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Massive Attack - Eutopia

Review
Massive Attack Eutopia | 2020
Beatriz Fontes 26 de Julho, 2020
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Gaerea - Limbo

Bell Witch & Aerial Ruin - Stygian Bough Vol. 1
Um dos padrões do comportamento humano que vemos acontecer ao longo da História é o da importância crescente da arte em momentos de crise. No meio de acontecimentos críticos, os artistas inclinam-se para produzir arte que canaliza e examina emoções que naquele momento específico são compreendidas a grande escala, arte essa que se torna num dos registos de uma época onde grande parte da população mundial partilhava um problema em comum, mesmo que vivido por diferentes ângulos de experiência pessoal. Nestas mesmas situações, Homens das Letras ocupam-se a racionalizar as questões problemáticas que se fizerem impor e a desenhar respostas que, inevitavelmente, fazem parte de uma visão individual sobre aquele que seria o funcionamento ideal das coisas. Introduzem o esboço de um mundo ideal de forma a que inspire, liberte, ou, no mínimo, nos dê o conforto de um plano de fuga. É na junção destes dois contextos que aparece Eutopia.

Massive Attack fizeram nome com músicas possantes, com o distintivo de uma sonoridade muito concisa, sólida, que os fez ter um assento reservado no mundo da música eletrónica. Trailblazers que são, também são conhecidos por serem aqueles artistas que denunciam e abordam temas de política social polémicos, frequentemente desconfortáveis e muitas vezes fáceis de esquecer. É isto que os Massive Attack são: a sobreposição da dedicação diligente na composição, com a consciência social e a atenção virada para a vivência humana. Apesar disto, Eutopia parece ser um salto mais alto, um novo esforço nítido em transmitir uma mensagem, com o mesmo fervor que qualquer outro disco de Massive Attack transpira. Não é como se o grupo tivesse algum tipo de tendência para a repetição; antes tem algum vício não diagnosticado no recurso ao high-tech para reformar e reestruturar o seu som e a forma como fazem apresentar a sua música. O que acontece é que Eutopia é uma experiência auditiva diferente, não só por ser um EP obviamente encharcado pela habilidade dos habilidosos e não necessariamente pela forma como este se fez apresentar em termos de estrutura, mas pelo significado que ganha no tempo em que surge.

As visões de Robert Del Naja e Euan Dickinson sobrepuseram-se uma outra vez desde a sua última colaboração em Ritual Spirit, de 2016. Com eles, e com uma faixa reservada a cada um, estiveram Young Fathers, Algiers e Saul Williams. A isto se juntam os textos do Professor Gabriel Zucman, do Professor Guy Standing e de Christiana Figueres, antiga Secretária Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e anterior candidata ao cargo de Secretário-geral das Nações Unidas. Quanto aos estímulos trippy dos videoclipes, podemos agradecê-los a Mario Klingemann, artista alemão de arte digital e conceptual. Por falar em esforços coletivos, é precisamente por este motivo que, para a infelicidade de alguns, é provável que as faixas não venham a ser lançadas sem a leitura dos discursos – e é talvez por isto que também não as vamos encontrar no Spotify. Parece que este EP é para ser consumido tal como está. Por outras palavras: é a ligação entre a música, a retórica, o visual e as palavras escritas que está a permitir que a meta de impacto pela qual se decidiram seja atingida. Feito de outra forma, grande parte do seu significado esbate-se.

Todos os elementos deste projeto foram produzidos durante o período de quarentena, incluindo os ensaios, sendo que estes fazem expor questões de importância global, cuja urgência foi ignorada, cujas soluções foram adiadas ou que foram abordadas com demasiada leveza, problemas estes que, segundo os autores, viram na pandemia um catalisador do seu agravamento ou que, por causa da pandemia, se tornaram em feridas abertas nas quais não conseguimos deixar de reparar. Este EP aparece como resposta a esta crise e fala vibrante e abertamente sobre ela, fala no assunto que muitas vezes parece estar confinado à comunicação social e que a arte não abordou sem subtileza até agora.

