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Nails – You’ll Never Be One of Us

Nails

You’ll Never Be One of Us | 2016

PONTUAÇÃO:

8.8

 

 

 

Nunca o ditado “let the music speak for itself” se aplicou tão bem numa banda como nos americanos Nails. Estes têm-se preservado na estima dos fãs de death metal e grind sem grande dificuldade, mas nem sempre foi assim, e o que faz disto tão estranho e inequívoco é que não aparentam esforçar-se para encaixar num determinado perfil ou uma aparência específica. Isto é, vivem e escrevem de acordo com aquilo que encaram, vivendo literalmente da filosofia “sem merdas”. Com um inicio muito verde, mas afirmativo e crucial, ainda havia muito que provar da parte do trio americano. Unsilent Death que surgiu como uma explosão, deu ao público maioritariamente hardcore/punk uma solução bastante fidedigna ao ressurgimento do grind/death nestes últimos anos. Uma solução que legitimizava as raízes punk nos estilos mais extremos e urgentes no metal. Correria de aço, banhado em dureza e caos, músicas de um minuto e tal, e inspirado nas estruturas sanguinárias em Need to Control dos Brutal Truth, Utopia Banished dos Napalm Death e Drop Dead dos Siege. Letras maioritariamente anticonformistas e niilistas, o grupo conseguiu muito carinho por fornecer algumas das músicas mais compulsivamente destrutivas desta última geração de bandas. Verdade é que, mesmo sem grande prova dada, já a partilhar palcos com veteranos e bandas irmãs na cena hardcore americana, o grupo mostrava muito potencial, e sendo que o álbum de estreia tinha agressividade excessiva e poucas transições interessantes para o aprofundar, notou-se muito espaço para evoluir, tanto em termos de escrita como em termos de produção.

Agarrados pelo Stephen O’ Malley ( Sunn O))) ) da Southern Lord, este conseguiu aproveitar a banda numa altura em que a editora já contava com lançamentos de sucesso de Xibalba, Baptists, The Secret, Torch Runner, Power Trip, Black Breath, All Pigs Must Die, tudo no mesmo ano. 2013 acabou por ser o ano da editora por todas estas razões e ainda mais pelo lançamento de Abandon All Life de Nails. Um registo que dava à banda uma imensidão de justiça por tudo aquilo que faltava em grande quantidade no lançamento de estreia dos americanos. Uma produção muito mais profunda, detalhada e impulsionada a jogar a favor da estrutura e eficiência, muito a crédito de Kurt Ballou, ajudou a banda a estabelecer uma linha de raciocínio para muitos fatal na execução. O resultado final mostrou ser um dos álbuns do ano para muitos dos críticos e fãs do estilo.

Uma fórmula química que conta com aproximadamente vinte minutos, dez faixas, uma capa de envolver as tripas num enxaguamento de ácido, tudo que pudesse jogar a favor de este ser um lançamento de sucesso, foi conseguido. Um inicio trepidante, confuso, mas eficiente, dava a “In Exodus” uma introdução mais do que justa a um percurso que se mostraria muito ingrato ao corpo humano. A ultrapassar o minuto, a primeira faixa descarga uma pesada martelada nas alas da cabeça, blast-beats a toda a velocidade, uma vocalização castigadora e guitarras a perpetuar a herança da afinação sueca do death metal, nos anos 90, de Gotemburgo: combinação melhor é impossível. Sem melodia, mas com frequentes progressões interessantíssimas em cada faixa, o álbum nunca perde a afinidade com as influências da velha guarda sem nunca se deixar cair na redundancia. Inúmeros pontos altos ao longo das músicas, os breakdowns mostram-se presentes para marcar transição e mudar velocidades, como na “Tyrant” onde a música desfigura um formato regular com intervalos de bateria e breakdowns de hardcore, ou como na “God’s Cold Hands” que quase alcança os dois minutos faz das longas passagens entre refrões uma chave para a memória e permanência do d-beat e crust/punk onde este nos leva ao ponto de quebra e transita para um escavamento brutal que transpira a slam e beatdown. Promove o ritmo até o duplo pedal surgir de novo e a partir daí, não há corpo que aguente.

