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Nothing - Tired of Tomorrow

Review
Nothing Tired of Tomorrow | 2016
João "Mislow" Almeida 14 de Junho, 2016
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Anderson .Paak - Malibu

PJ Harvey – The Hope Six Demolition Project
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Passei uma noite de merda no domingo e só penso em estancar a minha cabeça destas ideias apodrecidas de tristeza e insatisfação. Um remédio que me tem feito um bem tremendo ao corpo, para além do Nolotil, Ursofalk e Voltaren, tem sido este álbum. O seu antecessor, Guilty Of Everything, criou em mim um atrito impossível de contrariar na altura que foi lançado. Nunca fui de recair no hype do momento e ver pessoas a dar louvor a um álbum que ainda nada provou, musicalmente e de escrita, fez-me muita confusão por uma série de razões. No entanto, não o odiei. Ainda hoje não me apaixonei por ele, e dificilmente me convencerá a entregar-lhe toda e incondicional atenção. Posso até dizer que o timing da altura se calhar não foi o melhor, mas apesar disso, agora que já consegui contextualizar a origem da música da banda, consigo ver com mais clareza as nódoas de sangue diluído por soluções de medicamentos mal prescritos. E tendo em conta este passado, consigo ter mais sucesso em tentar compreender estas melodias a três palmos do fundo da maré e da cavernosa distorção que nos relembra constantemente as épocas iniciais dos Nirvana e dos Placebo, cuja estranha dose de rock alternativo misturado com Emo/Grunge nos inflige à memória um golpe que nos relembra que não somos os únicos a passar por merdas negativas na vida.

O fundador da banda Dominic Palermo já tem descrito uma pequena parte da sua adolescência na cena Hardcore Punk de Philadelphia, uma cidade frequentemente reconhecida como um dos sítios mais degradantes da América do séc. XXI, cuja tendência juvenil para o crime e consumo de droga se torna cada vez mais vincado na juventude cujos potenciais são limitados com a persistente segregação económica e social do sistema dos Estados Unidos. Uma cidade, sendo reconhecida pelos frequentes abates de ânimo e dias cinzentos, já deixou a sua marca em Palermo da mesma maneira que este deixou à cidade. É um ciclo vicioso e a única maneira de o lutar é de dar o último soco. Faço 21 anos daqui a umas semanas e foi com esta idade que o jovem Dominic já se encontrava sentenciado a 2 anos de cadeia em resposta a um esfaqueamento, servindo como golpe agravado e tentativa de homicídio, este acabou por colocar um ponto final na sua juventude.

Durante este período na prisão, Palermo dedicou-se à escrita e até chegou a escrever letras que muito mais tarde seriam utilizadas no lançamento de estreia com a Relapse Recs. Depois de cumprir a sentença começa o processo de produção para um projeto designado por “Nothing”. Escreve umas músicas sozinho e eventualmente forma um projeto sólido e coeso com uma banda completa. Nos primeiros 2 anos, o grupo lança cerca de 3 EPs em 3 editoras diferentes: Like Glue, Big Love e A389 Records, até que em 2013 assinam contrato com a Relapse Recs. e pouco tempo depois lançam o primeiro single do álbum de estreia. Em 2014, lançam Guilty of Everything que passou grande parte do ano a ocupar tabelas e tops de vendas, algo que mereceu uma atenção mais carinhosa por parte da editora e dos instantâneos adeptos que a música ajudou a ganhar. Isto tudo permitiu à banda um longo tempo de exposição e atenção ao álbum, algo que grande parte das bandas hoje em dia luta para alcançar. Um privilégio que nem todos os artistas se podem dar ao luxo de possuir, portanto é bom que quem o tenha, o consiga utilizar com boa personalidade e postura. Algo que não tem vacilado no grupo americano, mas que aparentemente tem faltado e muito à banda gémea dos Nothing: os Whirr.

Tendo já feito um split e inúmeras datas em co-headline, é estranho e constrangedor o quão distorcida está a linha que separa as diferentes posturas e atitudes das duas bandas. E quem já se apercebeu dos discursos, já dificilmente consegue levar Whirr a sério, algo que a banda só conseguiu por mérito próprio. Isto para chegar à conclusão que conseguimos levar Nothing a sério porque são uma banda a sério, agem e discursam como indivíduos plenamente conscientes do poder que têm obtido ao longo do tempo, da exposição que vem com este e a influência que as coisas negativas e positivas possam ter para com as pessoas que os seguem. É mais importante isto para as bandas pequenas do que para as grandes, até porque a aproximação com quem as apoia é muito maior. Há que dar mérito aos Nothing por conseguirem ser uma banda decente ao lado de muitas outras com atitudes deploráveis e cuja atenção de qualidade negativa só lhes dita uma reputação de merda.

