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Liturgy - The Ark Work

Review
Liturgy The Ark Work | 2015
Rafael Trindade 01 de Abril, 2015
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Nos tempos que correm, cada vez mais pessoas se esquecem daquilo que é e deve sempre ser a ideologia filosófica do género musical denominado “Metal”. O Metal é um género que foi criado através de sentimentos opressivos, de revolta, de aprisionamento e sobretudo de profunda tristeza. Digamos que é tanto de um género musical como é de um movimento radical de imposição ideológica e de obliteração completa de quaisquer regras que sejam limitadoras.

O que é, então, o Metal nos dias de hoje? De facto, o Metal hoje é um estilo em constante e progressiva mudança, e sobretudo um estilo repleto de variedade. Bandas como os Deafheaven, os Protest The Hero, os Altar Of Plagues (cuja ausência é sentida pela parte da comunidade metal) e os Wolves In The Throne Room são inovadores dentro do género. Temos ainda bandas do passado que constantemente se reinventam, como os Soilwork, os Behemoth, os Darkthrone, os Gorguts e o admiradíssimo Varg Vikernes (mais conhecido por Burzum). Temos projetos “one-man-band” como Leviathan, Panopticon e Xashtur. E finalmente, temos também projetos recentes mas promissores como os Dead Congregation, os Artificial Brain, os Triptykon e os Ne Obliviscaris.

Embora todos estes projetos se insiram no género entre as categorias de “pioneiros”, “permanências indestrutíveis” ou “talentos revelação”, apenas uma banda do tempo presente consegue dar passeios mórbidos pelos três vértices do triângulo. Essa banda são os Liturgy, a banda de black metal que é tudo menos black metal. Inseridos no panorama de uma vertente de metal em que as performances ao vivo são habitualmente espalhafatosas e recebem de bom grado as pinturas faciais, os Liturgy simplesmente atuam de t-shirt e calças de ganga. De facto, mais do que apenas “black metal”, o vocalista /guitarrista / bandleader Hunter Hunt Hendrix define a banda como “transcendental black metal”. Pode dar uma má primeira impressão e soar demasiado pretensioso, mas quando se desembrulha a caixa de surpresas que é o trabalho das Liturgy, o termo faz todo o perfeito sentido.

No seu primeiro disco, Renihilation, toda uma estética de black metal foi misturada com elementos de música ambiente, drone, experimental e até mesmo de música jazz. Com o sucessor Aesthethica, derrubaram tudo aquilo que tinham construído em ordem de atingirem resultados progressivamente mais estranhos, heterodoxos e inacessíveis. Chegou-nos agora The Ark Work, e o que é que os Liturgy conceberam? Um clássico moderno.

No âmbito de descrever a polarização que senti quando ouvi The Ark Work pela primeira vez, passo a citar um amigo meu: “Eu não sei se isto está uma autêntica cagada ou se é a coisa mais genial dos nossos tempos”. Somos introduzidos à exigente e rígida jornada de 56 minutos pelas trompetes sintéticas e eletrónicas de “Fanfare“; uma espécie de preparação para a tempestade sónica que é “Follow“. Ouvimos “Wind Chimes” e instrumentos de madeira num tema de black metal que já por si só é nada menos que catastrófico. Hunter Hunt Hendrix não grita, mas canta como um vocalista de shoegaze. As guitarras de distorção black metal atípica são contornadas por efeitos eletrónicos incontrolavelmente barulhentos enquanto Greg Fox exerce toda a sua criatividade e poder nas suas amortizadoras e intergalácticas blast-beats.

Após aplausos provenientes da multidão enlouquecida de um enorme estádio Romano, eis que a colossal “Kel Valhaal” dá continuidade à sessão de porrada auditiva transcendente através dos seus grooves infecciosos, letras filosóficas e crescendos emocionais. Uma autêntica montanha-russa. E se pensavam que os Liturgy ficariam por aqui, estão completamente errados. “Follow II“, outro monumento abundante de The Ark Work, despende de 7 minutos e meio para explodir e rebentar completamente connosco, ainda apenas na primeira metade do disco.

Digam olá a “Quetzalcoatl”, o primeiro single retirado de The Ark Work e a coisa mais “transhumanistic post-rock electrocore“ que vocês vão ouvir nas vossas vidas. Decididamente entre o trabalho mais experimental que qualquer banda de Metal já concebeu, há uma justaposição entre a alternância de instrumentos físicos e digitais, e ainda os emocionais riffs de guitarra e acompanhamentos de instrumentos de cordas que a segunda metade do tema contém. De seguida, “Father Vorizen” aparece subitamente e enche o sistema auditivo do ouvinte com riffs descomunalmente atmosféricos e simultaneamente esmagadores, sendo a faixa um dos temas mais bem construídos da carreira dos Nova-Iorquinos.

Somos sucessivamente presenteados com “Haelegen”, uma pequena peça de música ambiente que conforta o ouvinte após momentos bruscos e de excessivos níveis de intensidade. Tudo parece calmo a partir daqui, até que a transição de “Haelegen” para a faixa-estrela de The Ark Work se sucede: “Reign Array” aparece para nos conceder 11 minutos da porrada mais brutal e aniquiladora que já levamos nas nossas vidas. Toda a variadíssima instrumentação entra numa amálgama incontornável e explode imparavelmente enquanto Hendrix mecanicamente exclama as palavras que dão título à faixa. Podemos considerar “Reign Array” o apogeu, não só de The Ark Work, mas de toda a carreira dos Liturgy.

Após um momento tão intenso como “Reign Array”, poderíamos nós esperar um soco na boca ainda mais certeiramente deliberado? Não, e eis que os Liturgy nos dão exatamente isso. Como? Sem muitas cerimónias, atiram para a panela um tema influenciado por música gregoriana e música trap / hip-hop. Repito: Hip-hop acompanhado de cantos gregorianos num disco que se assume como “black metal”. O tema em questão é “Vitriol”, cujo título os cantos gregorianos e robóticos de Hendrix exclamam ao longo do tema, enquanto a batida trap / hip-hop nos atormenta num compasso mecânico e composto de 7/4.

“Total War” chega até nós e acaba connosco. Já conscientemente subjugados pelo efémero poder estético que a música dos Liturgy possui, os senhores decidem afogar-nos em mágoa ao darem um término emocional a The Ark Work que faz entrarem em mescla todos os elementos físicos e digitais dos quais a banda usufruiu para criar o seu terceiro álbum. Assim, The Ark Work acaba e deixa-nos a ponderar acerca daquilo que acabámos de experienciar.

Embora The Ark Work tenha sido descrito por Hunter Hunt Hendrix como “algo que a banda considerou esteticamente certo fazer”, é um disco constantemente perseguido por uma atormentadora melancolia que se faz sentir através da voz mecanizada e subjugada de Hendrix. Este parece um uma-vez ser humano que sofreu uma transformação intensa que o mecanizou e obliterou qualquer sentido que a sua vida uma vez teve. Mas o desespero reside em cada nota extraviada que Hendrix solta em “Follow”, em cada cântico atemorizador de “Vitriol” se sente o medo de uma alma futuristicamente processada, e em cada instrumental colossal e contundente de temas como “Quetzalcoatl” e “Reign Array” se faz sentir o último suspiro de um ser humano nos últimos segundos do seu processo de decadência.
As regras foram destruídas e a tristeza voltou a casa.
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