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Lycus – Chasms

Review
Lycus Chasms | 2016
João "Mislow" Almeida 16 de Maio, 2016
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Death Grips – Bottomless Pit

Jessy Lanza - Oh No


 

Numa semana de maio em que é interrompido o terno calor de Primavera e retorna à baía o céu cinzento e as noites de frio, descubro com uma altíssima surpresa que os Lycus já lançaram um álbum este ano. Seja por erro meu ou por erro da editora – nomeadamente, por falta de promoção – apercebo-me que os californianos já têm isto cá fora desde janeiro, e eu que até vibrei imenso com o álbum de estreia, Tempest, admiro-me como é que só agora é que me deparo com isto. E realmente tenho de culpar alguém, porque sendo um fervoroso adepto de grande parte do que a Relapse Records lança, fico desiludido por não ter visto nenhuma divulgação deste projeto, tomando até em conta que quem conhece o espectro atual de bandas jovens de Doom, sabe que Lycus foi um exemplo de talento e potencial após Tempest. Depois disso, muito se aguardou por novidades e por digressões, portanto pouca justiça foi feita com esta atenção dada à banda. E agora que vejo, consigo nomear mais uns lançamentos de grande relevo (na minha opinião) que tão pouco ou nada têm sido mencionados pela editora: o novo álbum de Tombs, a colaboração entre Merzbow e Boris, o segundo álbum de Magrudergrind, e caso haja dúvidas, para os mais desatentos, ainda se está a aguardar os lançamentos de Apology dos Weekend Nachos, Tired of Tomorrow dos Nothing, Still They Pray dos Cough e Dimensions of Horror dos Gruesome, e para contornar a desatenção alheia daquilo que pode vir a sair nos próximos meses vou tentar prestar atenção àquilo que a Relapse está a fazer, porque como os bons meninos que são têm de promover tudo de bom e de mau que lançam, é esse o trabalho da editora, e sinto que falharam com este conjunto de lançamentos.

Voltando à banda, Lycus começou o seu percurso de devastação em 2008, uma altura em que havia tanto atrito entre as ideias e a execução que pouco se conseguia fazer para que fossem conhecidos fora da Califórnia, por uma razão ou por outra o trabalho já não estava a valer a pena. Falta de tempo, disponibilidade, dinheiro, seja o que for, aquela não era a altura ideal para lançar álbuns e a comprometerem-se com custos de investimento, sem ter música que justificasse isso mesmo. Um ano depois de se terem formado, a banda declara hiatos. Em 2011 retornam ao espectro e tentam convencer o público do seu mérito com o lançamento da segunda demo MMXI que, diga-se de passagem, não foi mal recebido de todo, até porque este já conseguiu mostrar, com mais evidência, os traços característicos da banda, as influências hereditárias que ajudam o grupo a tracejar as linhas algo distorcidas pelo peso e agonia da música. Influências essas que podem contar com My Dying Bride, Evoken, disEmbowelment, Funeral e Mournful Congregation, bandas que duma forma ou doutra moldaram a relevância histórica do género com panoramas sónicos emocionalmente bélicos, com um tom sempre depressivo ao ponto de tendencioso em relação ao suicídio.

Esta é a versão que provavelmente menos interessa à juventude de hoje em dia, que por um leque de razões encontra mais conforto e prazer na faceta Stoner do Doom. Enquanto que este foi exclusivamente definido por bandas como Sleep, Electric Wizard, Acid King e Cathderal, o Doom/Death ficou num cruzamento perpendicular ao seu irmão gémeo, guiado por bandas como Asphyx, Amorphis, Anathema, Novembers Doom e Thorr’s Hammer, que (como o nome indica) aprofundaram o som do Death Metal com elementos de Doom, abraçando passagens lentas e divagantes sem poupar no peso das afinações mais graves e depressivas. Por regra, com esta combinação de características, o Doom/Death é um estilo tipicamente depressivo, emocionalmente submisso e niilista, muitas vezes fazendo referência a morte, suicídio, existencialismo e a inseguranças pessoais. E sendo um sub-estilo globalmente criado por bandas europeias, é inevitável encontrar traços de liricíssimo romântico pelas melodias da música, suscitando sempre nomes como Goethe, Stoker, Dostoiévski e Shelley, cujas anatomias literárias demonstram um caparro de presença e humanidade difícil de ocultar nas letras e atmosfera teatral do Doom.

