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Melvins - A Walk With Love & Death

Review
Melvins A Walk With Love & Death | 2017
Ana L. Marinho 28 de Dezembro, 2017
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SikTh - The Future In Whose Eyes
Sobre o estimável e prolífico acervo discográfico de Melvins ouvimos frequente e simultaneamente louvores e contestações a um suposto excesso. Uma artéria criativa e desafiadora move-os contra o acordo de regras e padrões definidos, e contra aquilo a quem os escuta muitas vezes urge e reivindica. Fruto dessa contínua experimentação e altivez, têm excitado amiúde fermentações violentas, seja por ocasião de novos lançamentos seja por uma impenetrável e ardilosa soberania da vontade. Com A Walk With Love & Death, lançado sob auspícios da Ipecac Recordings, Melvins, teimosos polemistas, mantêm de modo inveterado a controvérsia enquanto alimentam uma necessidade irresistível de criar.

Sem que seja tradução ou promessa de um projecto vasto ou complexo, este que é o 26º trabalho de estúdio em 34 anos de carreira, tem a novidade de ser o primeiro álbum duplo da banda. Escutamos, na verdade, dois registos absolutamente distintos, com pretensões e identidades diversas, cujo nexo acreditamos ser apenas o do objeto que os combina por mera oportunidade e economia.

O encontro de “Death” e “Love” num mesmo caminho, coloca, todavia, uma curiosidade pertinente, ao contrapor e expressar em cada uma das partes (e sem nos perdermos numa reflexão mais extensa sobre os antagónicos “consonância” e “dissonância”), os pulsos e travões criativos presentes no disco - o da inovação e o do proveito.  “Death”, primeira porção do álbum e jazigo de nove composições ditas “convencionais”, é lugar de prazeres imediatos ao ouvido e garantia de liquidez da banda. Representa um impulso de criação e experimentação mais contidos, que se libertam e excedem em “Love”.

As 14 faixas que compõem a segunda metade do disco dão licença a um desassombro de paisagens sonoras “aleatórias” instrumentalmente manipuladas que servirão de trilha sonora a uma curta-metragem dirigida por Jesse Nieminen, ainda por apresentar ao público. Sinteticamente descrita por Dale Crover (baterista) como mindfuck, esta que também será a primeira aventura cinematográfica do trio, realizada na mesma direcção do disco através de found footage, promete desfazer a mente do espectador como “Love” pretende desfazer a do ouvinte.

Um dicionário de palavras escolhidas não é um discurso, nem uma recolha de bons acordes uma peça de música”, dizia Rousseau. A ausência aparente de qualquer organização, harmonia ou cadência, desafia qualquer definição generosa, daquilo que se convenciona por Música como combinação harmoniosa dos elementos, e nem sempre o qualificativo universalizante “experimental” consegue abarcar livremente. E embora se ouçam intenções de seleção e ordenação dos recortes em trechos de maior musicalidade como “Give It To Me”, “Scooba” ou mesmo “Eat Yourself Out”, em “Love” o discurso é descosido.

Reunido com imagens talvez um diálogo se estabeleça. Por enquanto, “Aim High”, “Chicken Butt”, “Halfway to the Bakersfield Mall” ou “Pacoima Normal”, são, entre outras, peças soltas de um conjunto de manifestações sonoras desconexas e selvagens que desconfortam e produzem como que um atordoamento da sensibilidade e do juízo. Esses preferimos reservar para “Death”.

Em Walk With Love & Death a “morte” apraz e alivia. A sua pulsação subjacente e transversal a (quase) todo o álbum é leve mas marcada, com um valor rítmico e métrico “arrastado” e uma progressão relaxada. Disto exemplo, ouvimos na abertura com “Black Head”, cujo acompanhamento vagaroso, com longos acordes e numerosos silêncios, produz um ambiente de segredo e mistério. Uma composição cativante, onde o instrumental confidente e asseado contrasta o plano distante e fantasmagórico dos vocais. Um  thriller do qual não se deseja sair por um estranho apego à monotonia e balanço.

Nos riffs de “Sober-delic (acid only)” surgem os primeiros vestígios de desprendimento. Buzz Osborne não só conduz o crescente desenlace da guitarra como exibe o melhor momento lírico do álbum. O desempenho instrumental mais susceptível de afectar agradavelmente os ouvidos é ministrado por “Flaming Creature”, onde se consomem os planos instrumentais num simultâneo estado de entendimento. “Euthanasia” é, porém, a mais completa e equilibrada. Incluída há já algum tempo nos espectáculos ao vivo, em “Death” deram-lhe um arrumo próprio. Retiraram-lhe o ar clandestino e bastardo da versão original, gravada nos anos 90 para Dope-Guns-'N-Fucking In The Streets, e conservando a mesma textura e grão, acertaram-lhe a fluidez de três décadas de maturidade.

Somam-se duas prestações espontâneas do colectivo em “Christ Hammer” e “Cactus Party”, onde a naturalidade com que Teri Gender Bender empresta a voz, nos lembra o quanto ela lhes é íntima no espírito e no génio.

Antes do remate que se faz com “Carboa Negro” (que é de resto um dos temas mais bem conseguidos), há bagagem para um par de temas um pouco menos estimulantes com o ritmo enxuto de “Edgar the Elephant” e, sobretudo, o carácter absolutamente destoante de “What’s Wrong With You”. Obedecendo à especificação de hinos rebeldes, Steve McDonald (baixo) não esconde as influências e as raízes destrutivas de Redd Kross. Destacando-se pela impropriedade, este tema quebra aquele que seria, não o melhor nem sequer brilhante, mas um dos álbuns mais firmes e coesos dos últimos anos.

Decepcione-se quem, na fantasia, julga que indivíduos de tal modo capazes devam pôr-nos a cabeça nas nuvens, e deslumbrar a vida toda, toda a gente. Ninguém, nem mesmo Melvins, especialmente com a sua extensa discografia, consegue criar exclusivamente obras-mestras. Grande parte do seu legado, sobretudo o mais recente, é produto da fruição e sobrevivência. Ainda assim, poucos são os que possuem um resultado tão expressivo e genuíno na relação entre quantidade e qualidade.

 

Nota: Este autor usa o Antigo Acordo Ortográfico.
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