Até este ponto, pode parecer muito exagerado, mas Nails souberam quando intervir e mudar as formas da bateria e o envolvimento das guitarras nesta. A intervalar e baixar as mãos nos momentos certos, faz com que este álbum seja o mais bem calculado possível. Meticulosamente estudado e polido, as arestas tornam-se afiadas e a quase excessiva qualidade na produção acaba por jogar a favor da ferocidade animalesca do álbum. “Abandon All Life” e “No Surrender” adotam a atitude do punk com uma expansividade raríssima de sublinhar no metal presente, um som que só vai adquirindo relevo e dimensão com o compasso e ritmo deste último, muito à semelhança de uma doença maligna, alastra, consome, alastra ainda mais rápido, sem precedentes. A faixa “Suum Cuique” que serviu de ponto final no registo, não foi a faixa mais referida por parte dos críticos, mas merece tanto ou mais louvor quanto o restante álbum. Mas sendo um álbum que prolonga uma despedida até aos cinco minutos e meio, esta ganha uma estrutura muito mais complexa e versátil, cuspindo e suspirando perpetuidade, adota passagens extensivas de ritmos mais lentos e massacrantes, densifica o peso e pulveriza uma despedida que traduziu a genuína qualidade deste registo.

Um álbum destes, em que as influências ditam o som e não a execução, ao contrário do Unsilent Death, permitiu à banda adquirir uma margem de evolução ensurdecedora, que através dos inúmeros highlights se demonstrou inigualável.

Três anos passaram desde então e o registo nunca desceu de consideração, nunca saturou e acima de tudo, nunca normalizou. É a qualidade de produção, execução da banda e autenticidade da escrita que faz deste álbum, um com pouco espaço para respirar e esquecer. É uma marca que fica.

Inúmeras digressões e datas ao lado de aclamados veteranos como Dying Fetus, Misery Index, Deceased, Terror, Exodus, Godflesh, Tragedy, permitiu à banda estabelecer-se cada vez mais dentro do espectro do metal americano. Algo que deu ao grupo um acesso muito mais amplo a um público fiel ao som e atitude que lhes guiou o caminho até à Nuclear Blast Records, casa de colossos como Meshuggah, Soilwork, Amorphis, Dimmu Borgir, In Flames, Dismember e muitas outras influentes atuações da Europa. Faz-se justiça quando se coloca Nails numa editora que foi responsável por grande parte dos lançamentos que influenciara a banda durante o seu crescimento. Sucesso é garantido.

Mais quatro minutos do que o Abandon All Life, este lançamento toma proveito do tempo em escrita, digressão e reflexão, tudo a contribuir para o crescimento musical e pessoal como banda. “You’ll Never Be One Of Us” é à partida um lançamento muito mais maduro por parte dos Nails, um álbum que adota uma escrita profundamente mais complexa e que se mostra mais determinada a deixar uma impressão do que exigir uma reação. Paralelo com o anterior, este ainda tem o núcleo intacto daquela que é a ética pessoal da banda “Let the music speak for itself”, tomando até em conta que nas músicas é dita muita coisa. Deixando já as temáticas apocalípticas e traumáticas, as letras começam a focar-se muito mais sobre algumas das valências nos movimentos do underground americano.

“Fuck your trends, fuck your friends
Fuck your groupies that try to pretend that you’re down
You’re fucking not
Nobody wants what you’ve fucking got”

Críticas a atitudes temporárias e arrogâncias mal fundamentadas. Posturas de infantilidade e afirmações de gabarolas. É evidente de que lado a banda se coloca.

“This is not for you to claim
We are not the same”

A sonoridade, a estética, a infraestrutura permanece inabalável e igualmente temível. Power violence a transfusar sangue entre grind e death, com uma deliberação mais refletida e calculada, não tão emergente e caótica. Apesar disto, as músicas reforçam os elos de ligação entre progressões desmedidamente expansivas e libertações caóticas com uso armado de riffs carniceiros e bateria de espingarda. Cada batida serve de um estrondo abalador que é capaz de deixar o ouvinte sem possibilidade de defesa.  Com um duplo pedal relativamente mais destacado, a banda aproveita muitas das paragens coletivas para fazer soar a pulsação rítmica da bateria, definir o ritmo e velocidade, para arrancar de novo. Pode-se até dizer que neste álbum, a bateria é o maestro responsável pelos sintomas de ataque. O vocal absoluto exerce sistemáticas incisões ao longo do escalpe. Esfola, corta, escoria e impala. Impiedoso.