A geração mais recente de bandas de Doom pode contar com Ahab, e o seu abismo de ritmos e retratos marítimos de uma clara influência a Moby Dick de Herman Melville; e Hell com as robustas pinceladas de Inferno da Divina Comédia de Dante em paisagens sonoras impiedosamente densas, cujos elementos de drone e Sludge mergulham o ouvinte numa escuridão de sensações claustrofóbicas.

É difícil colocar Lycus num só saco. Na verdade, o título de Funeral Doom faz-lhes pouca justiça ao som, até porque este é dos mais expansivos e bem conseguidos que já ouvi dentro do estilo. Após a Demo a banda assina contrato com a 20 Buck Spin e vê o espaço para a criatividade a aumentar exponencialmente, e pouco tempo depois, lançam Tempest. Servindo como álbum de estreia, este deu à banda um poderio imenso de renome, valeu ao grupo um passe de entrada ao cenário atual de Doom. Um álbum que exige ao ouvinte tanta atenção como energia, cuja presença progressivamente expansiva se apresenta com uma postura de sinistralidade, a disparar planos de morte como uma praga envolto da mente do ouvinte. A bateria ritmada por batidas lentas e compassos extensivos, permite às guitarras uma opacidade característica que só com a distorção não era conseguida. A “Coma Burn”, malha do álbum, mostra ao ouvinte aquilo que serve de “fuel” à inspiração da banda, hectares de terra devastada por uma peste impenetrável, desenhadas pelos “growls” cavernosos e aterrorizantes a par da melodia fúnebre das guitarras. Um paredão de peso simbolicamente tracejando o desespero humano em situações de morte inevitável. Há algo assustadoramente belo nesta música e a dimensão que ela toma só ajuda a contribuir para os arrepios ao longo da minha espinha. A “Engravings” é uma mera ponte, mas desenrola um papel importantíssimo no álbum, sem esta faixa, o álbum seria redundante, sem diversidade, sem ânimo e textura. Digo isto porque qualquer álbum tem de ter uma faixa, aparentemente irrelevante, mas que de uma forma ou doutra, joga a carta da consistência, servindo como caminho de ferro, dar continuidade à textura e ao molde da imagem ilustrada pelo som do álbum. A “Tempest” é o ponto alto do registo, a ofuscar a vista e a encostar a lâmina aos flancos do pescoço do ouvinte. Sem hesitação, empurra o aço e rasga o contorno dos músculos. A partir daí, gritos de desespero e desamparo, guitarras submissas de choro de enterro a guiar por uma dicotomia de vida e morte, felicidade e desespero, ilustradas muitas vezes com um tom de nostalgia e saudade, o que só ajuda a contribuir para o assustador contraste entre cor e as trevas. Com a bateria a exaltar as ultimas badaladas e os “growls” a rasgarem as silhuetas de desespero, o álbum termina num zumbido ensurdecedor que prolonga o derramar das últimas manchas de sangue no terreno.

Depois deste monólito de som e eco, posso dizer que a banda deixou pouquíssimo a desejar. Boa produção, escrita original, melodias hipnotizantes em êxtase total. Dizer que este álbum pôs a banda no mapa é dizer pouco, até porque depois disto, as datas começaram a transbordar e até a notícia do contrato com a Relapse ajudou a entender que a banda está por fim a fazer justiça à visão que têm para dar. 3 anos depois, o grupo lança Chasms que, tal como mencionei no inicio do discurso, foi um lançamento algo discreto, sem muita divulgação e promoção. Até porque sendo uma banda que sigo avidamente, acho inquietante como é que lançamento tão aguardado e antecipado como este, recebe um tratamento destes. É algo, que com o envolvimento das redes sociais, se tem tornado cada vez frequente e propício, mas tem de haver reforço, há bandas que merecem.

Uma coisa admito: o fator surpresa foi importantíssimo, até porque não houve veneno da expetativa nem acumulação de antecipação. Não há nada que goste mais do que um álbum “surpresa”, se bem que não foi o caso, mas está lá perto.

