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Mount Eerie - A Crow Looked at Me

Review
Mount Eerie A Crow Looked at Me | 2017
José Martins 02 de Maio, 2017
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Full Of Hell - Trumpeting Ecstasy

Sampha - Process


 

Mount Eerie, projeto musical do multitalentoso Phil Elverum, apresentou recentemente o seu oitavo álbum, A Crow Looked at Me. Mount Eerie, cujo nome foi retirado da região onde o próprio Phil Elverum vive em Washington, nasceu em 2004 depois de Elverum ter posto um fim ao seu projeto anterior, The Microphones. Elverum, ou Elvrum (maneira como começou a escrever o seu último nome a partir de 2003), talvez mais conhecido pelo seu projeto prévio, chega com este LP depois de um ano de silêncio, tendo apenas em 2015, também sobre o nome de Mount Eerie, lançado um duplo álbum intitulado Sauna.

A Crow Looked at Me, totalmente composto e produzido por Elverum, lançado pela sua própria editora, P.W. Elverum & Sun, é apresentado meses depois da mulher do próprio, Geneviève Castrée, ter falecido após uma longa luta com o cancro. Sendo o álbum, composto por onze tracks, totalmente acerca da morte de Castrée. Falecimento este que foi tornado bastante público através dos pedidos que ambos fizeram a seus fãs para pagar as despesas médicas de Castrée. Apesar de os pedidos terem sido muito bem respondidos, tendo sido ultrapassado o objetivo monetário inicial após milhares de doações, Geneviève Castrée acabou mesmo por não resistir à doença, falecendo no dia 6 de julho de 2016.

Ninguém esperava que Phil Elverum tivesse um álbum preparado, mas a verdade é que no dia 5 de janeiro de 2017, Elverum anunciou que ia “reentrar no mundo”, lançar um álbum e voltar a dar concertos, algo que já não fazia desde setembro de 2014. O primeiro single do LP, "Real Death", foi lançado no mesmo mês, sendo o segundo, “Ravens”, lançado um mês depois. Ambos receberam tremenda aclamação por parte do público, merecendo até comparações a músicas lançadas recentemente por David Bowie e Sujfan Stevens, sendo que todas elas retratam a perda de alguém, encarando a morte nos olhos de forma pessoal.

Ao longo de 41 minutos, Phil Elverum entrega-nos um dos álbuns mais honestos, poéticos, pessoais e simplesmente sublimes, sobre a tristeza e a dor que é perder um ente querido, uma companheira de todos os momentos, a mãe da filha, o amor da sua vida. Servindo o álbum, não para entreter o ouvinte como a maior parte dos álbuns produzidos, mas para sentir com Elverum a experiência extremamente dolorosa pela qual ele está a passar.

Sendo assim um álbum difícil de ouvir, difícil de digerir, mas muito fácil de sentir e compreender devido à forma crua, dura e pessoal que Elverum nos conta o que lhe vai no coração: o quão despedaçado e solitário está, o quanto a sua vida parece já não fazer sentido, e essencialmente, o quão incuravelmente triste se sente falhando-lhe mesmo as forças necessárias para seguir em frente com a sua vida “My knees fail / My brain fails / Words fail”.

A forma como Elverum entrega por vezes os mais simples, mas ao mesmo tempo os mais devastadores versos é nada menos que espantoso. Seja o ouvinte conhecedor do antigo trabalho dele ou não, a maneira como ele se abre em cada track, por mais tenebroso que seja, em todas as palavras conseguimos sentir o que ele está a sentir, conseguimos criar uma enorme empatia, querendo apenas que ele fique melhor, que ultrapasse esta fase e siga em frente.

Acontecendo também neste álbum algo que também acontece em todos os álbuns que Elverum escreve, as palavras são o centro, a narrativa é onde está a beleza, e neste caso, a dor. Podendo por vezes parecer que cada track é uma página de um diário de autoajuda, narrando assim a vida de Elverum depois do falecimento, relatando meras atividades domésticas, normais e comuns a todo o mundo, mas que agora também lhe trazem mágoa simplesmente pelo facto de a sua esposa já não estar com ele. Assim como notórias menções à relação entre ele e sua filha como na track “Swims”, onde a sua filha o questiona se a sua “mamã” nada (swims), tornando o facto de que as cinzas de Castrée foram espalhadas pelo oceano muito relevante e profundamente arrebatador. Não faltando também referencias relacionadas com a Natureza, assim como na track “Ravens” e “Forest Fire”, algo que Elverum nos tem acostumado ao longo deste seu projeto.

Sem deixar de dar valor à complementação instrumental que cada música tem, pois, apesar de simples e por vezes propositadamente escondida por detrás de palavras incrivelmente penosas, ajudam a fazer do álbum uma experiência mais intimista e mais sentimental, contribuindo também para marcar o ritmo da narrativa e do álbum. Sendo claramente a parte do álbum menos “pensada”, menos elaborada, mas ainda assim contendo a sua importância.

O que dá a este álbum o caráter que tem, o sentimento que tem, é o facto de Phil Elverum o ter composto tão próximo do falecimento da sua mulher, não deixando que a sua mágoa seja nem minimamente digerida, mas sim pondo em papel todo o processo pelo qual está a passar. Deste modo obriga o ouvinte a viver com Elverum o mesmo decurso pelo qual ele está a passar, sentir a mesma dor, solidão e infelicidade que ele.

Conseguindo ser, por um lado sendo um lindíssimo tributo a Geneviève Castrée e a todos os momentos que passou com ela, chegando até a referir futuros planos que tinham juntos, e por outro lado uma ferramenta para se expressar, lidar com os sentimentos e enfrentar a realidade que parece tudo menos tolerável e feliz.

Concluindo, Phil Elverum consegue de forma esplêndida compor um álbum que não é só belo, tanto na sua lírica como na sua instrumentação, mas também incrivelmente angustiante. Ninguém quer passar por aquilo que Elverum está a passar. Mas ao ouvi-lo é exatamente isso que sentimos, porque é exatamente isso que ele transmite, da forma mais assustadoramente real possível. A Crow Looked at Me pode ser comparado a um funeral, um funeral lindo na sua escuridão, pavoroso, excruciante e que nos faz refletir sobre a nossa própria mortalidade, e especialmente, a mortalidade daqueles que mais amamos. Uma experiência sombria que esperamos nunca ter que passar, mas que infelizmente é real.
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