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King Woman – Created In The Image Of Suffering

King Woman

Created In The Image Of Suffering | 2017

PONTUAÇÃO:

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Há bandas e artistas que nasceram para criar algo muito especial com a sua música. Coletivos e indivíduos que conseguem desenvolver a sua própria linguagem através de profundas e calorosas sonoridades, vozes disformes e letras que sabem ilustrar melhor do que falam. Tomando em conta o estado atual do mercado, apercebemo-nos cada vez mais que esta espécie de artista encontra-se quase extinta. Numa era onde revivals são o melhor investimento e o que safa um artista é a sua capacidade de ser mais um e não um primeiro, não podemos deixar de admitir que no underground, o doom não é o estilo ideal para encontrarmos bandas deste calibre, e tomando em conta que poucas das variações que o estilo tem tido oscilam, muitas das vezes, entre o psicadélico e o drone, persiste ainda o pouco vestígio de ambição para sair do molde ou de alterar a estética que permanece inalterável desde os anos 70/80. Evitamos colocar os veteranos neste encaixe, mas insistimos em sublinhar o quão frustrante é encontrar bandas novas que não conseguem, por nada neste mundo, mudar as linhas de raciocínio nem tão pouco inovar com o pouco que se tem feito ao longo das décadas. Felizmente, nem tudo é mau. Com o progresso dos anos 90, viemos a conhecer grupos como My Dying Bride, Neurosis, Sleep, cada um com a sua respectiva leitura de doom metal tomada a cabo a partir de influências completamente distintas. Nos dias de hoje, podemos contar com pioneiros da nova vaga de doom com grupos como SubRosa, The Body, Yob e The Flight of Sleipnir, e é engraçado imaginar como é que tão poucos artistas, simultaneamente muito diversificados em termos de som e estética, conseguem todos originar num amor inimaginável por Black Sabbath. Desde que aprendemos da existência do novo projeto de peso da ex-vocalista de Whirr e mastermind por de trás do seu único e exclusivo projeto a solo Miserable, referimo-nos claro a Kristina Esfandiari e ao seu respectivo quarteto King Woman, que ficámos com uma noção completamente diferente daquilo que pode vir a ser o futuro do doom.

King Woman, que vai muito ao encontro daquilo que foi descrito no início deste artigo, é uma banda que preserva dentro de si um grandioso talento para se destacar num meio já permanentemente saturado pelas mil e uma versões copiadas de doom. A interpretação atmosférica desta banda é algo que, até hoje, ainda não tínhamos ouvido em mais lado nenhum. O primeiro lançamento oficial da banda deu-se a partir da aclamada editora The Flenser, com o lançamento do igualmente bem recebido EP Doubt em 2015. Logo com o arranque da “Wrong”, o projeto faz-se sentir como uma pesada e lenta caminhada por bosques de arquiteturas barrocas e arcadas de almas pesadas. O peso do baixo guia-se muito com os ritmos desafogados e bem assumidos do baterista, mas algo de incontornável que merecerá sempre ser mencionado, é a imponente voz de Kristina. Grave e sonante, como o ecoar das serras em manhãs nebulosas. A presença total da “King of Swords” só faz ainda mais justiça à referida estética de reinados e exércitos de cruzadas. Mesmo com uma tristeza típica da atmosfera nublada, que lembra muito o shoegaze e post-rock dos anos 90, oriundos de My Bloody Valentine e Mogwai, a banda adquire dimensão principalmente no acentuar dos ritmos mais lentos, e o inverso acontece com os ritmos mais rápidos. Por enquanto, mesmo com pouca variação de ritmos e estabilidade no acentuar das guitarras, a imagem global do EP romantiza-se no monocromo e na tragédia das letras dolorosamente pessoais de Kristina, frequentemente a relembrarem o negativo de uma infância castigada pela religião. “Burn” é de longe a mais memorável de todas as faixas no registo. Já a libertarem-se para um espectro mais vívido e colorido, a banda solta-se num chiar de melodia a contrastar com a densidade rítmica, enquanto a voz lembra em plena nostalgia o timbre e presença da mítica Grace Slick dos Jefferson Airplane. A combinação é tão bizarra e intensa, mas acreditem, funciona!

Com uma estreia destas, é difícil não serem cobiçados seja onde for. Mesmo sem digressão europeia, a banda esmerou-se para entrar no espectro americano, digressões, aberturas e até mesmo uma “quase”-digressão incompleta com Pentagram e Wax Idols que se viu prematuramente terminada graças à má postura do Bobby Liebling e injusta gestão geral da digressão. 2016 correu bem para a banda tomando em conta que sem um álbum de originais conseguiram acesso ao plantel de luxo da Relapse e com projeto já para 2017. Ainda a começar o ano, e a banda já tem marcada a sua primeira tour europeia, com algumas datas a solo e outras a acompanhar Chelsea Wolfe e True Widow, presentes inclusive na sua estreia no Roadburn, em Tilburg. Mesmo que sejam um bocado restritas, é de esperar vê-los voltar mais para o final do ano. Com o ano a começar tão bem, e já com críticas positivas de colegas no cenário, é de esperar um álbum de proporções monstruosas. Confirmaram em dezembro do ano passado o projeto Created In The Image of Suffering, para ser lançado em Fevereiro de 2017, e até cá foram lançando singles e teasers, acompanhados de apoio audiovisual, que sempre se manteve pouco importante em relação àquilo que nos importa mais acima de tudo, a música! Por esta altura, já em véspera de lançamento e com o álbum a circular pelas redes, a ideia de o ter é quase um prazer proibido, mas verdade é que são esses que sabem melhor. Pela altura que este artigo sair, já o álbum tá mais que visto e revisto com inúmeras boas críticas e boas recepções por parte dos verdadeiros apreciadores de música pesada. Se ainda não tiveram oportunidade para o ouvir, então preparem-se, é um gamechanger absoluto. Não só pelos instrumentais, que já isolados são fortes e decadentes, orgânicos e emotivos, mas também pela produção geral do álbum. É merecido, não só por aquilo que a banda já passou mas também por aquilo que têm para dar, e se observarmos com atenção ao amor que os membros reservam a este projeto e a todo o seu potencial, percebemos o quão merecido todo este investimento por parte da Relapse é verdadeiramente.