Todos nós sabemos que ser edgy em pleno século XXI só funciona se não te conseguires levar a sério, porque caso contrário, és tudo o que há de mal neste mundo.

Deixando esta temática de parte, vamo-nos focar naquilo a que isto se trata, Tired of Tomorrow. Como disse mais acima, por opinião própria, e prefiro deixar claro que é uma questão plenamente subjetiva, não me consegui entregar ao Guilty Of Everything, por uma série de razões que provavelmente justificam o porquê de tanta gente ter adorado o registo. Um protótipo muito fundamentado por argumentos de Shoegaze a la anos 90, muitas vezes a relembrar grupos como My Bloody Valentine, Slowdive e Ride, que para quem adora e revisita frequentemente estes grupos, haverá de ser ainda mais fácil gostar daquilo que os Nothing nos deram com este registo, mas tenho dificuldade em interpretar a situação dessa forma. Faço a leitura desta maneira: se aquelas 3 bandas já o fizeram, com a mesma fórmula de químicos e influências, porque haverei eu de me render mais aos Nothing do que a elas? Não quero soar pretensioso, mas verdade é que Guilty of Everything não nos deu nada de novo nem tão pouco se mostrou como uma lufada de ar fresco, pelo menos para mim! Mais uma vez reforço que as razões pelas quais o público ficou convencido com o álbum são as mesmas pelas quais eu o achei indiferente. No fundo, é puramente subjetivo.

Apesar de não me ter identificado com o álbum, consigo simpatizar com o que a banda faz e o caminho que esta assume. Datas mais datas e mais datas é meio caminhado andado para reconhecer o que uma banda quer realmente fazer, e no caso dos americanos isso é tocar!

Dois anos, depois de inúmeras datas nos Estados Unidos e digressões europeias, a convencer ainda mais o público de que a qualidade ao vivo é capaz de ser maior do que em estúdio, o grupo renova contrato com a Relapse e lança Tired of Tomorrow. À partida, com a primeira audição, fiquei rapidamente rendido. E por esta altura já é difícil não ser suspeito por todas as coisas positivas que eles têm feito, mas digo isto com toda a sinceridade e honesta opinião, adoro o álbum e estou rendido.

Assim o disse logo após a faixa de abertura, “Fever Queen”. Já sem merdas e medos, a banda atira-se de cabeça para um mar de melodia e cores. A voz praticamente ao mesmo nível, senão mais alta até que as guitarras, podendo denotar-se ao longo do álbum uma entrega digna de destaque por parte da vocalização. A faixa é guiada por uma pulsação de pratos que numa questão de 40 segundos dá à música uma rápida acumulação de energia e tensão, muito repentinamente cortada pela tarola que dá licença ao som para este descair numa profunda e fortíssima calma e serenidade, claramente reforçada pela belíssima prestação das vozes que, numa sinergia quase simbiótica, entra em junção com as guitarras num potente jogo de cor e textura. A este ponto já apetece recomeçar de novo e relembrar aquela entrada brutíssima de sensações, como que quando o ferribote parte e consegue-se sentir não uma série de lufadas de ar fresco ritmicamente pausadas, mas sim uma ininterrupta massa de ar empurrada na nossa direção ao longo da maré. Não sei se é por morar mesmo ao pé do Rio Sado, mas sem dúvida que esta entrada me deu à memória um flashback nostálgico das viagens marítimas a Troia nos verãos sadinos.  As guitarras estabilizam e ao mesmo tempo que a bateria molda a voz e a melodia, a faixa ganha um perfil completamente fortificado e imerso numa onda de choque que permanece na continuidade da música até que esta cessa e desvanece da mesma forma que surgiu. Conquistado logo na primeira faixa, não tenho dúvidas que estou apaixonado.

Ansioso pelo próximo capítulo, sigo com pouco tempo de intervalo para a “The Dead are Dumb” que numa breve introdução de cordas cristalinas larga a âncora e deixa a batida guiar a direção do som que estranhamente se torna cada vez mais familiar, como que algo que já conheço e entendo há muito tempo. Depois de dois compassos, as guitarras soam-se e a densidade aumenta mais uma vez, a voz entra com o ritmo, a escrever duma forma percetivelmente submissa e enfraquecida as palavras:

“Always try to keep up, Always fall behind, Belly pains, And headaches, Inside you”

Um fôlego e com o refrão vem um peso de alma imensurável, claramente a referente ao suicídio e à depressão, a melodia reconhecivelmente inspirada nos nevoeiros de madrugada à beira da ponte mais distante da nossa casa, com delicadeza dita:

“Isn’t it quite the same, And isn’t it such a shame, Too heavy for the lightness, But weightless in the rain, All our words are wasted”

E aqui me rendo à qualidade de entrega e execução. O caminho repete-se e fico entristecido pelo rebobinar dos pensamentos, a refletir no quão legitima é a voz da razão e o desejo, mas a força está lá e ela resiste. Quase que me deixo largar num pranto de lágrimas a aperceber-me que todos nós já lá tivemos e que estas palavras fazem tanto sentido para eles como para nós. Apesar de doer, sinto-me compreendido e aposto que se ouvirem, também o sentirão, senão, alegro-me.

