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Kiran Leonard – Grapefruit

Kiran Leonard

Grapefruit | 2016

PONTUAÇÃO:

9.0

 

 

 

Kiran Leonard, cuja voz estremece e enrouquece quando se exalta, é sem qualquer dúvida um artista a ter em atenção no futuro. Natural de Manchester e filho de um cantor de folk, Leonard herdou um profundo talento para a música, tendo lançado o seu primeiro álbum oficial (isto sem contar com os anteriores álbuns lançados independentemente pelo bandcamp) Bowler Hat Soup, em 2013, com apenas 17 anos, no qual tocou praticamente todos os instrumentos. Agora, com 21 anos, lança Grapefruit, um álbum inclassificável e ambicioso que vem adicionar novas camadas ao único e fascinante universo que Leonard cria com a sua música e letras.

Grapefruit é um álbum que ao longo de oito músicas paira descomprometidamente entre as mais monumentais e ruidosas (mas lindíssimas) composições e as mais calmas e introspetivas sonoridades. Logo desde o início do álbum é percetível que estamos a ouvir algo de muito peculiar, com a arrojada música de dezasseis minutos “Pink Fruit”, que num assumido desdém pelas convenções tradicionais da estrutura musical nos leva numa estranha viagem através de uma panóplia de sonoridades. Passando pelo math rock, pelo rock progressivo e por outras sonâncias menos genéricas, Leonard fala sobre questões como a sua necessidade de conectar-se recorrendo à complexa metáfora de um homem que encontra uma lula a viver dentro do abdómen da sua amada, sendo a segunda parte da música depois cantada do ponto de vista da mulher que carrega o cefalópode.  Ao ouvir esta e outras faixas do álbum é fácil lembrarmo-nos das músicas mais pesadas de Jeff Buckley e dos gritos roucos e desesperantes de David Longstreth nos álbuns mais antigos dos Dirty Projectors.

Apesar de ser audível que este álbum é um produto do amor ao caos e à discórdia há também nele vários momentos de uma grande beleza mais calma e meiga:  temos “Caiaphas In Fetters”, onde  Leonard despe a sua composição das complexidades que são seu hábito para criar uma belíssima música com apenas uma guitarra, a sua voz e maravilhosos arranjos de violino, e “Half-Ruined Already”, que segundo Leonard é inspirada pela curta-metragem de 1968 “Letzte Worte” (“Last Words”, em inglês) do realizador alemão Werner Herzog, no qual a certa altura se fala sobre como um homem sem pernas e uma mulher sem braços se podem complementar para criar um ser humano completo.

Por fim, é necessário mencionar também pela sua peculiaridade a música “Öndör Gongor”, que segundo Leonard não tem qualquer significado. Öndör Gongor foi um famoso homem da Mongólia que viveu no início do século XX e que durante muito tempo foi considerado o homem mais alto do mundo, no entanto a música com o seu nome menciona-o apenas muito vaga e aleatoriamente no final.  Não é de todo por isso que ela perde o seu valor, visto que com o seu efeito de pitch bend e a sua sonoridade dissonante é uma das músicas mais atmosféricas do álbum, invocando histórias de barcos encalhados, mares enraivecidos e seres incompreensíveis. Leonard tem a brilhante capacidade de escrever frases que no mistério e ambiguidade do seu significado acabam por fazer surgir imagens surpreendentemente nítidas nas mentes dos seus ouvintes, habilidade literária explorada também nas obras de outros grandes artistas como Nick Cave e Tom Waits.  

Quando acabamos de ouvir Grapefruit facilmente nos sentimos arrebatados pelo quão poderoso e complicado o álbum pode ser. É uma incrível deambulação pela periferia do rock e ao ouvi-lo é difícil não sentir admiração pelo potencial de Kiran Leonard, que com apenas vinte e um anos compôs um álbum que denuncia uma maturidade infinitamente maior do que a sua idade poderia sugerir.  Agora resta-nos apenas a expectativa dos álbuns futuros, pensar que este álbum representa de certa forma a abertura de uma comporta musical para o universo de Leonard e que agora que ela está aberta nos podemos preparar para uma verdadeira inundação da sua música que tem tanto de épico, caótico e inovador como de calmo, suave e organizado.

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Por Lucas Keating / 16 Janeiro, 2017

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