Created In The Image Of Suffering funciona quase como um diário. Apesar da não registar os dias, sentimos as saliências do tempo a passar, uma faixa é um dia, duas são um mês, o álbum todo uma adolescência inteira, seja de que forma for, não sobram dúvidas acerca da ligação puramente emocional com a própria longevidade do álbum. As faixas mais curtas do registo são as primeiras do álbum, a começar com a “Citios” que é simplesmente uma introdução com a voz de Kristina a repetir o título do álbum, nada de mais, nada de especial. “Utopia” vira a primeira página com o ressoar das guitarras ligadas à corrente, com tensão e energia a prolongar entre as cordas, até surgir a bateria e a textura destas. Para além de marcar tempo para aquilo que vem, é uma faixa que só fica a ganhar pela sua simplicidade, acessibilidade de leitura e impacto imediato no ouvinte. O riff primário é viciante até dizer chega, redondo e perfeitamente executado, nota-se de imediato com essa forma uma dualidade diabólica entre a voz e as cordas, e esta, por sua vez, depende principalmente do reverb decadente para se fazer ressoar como um ecoar cavernoso. O fecho com a submissa frase “and this is really happening…” a circular num deambular angelical, até se repartir em todas as direções como um cálice em queda no mármore. Com o estabelecer da estética e da cor, a banda consegue criar uma continuidade singular mas, felizmente, nada óbvia, entre a “Utopia” e a “Deny” que se introduz com paciência e calma, só se ouve a pulsação da bateria e o choro silencioso das guitarras, melódicas e emotivas, até reaparecer de novo o músculo nas cordas, a jorrar sangue como cordas vocais de um tenor. É incrível como a banda consegue canalizar o peso em função da atmosfera e sem tentarem ser intencionalmente “catchy” apesar de o conseguirem no final, a banda alcança uma dimensão tremenda nesta terceira faixa, imponente em todos os sentidos possíveis. Abismal e assustador, mesmo com a muito dotada Esfandiari a nadar entre lenços de bordados e renda, padrões persas a preencher cúpulas de arejado calor e pessimismo. A “Shame” lembra, e com muito prazer, os riffs que os True Widow costumam usar nas suas músicas, a começar lento e divagante, como já é hábito, uma quebra de luz solar a nascer nos limites do horizonte, lentamente a latejar as palavras “Look at me, look at me, hide the shame in your heart”. Arrepiante, para dizer o mínimo. O jogo emocional das palavras pesa na reação do ouvinte e seja por coincidência, ou não, é quase inevitável relembrar o filme Shame, de 1968, realizado pelo mítico Bergman:

Sometimes everything seems just like a dream. It’s not my dream, it’s somebody else’s. But I have to participate in it. How do you think someone who dreams about us would feel when he wakes up. Feeling ashamed?

Dito isto, abraçamos a grande paixão que a banda tem por textura e transições quase totalmente contidas ou inexistentes, muito à semelhança daquilo que o Bergman fazia na sua arte, e isto usado de forma quase sistemática ao longo do álbum. Encontramo-lo de igual forma e feitio na “Worn” e “Manna”, cujas tendências vêm-se cada vez mais incutidas para o clássico, evidenciando progressivamente mais elementos de orquestra, e como se o ritmo não fosse já por si, tremendamente melancólico, os poucos momentos de elevada intensidade no final do álbum, como o clímax da “Hem” e o refrão da “Hierophant” servem de puro relevo para contrastar os pólos emotivos das marés. Mesmo numa conclusão praticamente resignada à sua própria realidade, podemos encontrar valor no meio de toda a tragédia retratada no álbum. Instrumentalmente, é um dos mais fortes registos dentro do estilo nestes últimos anos, com riffs a pesar toneladas num meio que se alimenta da atmosfera, uma luta que só acaba por contribuir em função de um som implacavelmente abrasivo e quente. Apesar de se apresentar de forma bastante tensa e calculada, a precisão não tira a humanidade ao registo, que se viu constantemente acompanhado por uma voz imponente e grave, com uma performance de luxo por parte da Kristina e a não esquecer das poderosíssimas e impactantes letras de simplíssima poesia desde a segunda à última faixa. Funcional, sincero, cativante e inovador, não há como enganar. Somente quem não estiver pronto, não terá braços e coração para incutir a alma deste projeto na sua atenção. Sem dúvida, um gamechanger.

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Por João "Mislow" Almeida / 4 Abril, 2017

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