Em contraste com a faixa anterior, a próxima dá-nos algum ânimo, com uma qualidade de execução digna de malha, a “Vertigo Flowers” sobe a parada e aumenta o ritmo. O sangue volta às artérias e sentimo-nos de novo a ser elevados por uma nebulosidade ébria levada a cabo pelas cores e pelo êxtase das guitarras. As letras continuam a ser simples e fáceis de aprender, a acessibilidade ao som dá uma sensação muito consistente de easly-listening, o que só facilita o agrado a esta escrita. A meio, a música altera e começa a lançar voo sobre hectares e hectares de impressões que dispersam entre o nível cósmico e molecular. Sinto a atmosfera como se esta estivesse a rastejar debaixo da minha pele, a este ponto já faço parte do álbum.

A próxima faixa e o segundo single do álbum, “A.C.D. (Abcessive Compulsive Disorder)” é um dos mais pesados esforços deste registo a par da “Curse of The Sun” e da “Eaten By Worms” que por mais interessante que seja nomear, as receitas e fórmulas para cada uma variam de tal maneira que quase parecem escritas completamente distintas. A “A.C.D.” tenta explorar, numa repetição deambulante de distorção, as versatilidades da nossa saúde mental, encabeçando num doentio e hipnotizando ecoar de cordas e baixo, com a tarola a ressoar como que no fim de uma caverna e a voz exasperada de um passado inquestionavelmente nirvanesco.

Vamos a meio caminho, e sim, cá vem uma balada. “Nineteen Ninety Heaven”. Muito ao estilo de Smashing Pumpkins com a “1979”, “To Forgive” e “Daphne Descends”, a música é encaminhada por um riff em loop (que bem podia estar em acústico, já que a vibe está muito vincada no deprimente) enquanto, como que numa linha de chamada intermitente, as palavras vão aparecendo uma de cada vez, e com uma pausa de timbre, ouve-se o melhor refrão do álbum:

“I’m living in a dream world, Life's a nightmare, And I don’t ever wanna wake, I’m living in a dream world, Life’s a nightmare, And I don’t care how long it takes”

E claro, depois da primeira rodada, para fazer justiça às baladas dos anos 90, põe-se violinos no final para fazer da faixa uma bela poça de lamechice de nostalgia e saudade. Mas gostei do uso que a deram, estrategicamente bem colocada e em bom timing. Apesar disso, foi aldrabada, mas bem!

“Curse of The Sun” e a “Eaten by Worms” só ajudam a provar que os Nothing estão cada vez a fugir mais à obsessão claramente injustificada no Shoegaze, já que o revival do Grunge foi iniciado há uns anos atrás, e só boas coisas têm sido feitas a esse favor, mais vale continuar! Já ouvi falar que esta é uma das bandas mais barulhentas em concertos ao vivo, portanto imagino que estas façam muita justiça aos divinos gigantes dos decibéis. Uma banda não precisa de tocar Metal para ser pesada e estes rapazes ajudam-me a justificar isto. Sem grandes merdas e com uma atitude muito straight-forward, os americanos despacham estas duas faixas com uma elegância digna de ser destacada.

O ritmo começa a baixar e encaminhamo-nos para o final da viagem. “Our Plague” se calhar a faixa com o nome mais deprimente, é a música que mais harmonia preserva entre os acordes únicos e hipnotizantes. Polida de uma ponta à outra, nota-se que a música foi trabalhada para limar as arestas e estabilizar os ânimos. O álbum terminaria com uma nota alta se assim encerrasse com esta conclusão.

Mas como no fundo estamos a lidar com uns maníaco-depressivos ainda nostálgicos com os Pumpkins, claro que tínhamos de encerrar o álbum com uma balada de piano, como se acústico já não fosse doloroso o suficiente. Mas em relação ao encerramento já não digo muito porque mais cliché do que baladas com teclas é impossível, mas verdade seja dita, sou um pouco suspeito. Mas se houver dúvidas, a “Tired of Tomorrow” até se ouve.

Sinceramente, não tenho nada de mal para dizer acerca deste álbum. Fui surpreendido e rendi-me logo na primeira música. Nota-se um tremendo crescimento em termos de escrita e musicalidade, aproximaram-se mais de uma faceta sem tornar tudo demasiado óbvio e ainda dar ao conteúdo uma tangibilidade realista e atual. Comparado com o antecessor, este é um Nothing mais crescidinho, e estou a adorar ouvir. Número 1 indiscutível por agora.
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Nothing - Tired of Tomorrow
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