudança na vida do músico, e que carrega em si traços profundamente emotivos (e diferentes), em cada uma das faixas.

O primeiro single, “I Have Been To The Mountain”, é dedicado a Eric Garner, um afro-americano morto pela polícia de Nova Iorque em 2014, representando assim, tal como Morby refere, “os assassínios insensíveis e lamentáveis que têm assolado o planeta, pelo mal”. Esta música representa de algum modo, a morte, carregando em si, um grande valor emocional, com uma letra que transporta uma profunda revolta por uma morte inocente, tendo como exemplo o verso, “I have seen, but I can’t see him no more”. Já por si, “Destroyer”, remete também a uma tristeza, mas por algo que foi e que já não é, um amor que foi retirado, um amor que foi destruído.

Por outro lado, e com o grande êxito deste álbum, temos a música “Dorothy”, a mais melódica e rica em sonoridade instrumental, que numa primeira audição, nos prende quase como de forma imediata. Esta é daquelas que nos fazem ouvir vezes sem conta, imaginando-nos dentro de um carro, naqueles anos 60, com as típicas paisagens rurais e montanhosas americanas, que tanto nos habituaram.

Ao ouvirmos “Drunk and On a Star” e “Ferris Wheel”, temos a sensação (tal como a letra remete), de que estamos a perder a cabeça, na ebriedade dos nossos pensamentos, ao mesmo tempo que recebemos aquela beleza musical que tantas vezes procuramos. Percebe-se o mesmo, com a tempestuosa “Black Flowers”, que com o seu piano, o simples bater da bateria e com o belo coro, percebemos a transcendência da alma, do ser lucido em si, e o “perder-se” enquanto sujeito. “Water”, permanece como uma continuação neste “perder-se”, com o exemplo dos versos, “My body was sleeping / While my poor mind was dreaming”. Esta, especialmente, é uma das mais bonitas do disco, pela calma e serenidade transmitida pelo artista.

Com traços mais blues-rock, e profundamente marcada pela mudança para Mount Washington, “Singing Saw”, transporta-nos para a aquela terra de coiotes, com a típica imagem de serenas colinas verdejantes, numa calma, que outrora Morby não tinha em Nova Iorque.

Kevin Morby, fez aqui algo de único, um álbum recheado de diferentes ritmos e emoções, que consegue prender qualquer um, mesmo numa primeira audição, e este é daqueles poucos álbuns que consegue passar por gerações, sem que todo o misto de sentimentos passe ao lado. Construiu aqui uma sonoridade que há muito não se encontrava, da mesma forma que Kevin faz, e isso faz deste, um dos melhores álbuns deste ano, vendo-se também pela sua passagem de sucesso por festivais e concertos em sala fechada em Portugal, este ano. Um álbum a ter em conta, definitivamente.
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