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Radiohead – A Moon Shaped Pool

Radiohead

A Moon Shaped Pool | 2016

PONTUAÇÃO:

8.0

 

 

 

A Moon shaped Pool chegou às lojas a 8 de maio de 2016 como um novo capítulo do já longo e marcante livro da história dos Radiohead. A expectativa que rodeava o nono álbum da banda de Oxford era grande, depois de cinco anos passados sobre o seu antecessor, o contraditório The King of Limbs. A banda foi aguçando a curiosidade da sua dedicada legião de fãs com o lançamento de dois singles, e com o desaparecimento das redes sociais de todas as publicações da banda. Manobra de marketing apenas permitida a uma banda do estatuto e atrevimento do grupo britânico, que já habituou o público a lançamentos ousados, como aconteceu com In Rainbows e o seu, à época inovador, sistema “Pay What You Want”, onde permitiu aos seus fãs escolherem a quantia a pagar pelo álbum, tendo mesmo sido considerado um sucesso em termos financeiros, apesar do invulgar método de pagamento.

O álbum inicia-se com “Burn the Witch” uma faixa potente marcada por uma batida forte e letras que tomam cada vez mais sentido nos movimentos culturais que vivemos. O disco segue para “Daydreaming”, uma música delicada, com incorporação de vozes sintetizadas que nos parecem transportar ao longo dos 6 minutos da faixa. O álbum abre também espaço a mais duas músicas em tom melancólico, “Glass Eyes” e “True Love Waits”, a última uma gravação de uma faixa tocada diversas vezes ao vivo, que só agora encontra espaço na discografia de estúdio da banda, com clara perda face à versão interpretada em palco. “Identikit” e “Ful Stop” mostram a banda novamente envolta em ritmos digitais, ligando estes elementos de forma inteligente e fresca a uma sonoridade mais conhecida. Última chamada de atenção para “Deck’s Dark” provavelmente a faixa mais forte do albúm, com as guitarras dos membros da banda a funcionar em pleno apoiadas por um coro de vozes e uma linha de baixo que eleva ainda mais a música. Apesar de ser um álbum de faixas inteiramente novas, cinco das onze faixas eram já conhecidas em versões ao vivo ou soundchecks da banda, indicando desta forma uma reaproximação aos fãs e suscitando ainda discussão em fóruns da banda sobre a possibilidade do lançamento de um segundo disco num futuro breve, à semelhança do que aconteceu em 2000 e 2001, com Kid A e Amnesiac, respectivamente.

Enquanto OK Computer retrata um mergulho na alienação digital e um marco na música que iria marcar o ínicio do séc. XXI., Kid A e Amnesiac a exploração de instrumentalização digital por oposição à música de guitarra e The King of Limbs uma incorporação de ritmos mais complexos e camadas musicais, A Moon Shaped Pool é o aglomerar de várias facetas da banda coladas entre si por um registo mais sinfónico que assenta bem na visão do quinteto para o álbum. A incorporação de sonoridades de orquestra no álbum era já alvo de rumores desde que no passado Natal, a banda britânica lançou “Spectre”, uma música composta como tema para o filme da saga James Bond do mesmo nome, que não acabou sendo a escolha final, faixa com forte componente sinfónica. Um sentimento que fica também deste registo, é o de que o conjunto inglês parece ter reencontrado um toque mais pop para algumas das suas músicas, algo perdido nas suas últimas incursões em estúdio.

A Moon Shaped Pool apresenta-se como um conjunto coerente de música, retirando a banda da nuvem de dúvidas que possa ter assombrado os seus fãs com o algo desconexo anterior trabalho. O albúm afirma-se como uma obra diferente de todas as que vieram antes de si, tanto dentro como fora da banda, algo a que o conjunto já nos veio habituando. Os anos de pausa entre álbuns permitiram a Yorke amadurecer a sua escrita ainda mais, cobrindo o albúm de um melancolia menos carregada de angústia juvenil, muito presente nos primeiros registos da banda, para uma sentimento cada vez mais conformado com os temas que afrontam o vocalista e letrista da banda. Esta espectro é palpável durante os 52 minutos durante os quais o albúm se estende, tornando ainda mais a sua audição numa agradável viagem, onde é possível olhar para cada nota como um espelho que reflecte os elementos da banda em todos momentos.

Seria exagerado afirmar que A Moon Shaped Pool é o mais brilhante álbum da banda de Thom Yorke, tendo em consideração que a banda escreveu anteriormente alguns dos melhores álbuns das últimas décadas. Apesar disso e 23 anos passados desde o primeiro álbum, os Radiohead, uma das maiores, mais influentes e mais inovadoras bandas da música contemporânea são ainda capazes de pôr nas prateleiras (físicas e cada vez mais digitais), um álbum consistente, com música que não soa a uma repetição de si mesmos em trabalhos anteriores e que nos dá a todos, amantes da música, esperança para que novos caminhos na música podem ainda estar escondidos, à espera que alguém nos faça novamente tremer com a destemida ousadia de os explorar, da mesma forma que os Radiohead o fazem de cada vez que acrescentam um novo capítulo à sua incrível história, que esperemos se continue a escrever por muitos e bons álbuns.

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Por João Bilé / 28 Novembro, 2016

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