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Nick Cave and the Bad Seeds - Ghosteen

Review
Nick Cave and the Bad Seeds Ghosteen | 2019
Catarina Nascimento 16 de Outubro, 2019
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Big Thief - Two Hands

DIIV - Deceiver
Morte. Uma palavra que por si só traz o silêncio, o peso, o sufoco e a vontade de evitá-la a todo o custo. Felizmente – e falemos sobre isso mais tarde –, há alguém que queira falar sobre ela. Dar parte do antidoto que traga mais conforto num momento em que ele não existe. Torná-la mais pequena. O mais recente álbum de Nick Cave and the Bad Seeds é uma ode à incapaz capacidade de superar uma dor tão inabalável como a morte de um ente querido. Uma temática nada estranha à banda de Skeleton Tree (que já suspirava esses lamentos), mas que aqui ganha um terreno fértil para colher uma alcançável redenção. Esta é a obra mais avassaladora que Cave já escreveu, mais pessoal e um tanto ou quanto alucinogénia. Ghosteen surge como um lugar paradisíaco, onde vamos depois desta versão limitada na terra. Os bons vão mais cedo. Ou lá como é a expressão. No caso do vocalista dono do dom da verdade, foi o seu filho Arthur há quatro ano atrás. E talvez ele esteja nesse mundo de Ghosteen ou talvez seja esse o nome atribuído a ele próprio, à espera do reencontro. Pelo menos, Cave imagina-o entre essas figuras míticas, porque parte do segredo é pensar que essa pessoa ainda lá está, naquele lugar, onde não podemos chegar ainda sem saber muito bem porquê, mas isso demarca a sua existência e facilita a memória enquanto ano passa após ano.

Dividido em duas partes, o 14.º álbum de originais principia num tom leve, fantasiado por essa alegria que disfarça a dor. Afinal, (sor)rir é o melhor remédio. Ou será máscara? Nas suas letras certamente não o é. Apesar de melodias aparentemente joviais, existe uma inconstância e inconsistência próprias nas harmonias para causar um sentimento desconcertante. Tal como o caminho a percorrer em busca da aceitação. Com palavras tão certeiras, é propício que estas sejam levadas num carrossel inconstante, mas agraciado de luzes animadoras. Cave diz, sussurra e até mesmo fala para nós e para Arthur. Mas nós também temos versões de Arthurs com quem falar – e por quem esperar.

A primeira “Spinning Song” relembra a morte de Elvis, ou de uma figura representativa de Elvis. Quase que como começar num conceito de morte conhecida pelo público geral e tentar transportá-la para um conceito pessoal. É essa figura que nos possibilita falar sobre o lugar para onde vamos. Tal como no som de fundo que nos leva em espiral por esta estória, quase que entramos no tornado do feiticeiro de Oz, só que para uma realidade pesada com a faceta da vida normal – “a ouvir música sentado na cozinha” – e é este o nosso papel ao ouvir este álbum.  “Bright Horses” é a derradeira balada inicial, e nela somos introduzidos à fantasia de Ghosteen, num mundo “silencioso”, de mão dada a uma “mão que queima” de saudade, um coro que aparenta dar as boas vindas a este universo de almas perdidas, mas em paz. E que balada tão esperançosa, atribuindo a este after life o que não se encontra nesta vida e que se pode ver na capa kitsch realizada por Tom duBois. A orquestra soa de forma angelical e as palavras de Cave são um abraço. “Waiting for You” é o clímax da segunda canção, quase uma continuação deste desejo de criar um conforto aterrador ao relembrar tempos onde a dor parecia um nome desconhecido.

A acompanhar Skeleton Tree e Push The Sky Away, Ghosteen tem os mesmos tons, mas permite o desabafo mais nu, como os que acontecem em “Night Raid” e “Sun Forest”. Numa entrevista, Cave admitiu que “esta dor permitiu-lhe ver e ter o profundo conhecimento das pessoas e do seu sofrimento”. E esta relação está visível aqui. Pessoal e íntimo como nunca, Cave sussurra-nos os segredos do universo, como se tudo não passasse de uma compreensão do nosso propósito. Temas como religião aparecem em representações do apocalipse e do caos, antes de se encontrar no refúgio de um milagre que há de acontecer.

Não é um álbum fácil de digerir, nem curto. Exige de nós a aceitação de que será algo difícil, mas que vale a pena. Algo falado em “Galleon Ship”, em que o amor aparece como algo que podemos ansiar, mas que sabemos que nos irá trazer dor. “Ghosteen Speaks” tem um som transcendente e desorientador, mesmo no momento em que estamos a encontrar o foco, a banda de Cave troca-nos as voltas.

Ghosteen é “um espírito migratório”, como descreveu no seu anúncio oficial do lançamento do disco (apenas uma semana antes de termos acesso a ele), e como tal ser fantasmagórico, vai aparecendo de surpresa em pequenos versos demarcando a sua presença ao lado de Cave. “I am here beside you”, reconforta neste momento de vazio e ausência de noção de pertença.

A colaboração com Warren Ellis, mais conhecido por acompanhar Nick Cave na elaboração de bandas sonoras, entra aqui como uma narração pura de tudo o que vivenciámos até agora na música homónima ao disco. A segunda parte do álbum, também chamada por Cave de “os pais”, começa assim numa construção musical da mais elevada beleza para também nós nos rendermos à reflexão. Isto de se falar sobre este tema – e aqui entra a importância do falar – tem esse objetivo de proporcionar pensar nela.

“Fireflies” é das mais emocionantes. “Jesus lying in his mothers’ arms” – talvez a representação comum de mágoa e luto – é aqui reduzido a algo minúsculo. Visto de um ponto de vista cósmico, o nosso sentimento é quase insignificante. Fazer este exercício de relatividade pode motivar a uma visão menos tenebrosa, inserindo-nos no universo e encurtando o nosso tamanho na equação da existência.

A última, “Hollywood”, relembra um conto do Budismo, em que Kisa tem de aceitar a morte do filho. Chega aqui o momento crucial do disco: a morte é universal e todos perdem alguém. Talvez a resposta esteja em reconfortarmo-nos uns aos outros e conseguirmos procurar aceitação, juntos, na única certeza da vida.

Neste momento, não há um álbum como Ghosteen. Sublime, pesaroso, pacífico e de luto. Uma falta de ar seguida de catarse. E há beleza aqui. Seguimos lado a lado com Cave, audição após audição, desejando que ele chegue perto de encontrar consolo em tudo isto.
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