Algo que notei imediatamente no som foi a transição de postura de um álbum para o outro. É difícil ignorar a dimensão com que o Chasms se apresenta. A entrar como uma explosão de sinos, a banda dá entrada à missa e passa pelo altar o cálice, distribuindo a melodia divagante em navegação pela fachada da catedral, acompanhado por uma voz de sermão cantado, grandiosidade complementada pela omnipresença das guitarras discretas, mas ao mesmo tempo efémero, mas memoráveis. Logo com a “Solar Chamber” nota-se uma concordância folgante entre melodia e peso, complementando para o falado ambiente de santuário. A faixa vai acumulando energia e atmosfera até um ponto que a atmosfera alcança o clímax e a bateria vai ganhando compasso e velocidade, a perspetiva torna-se mais elaborada e envolvida no congresso ritualístico. Com a entrada do “Chasms” ouvem-se violoncelos no fundo, como se o ambiente de igreja não fosse já evidente, temos agora um notável enredo de teatro, jogado lindamente entre as guitarras e as cordas acústicas. Sempre, constantemente entristecido, os mugidos graves propagam ao longo da arquitetura gótica da catedral, em temperamentos gélidos a combater as prósperas arcadas. A meio da faixa, o “growl” abundante dá asas a um ritmo acelerado e quase angélico martelado por uma melodia magnetizante de guitarras, quase que como a dar cor à janela celestial do extremo do templo, por fim erguendo os pilares colossais de um divino oficio pelo coro de vozes graves a cantar tão fluidamente, enquanto guiado por uma explosão de cor e textura:

“Loveless words burn so brightly
Insecurities bleed
I touch but can no longer feel “

Este foi sem dúvida o ponto alto do álbum. Ofegante vos digo: a música baixa o ritmo desde então e despede-se com uma ode de gritos moribundos e o violoncelo a pôr um ponto final na estrofe que iniciou, como que a colocal o último flanco de terra na sepultura.

Já atravessado o epicentro do álbum, encaminhamos para a “Mirage” que serve como ponte de consistência, algo que os Lycus costumam abordar, não só para não quebrar o ritmo, mas também para dar continuidade ao pulso e à escultura. De todas as músicas que os americanos já nos apresentaram, esta é capaz de ser a mais sofisticada que já ouvi, com uma postura muito recolhida, mas ainda assim evidenciada pela dualidade de guitarras e violoncelo. Uma progressão daquilo que se ouviu em “Chasms”, mas mais conservador, não tão dado ao refrão e à dimensão das ondas de choque. Não só deixa arrefecer um pouco o órgão da orquestra, como permite à melancolia estabilizar-se um bocado sem que esta se sature muito. Aproveitam a oportunidade para elevar os ângulos de Black Metal a um nível magistral, mas apesar disso, não deixa de ser por breves instantes.

Chegamos à “Obsidian Eyes”, a despedida, o adeus. Francamente foi a que menos me espantou. Os primeiros 5 minutos da música demonstraram um pouco da fluidez quase mecânica que a banda desenvolveu ao longo dos anos, uma continuidade extensiva de consistência apenas ao alcance dos mestres da velha guarda. Parecendo que não, é exigido uma quantidade de talento a uma banda para que esta consiga fazer soar 5 minutos de ritmo uniforme, sem que este pareça redundante e desinspirado. A banda consegui fazê-lo até ao minuto 9, a aguentar o ritmo, a aguardá-lo, como que a tentar suster a respiração debaixo de água, até que erga a cabeça e respira, fundo, bem fundo. A música ganhar uma vida nova, com uma perspetiva singularmente épica, emocional e imensa. Confesso que quase derramei uma lágrima, que por acaso, encaixa bastante bem com as palavras finais desta faixa:

“A tyrannous shyness envelops me
I gaze to the sky with obsidian eyes
In the crawl space I will always be
Nothing to bring me from my knees ”

Comparado com Tempest, nota-se uma imensidão de melhorias e desenvolvimentos. Dá para ver que cresceram com as experiências e dá para ver que o resultado é positivo. A faixa “Chasms” conquistou-me com o refrão a meio da música e é praticamente graças a ela que considero este um candidato ao TOP 10 álbuns do ano. Um bocado parcial, confesso-vos, mas esta banda não sabe fazer Doom mauzinho, portanto vão por mim, se gostarem de Ahab, Bell Witch, Hell e disEmbowlment, vão vibrar imenso com CHASMS.
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Lycus – Chasms
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