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Power Trip – Nightmare Logic

Power Trip

Nightmare Logic | 2017

PONTUAÇÃO:

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Reunimo-nos hoje para falar de uma das grandes promessas do thrash moderno. Até hoje temos ouvido falar e bastante de grupos como Vektor, Revocation, Evile, Black Fast, Toxic Holocaust e Municipal Waste, cada grupo com uma dinâmica e ambição completamente diferente, onde um caso permite demonstrar o quão longe o estilo chegou e o quão talentosos são os grupos que apostam em tudo para criar e elaborar trabalhos perfeitamente únicos. Hoje, mais do que nunca, dá-se imensa importância à estética da música, por vias de combinar com aquilo que tem existido no estilo desde a sua nascença: storytelling! Admitimos que nem sempre a história é boa, mas qualquer boa banda do estilo, sabe escrever uma história com fundamento e coesão, e se uma banda for realmente mesmo muito boa, há de conseguir complementar isso com música igualmente afinada e argumentada. Numa altura onde o “técnico” e o “progressivo” são constantemente abraçados e sublinhados como os estilos do futuro, esquecemo-nos do quão boas e importantes foram as primeiras gerações de death, speed e thrash metal no continente americano, na verdade grande parte das bandas de hoje em dia recaem tão frequentemente na mediocridade que o ouvinte até prefere recordar o vintage.

Power Trip de Dallas, Texas, é uma das muito poucas bandas cuja indiscutível qualidade motiva o ouvinte a relembrar as décadas douradas da música extrema. Estes jovens americanos têm ambicionado um ataque ao revival e este sendo já o seu segundo álbum de originais, a ser lançado pela segunda vez na Southern Lord (Sunn O))), Baptists, The Secret, Xibalba), isso só por si já deve querer dizer alguma coisa do grupo. A acumular até aqui dois EPs e o muito aclamado álbum de estreia Manifest Decimation, os texanos têm-se provado, sem grande problema, como uma promessa a tomar em conta.

Já que falamos nos lançamentos do grupo, é a partir destes que conseguimos destacar o percurso e o timing de toda a “decision-making” tomada a cabo ao longo dos anos. Nascidos no seio do hardcore americano em 2008, os texanos são frequentadores de bares e salas locais onde todas as bandas no alinhamento são principalmente grupos de punk e metalcore, tomando em conta que a sua incidência de Cro-Mags e Suicidal Tendencies ajudou-os a integrar num meio cuja única ligação direta ao thrash é o próprio crossover. Com o tempo, lançam Armageddon Blues, um EP composto por malhas naturalmente inclinadas para o hardcore, mais tarde escrevem uma malha para a compilação America’s Hardcore vol. 1 da editora Triple B, denominada “The Hammer of Doubt” que já demonstra as linhas do ADN da velha guarda, com a insistência no reverb e expansividade da estrutura, e que mais tarde é aproveitada para fecho do álbum de estreia da banda. Em 2011, lançam o famoso EP de nome próprio, a incluir duas malhas fortíssimas e uma cover bem feita de Prong. Aqui já é evidente que a banda quer assumir a transição e permanecer nesta nostálgica viagem à velha guarda, que apesar de não ser óbvia, consegue sustentar-se a si própria como algo único e legítimo.

Seguimos para o álbum de estreia, o muito aclamado e igualmente bem acolhido por tantos metaleiros como ávidos aderentes da cena hardcore americana, este é um registo que tem de convencer qualquer que seja o ouvinte. Não só pela sua estética que tomada a cabo pelo grande italiano Paolo Girardi (Black Breath, Chthe’ilist, Inquisition), mas também pela forma como a música e o som acompanham as cores, os detalhes, e as pequenas vertigens ao abismo que vemos na capa do álbum. A colecionar 8 faixas e uma quantidade de riffs só antes vista em clássicos como Times Does Not Heal dos Dark Angel e South of Heaven dos Slayer, este é um registo que consegue distinguir-se do passado com a sua própria funcionalidade, para não falar na forma inigualável como une pólos que há cerca de cinco ou sete anos atrás, têm vivido completamente separados um do outro.

Momentos incrivelmente memoráveis em faixas como a “Manifest Decimation”, “Heretic’s Fork”, “Conditioned to Death”, “Crossbreaker” e “Drown” mostram com grande evidência a naturalidade com que a banda enfrenta as mudanças de velocidade e o desenvolvimento de progressões, o culminar disto tudo sublinha a inteligência de escrita que a banda tem em ler situações polarizantes entre partes lentas e rápidas, e como as interligar sem soar demasiado esforçado em combinações que resultam em algo pleno de hostilidade.

Com um lançamento que não podia ter corrido melhor, o nome da banda está em todo o lado, festivais, digressões, e por esta altura já o nome deles é homónimo aos desertos infernais do Texas, até que três anos depois anunciam e confirmam o lançamento do segundo álbum de originais pela Southern Lord, denominado por Nightmare Logic. Uns meses antes lançam o primeiro single “Firing Squad” e antes de lançarem o álbum ainda partilham a segunda investida “Executioner’s Tax (Swing of the Axe)” e como dizem os americanos “so far so good”. Mas antes de julgar as faixas, era importante julgar o álbum como um todo, e calha bem o registo já circular pelas redes porque pouco mais tempo podíamos esperar para suportar a expectativa. A seguir mais ou menos o mesmo formato que o seu antecessor, Nightmare Logic é composto por oito faixas e ouve-se em meia-hora, mas introduz-se de uma forma muito mais imediata. Se calhar é a única diferença digna de ser mencionada porque numa análise geral o resultado final aqui conseguido não é muito diferente daquilo que foi procurado no álbum anterior. Preocupa-nos isso porque os americanos tinham oportunidade de mudar algumas regras e apontar para mais alto, mas preferiram jogar pelo seguro e perpetuar aquilo que até aqui já foi feito. Não julguem que o álbum está fraco, nada disso!

As faixas têm um forte impacto, a começar pela “Soul Sacrifice” que lembra a desenfreada forma como o hardcore rápido joga com a simplicidade dos riffs despidos, e a velocidade incandescente que a banda consegue transportar os riffs abrasivos com a “Firing Squad”, para não falar da monstruosa “Waiting Around to Die” cuja grandeza e clareza no ritmo lembra e tão bem os clássicos de Kreator. Ficamos com a sensação que o álbum deixou a desejar porque muito poucas diferenças mostra do Manifest Decimation. O estilo é o mesmo e a filosofia também, muitos refrões de battle-scream e investidas de pedal duplo, mas para haver progresso definitivo tem de haver risco e perigo. Apesar de termos adorado o álbum anterior, queríamos um pouco mais deste esforço. Mais desenvolvimento, mais frieza nas decisões e não ver a banda a deambular muito numa transição que já foi feita umas poucas vezes até meio do álbum. A banda mostra firmeza nos solos e na porrada aos whammy bars, e a “If Not Us Then Who” é uma malha fortíssima a relembrar os flamejantes hinos ao fim do mundo dos Nuclear Assault, mas faixas como a “Ruination” e “Crucifixation” dão-nos uma sensação muito má de já termos ouvido isto no mesmo álbum, e isso é muito frustrante especialmente quando se fala de uma banda do caparro dos Power Trip. Mais uma vez sublinhamos, se vos agrada a ideia de um álbum incessante e bem avantajado, composto por riffs de tamanha força e solos a montes, vão adorar, mas se procurarem por algo mais, aqui vai ser difícil. No fundo, é um esforço bastante físico mas notório na sua falta de inovação. Apesar disso, tem as suas partes.

 

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Por João "Mislow" Almeida / 6 Março, 2017

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