Muitas vezes impulsionadas pela voz, as guitarras usam maquinarias de distorção demolidora, aplanam tudo o que à frente surge. Casos do arranque do refrão na primeira faixa, em que a distorção abraça geometrias complexas, mas eficientes, claras influências de Sepultura e Exodus, sem dificuldades em infligir a maior das tareias mentais possivelmente imagináveis. A inclinação para o thrash só se deixa notar ainda mais no inicio da “Made to Make you Fall”, a mergulhar o duplo pedal num banho de sangue à Slayer, machadadas a relembrar Reign in Blood e Seasons in the Abyss, ainda com o indispensável tremolo a fechar os 56 segundos de inflexível investida. “Life is a Death Sentence” prontifica-se a aprofundar a ferida com mais daquilo que todos adoram em Nails. Velocidade imprudente, violência literal, transmite-se de corpo a corpo, incrivelmente doloroso, mas não basta ouvir uma vez.

“Violence is Forever” é inequivocamente a malha do álbum. Uma escrita que serve de tributo ao death metal sueco. A começar latejante, pausado, progressivamente emergente, o ritmo surge cada vez mais presente, até que arranca e consagra o peso, estabilizado e focado, quase que mecanicamente triturar carne e osso, deixa-se deter e como uma escavadora impulsiona uma notável cavidade no peito, lento e agudo insiste na ferida, roda o punho e empurra-o. Os danos são incalculáveis e o resultado final é o mais memorável de todos. O breakdown a um minuto do fim sublinha a inteligência da banda perante uma música que traz de tudo para a mesa. Ouve-se o choro das guitarras e o tremolo a empenar o aço, e assim se fica com uma noção da eficiência deste lançamento.

A “Savage Intolerance” mantém a fasquia bem alta, mas o ritmo reparte-se ao longo das três penúltimas faixas, portanto a agressividade geral torna-se diluída, mas a técnica de transição está cada vez mais apurada e desenvolvida. Ao longo do álbum, é evidente o uso intensivo de uma estrutura simples e eficaz, mesmo com uma base padrão consistente, as pinturas finais nunca são iguais, e é isso que torna “You’ll Never be One of Us” um álbum tão divertido de se ouvir.

Última faixa, a guilhotina francesa “They Come Crawling Back”. Oito surpreendentemente intensos minutos. À semelhança do fecho do álbum anterior, este também começa lentamente, com a pulsação surgir, a circular cada vez mais rápido, cordas a soar como lixa ao longo do corpo, o pedal duplo a martelar a campa de cimento, e a música estabiliza. Inquestionavelmente complexa e intrínseca, esta é uma música que se mostra impossível de desintegrar e traduzir. É imprudente por natureza, sem nenhum objetivo conformado, nem uma forma geométrica suscetível, a música estende este tempo todo com inconstantes alterações de ritmo e imagem de fundo. Sem breakdowns e sem progressões, e com um final evidente inspirado em Obituary, com a lenta e insistente bateria a acompanhar o chiar das cordas e com um riff cavernoso e monocromático, morto apenas. Submissos a eles próprios, esta faixa mostra uma conclusão, um final feliz para aqueles que tiveram o que queriam que este álbum fosse.

You’ll Never Be One of Us é um predador. Não encontra remorso na sua natureza visceral e animalesca. Uma ode digna de ser ouvida, e tal como o seu predecessor relembrada. Apesar de todos os impasses pessoais na vida dos membros da banda, nada contraria a indiscutível qualidade deste álbum. Musicalmente, é enriquecedor, mas colocando todo o valor artístico da obra de lado, isto é um verdadeiro monstro.

Não há iguais a este.

 

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Por João "Mislow" Almeida / 22 Setembro, 2016

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