Depois de quatro longos anos estamos novamente a ser cercados por aqueles sintetizadores e por aquele baixo áspero e poderoso. Passado o deslumbre de um novo projeto de Massive Attack, a nossa atenção é agarrada por um enchente de estímulos que estão a chegar todos ao mesmo tempo. Há um começo sereno, mas sombrio e delicado. Chega-nos a voz do narrador, com um toque de gravação de meados do século XX, e de seguida, num total colapso de emoção, entram as vozes harmonizadas de Alloysious Massaquoi, Kayus Bankole e Graham Hastings, inquietas, desconsoladas e penetrantes. Relembrando a última colaboração em Ritual Spirit, onde os nomes de Massive Attack e Young Fathers se fundiram pela primeira vez na mesma música, saberíamos de antemão que esta segunda colaboração seria tão punchy quanto “Voodoo in My Blood” foi em 2016, mas não tão impactante como chegou a ser. O que estamos a ver é uma transformação contínua de rostos que vai seguindo o ritmo e a intensidade da música. Com as vozes, entrou o piano, a tocar algumas das notas favoritas do piano de Massive Attack. Entre palmas de beats e a retórica no discurso – cujo ritmo, assim como acontece com as outras faixas, elogia a música –, há uma vulnerabilidade que nos é entregue por uma flutuação rítmica pouco natural. É-nos apresentada uma solução e o instrumental ganha velocidade e teclas mais dreamy. Em todas as três faixas deste EP, a música serve de atmosfera onde o discurso pode respirar, e para isso faz-se alinhar com o tom do discurso em si, pulsa com ele. Aqui, faz amplificar a angústia do tema e dá à solução sugerida o som de expectativa, o que faz desta música um hino à esperança global pela melhoria.

Depois, Algiers juntam-se a Massive Attack na segunda faixa – quem diria? Ensopada de percussão, com uma voz que aparece em ondas de feeling e beats fortíssimos, estão-nos agora a falar sobre responsabilidade pessoal e mudanças climáticas. O vídeo tem um arranjo semelhante ao anterior, desta vez com a imagem de três crânios humanos, colocados lado a lado, que se distorcem em glitches coloridos. O discurso que ouvimos é o de Christiana Figueres, que não tem tanto de reprovador, mas mais de motivante, enquanto fala nas consequências da inércia humana face à crise climática e nos incita a esforços coletivos resilientes o suficiente para mitigá-la. Entretanto, a música serve o propósito de um wake-up call volátil e festivo, feito de offbeats e onde a voz de Fisher se intromete em surtos eufóricos de energia. Se a faixa anterior foi essencialmente construída por teclas, nesta Massive e Algiers tornam-se profetas da percussão. É entusiasmante, latejante, espirituosa, complexa e inesperada.

Sobre o eco das teclas, a voz de Saul Williams soa nasalada e arrastada, e, de uma forma sinceramente estranha, funciona aqui na perfeição. O Prof. Gabriel Zucman fala de paraísos fiscais, com um tom tão severo quanto o assunto exige, e novamente a música segue essa emoção para procurar fortalecer um sentimento de indignação. Esta faixa puxa pela ideia de gravidade e de urgência, com uma percussão atordoante e beats sharp, o zumbir turbulento de um drone e a eclosão curta do delay magnetizante de três notas de guitarra, enquanto vemos a imagem do “novo mapa do reino da Caxemira” deformado em ondas e quase irreconhecível durante a maior parte do vídeo, que nos atira à cara uma outra aventura sensorial incrível.

Cada um dos vídeos termina com uma citação de Utopia de Thomas Moore, e talvez se possa assumir que Massive Attack tinham em mente um equivalente modernizado. Os vídeos têm vindo a ser gradualmente traduzidos para vários idiomas – neste momento existe uma versão italiana e uma versão alemã – e dá ares de que as traduções vão continuar. Com mais este esticão de esforço, percebemos que há uma necessidade clara em tornar este projeto e a sua mensagem o mais compreensível possível, e não vão ser barreiras linguísticas que vão atrapalhar isso. Qualquer tipo de experiência pode servir como um momento de instrospeção, e aquilo a que Robert Del Naja deu impulso foi um momento de reflexão coletiva. Fê-lo num espetáculo à distância com veia e fibra, a tocar na ferida com um projeto acessível, globalmente pertinente, expressivo e cheio de beleza, onde nos entregaram uma mensagem que talvez todos nós precisássemos de ouvir exatamente desta forma.
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