wav@wavmagazine.net | 2014 | PT
a
WAV

Six Organs of Admittance – Burning the Threshold

Six Organs of Admittance

Burning the Threshold | 2017

PONTUAÇÃO:

-

 

 

 

Comecemos com uma advertência: caso ainda não tenha ouvido este álbum, faça-o primeiro antes de ler esta review. A leitura desta antes da audição do mesmo, pode castrar a sua experiência sonora, e acredite, este é um álbum que não merece qualquer tipo de retenção.

Falar de Six Organs of Admittance é uma tarefa que tem tanto de complexo, como tem de injusto. Apesar de o projecto ter despertado a curiosidade do público em meios da primeira década do séc. XXI, voando na mesma brisa que nomes como Devendra Banhart ou Joanna Newson, o projecto já se havia iniciado antes da aparição destes, remontando a 1998 o primeiro álbum. Outro factor que o distingue dos demais nomes que se atreveram a re-descobrir o folk americano, é que o percurso sonoro foi feito percorrendo uma mixórdia de ritmos e conceitos, que percorrem um troço sem princípio e sem fim, mas que passa tanto pela harmonia como pelo puro barulho. Nesse aspecto é impossível analisar se o génio criativo de Ben Chasny está a evoluir/regredir para esta/aquela tendência.

Por altura deste parágrafo, pressupõe-se que já ouviu o álbum. Possivelmente fê-lo em casa enquanto fazia algo mundano. Prestando-lhe atenção, e não é difícil Burning the Threshold chamá-lo a si, desejou tê-lo feito num local isolado e abstraído ou numa viagem sossegada com aquelas vistas de deixar a alma a babar. Provavelmente já sentiu o chamamento, e desfrutou de uma segunda audição nestas condições. Ou de uma terceira, quarta… Cortemos o complementativo, ultrapassando o suspense, directos a um já óbvio final: mais do que uma review, uma bajulação é a única coisa que me assiste fazer após a audição deste novo trabalho de Six Organs of Admittance.

Inicia-se com “Things as They Are”, e a faixa é embaixadora de todo o restante álbum. Purismo melódico – falar em simplicidade seria redutor perante a mestria de composição de Chasny -, precisão instrumental e transcendência lírica são a fórmula da qual resultam músicas que mais são autênticas injecções de endorfina. Se os dois anteriores trabalhos, Hexadic e Hexadic II, ambos de 2015, deram nome a um processo criativo que se emaranhava numa complexidade de plataformas concretas para chegar à verdadeira temática do álbum, este trabalho de 2017 vem e vai directo ao coração. Não obstante, como já referido, não se pode falar dum retrocesso às raízes, a álbuns como School of the Flower de 2005 ou Asleep on the Foodplain de 2011, mas sim em mais uma viragem no imaginário muito próprio de Ben Chasny.

Guitarrista, não só com Six Organs of Admittance, como também num punhado de outros ensembles, tais como os Comets on Fire, as suas capacidades são exímias e concisas, capazes de mutar os nossos corações em orvalhadas matinais. Em “Reservoir” é nos apresentado um dos mais fluídos duetos de corda desta década, e “Taken by Ascent” apresenta-nos uma exímia precisão na criação de ambientes mais psicadélicos, cartão de visita aos seus dotes, quando se ambicionam sonoridades mais desafiantes. Mas como qualquer álbum que roça a kalokagathia aristotélica, este completa-se e singra na fusão da melodia com o lirismo. Desta vez, o autor debruça-se mais sobre questões sufistas da moralidade do que a complexidade do mundano. Em “Adoration Song”, single de apresentação deste trabalho, cita-se o francês Gaston Bachelard, para introduzir um refrão/protesto contra o desumanizar do sentimento. Apesar da aparente complexidade, Ben beneficia do facto  de se encontrar a escrever sobre a poesia de Wallace Stevens, o que lhe permitiu adquirir o seu jeito de transformar as mais intrincadas concepções, em vivências perceptíveis, com as quais qualquer um consegue relacionar-se. Assim sendo, não será de espantar o à vontade com que temas como o progresso e a criação divina sejam abordadas de uma forma tão íntima e despretensiosa. De facto, o âmbito do sagrado ocupa um lugar bastante forte neste álbum, mesmo quando é curiosamente representado numa santíssima trindade instrumental – “Reservoir”; “Around The Axis” e “St. Eustace” -, dispostas metodicamente no álbum de forma a que se caminhe num constante crescendo emocional.

O álbum segue sempre a mesma linha, factor que poderia ser o seu calcanhar de Aquiles, mas que no entanto aqui funciona como mais um dos factores que contribui para o seu sucesso. O registo cândido sempre presente no folk de “Burning the Threshold” esconde a sublime re-invenção do mesmo. Confiante na sua destreza na guitarra, afasta-se dos clichês óbvios que o género costuma apresentar, e explora-o livremente através duma visão actual do que é a música. Se não é, esta deveria ser a definição de neo-folk (ou qualquer tipo de neo), e é nesta ousadia que felizmente encontramos algumas das melhores faixas aqui presentes, como é o caso de  “Under Fixed Stars”.

Apesar da importância e reconhecimento que obtém no meio, Chasny, tende a ficar a meio gás no que toca a uma questão de público. Quando se pensa na nova vaga de folk que assolou a viragem da década, dificilmente o encontraremos num top 5 de influência, mesmo contabilizando a longevidade da sua carreira. Não obstante, Six Organs of Admittance é um ex-libris imortal nesta constelação, e Burning the Threshold o beliscão bem dado para que o interiorizamos. Num panorama já algo saturado, este consegue ser uma lufada de ar fresco, tanto em concretização material, como em aragem imaginária, que o sopra para a dianteira de uma corrida entre os melhores, isto num ano que se marca pelo experimentalismo da obscuridade electrónica. Por muito que a música e o mundo se transformem, álbuns como este, são a prova de que o simples terá sempre um lugar nos nossos ouvidos.

Share Button

Comentarios

comentarios

Por João Rocha / 11 Abril, 2017

Deixar um comentário

About the author /


~