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Six Organs of Admittance – Hexadic

Six Organs of Admittance

Hexadic | 2015

PONTUAÇÃO:

8.0

 

 

 
Desde o final dos anos 90 que os Six Organs Of Admittance, projeto principalmente dirigido por Ben Chasny, têm vindo a lançar discos (quase) todos os anos. Em 17 anos de carreira lançaram, precisamente, 17 discos (sem contar, com EP’s, compilações, splits, etc), tendo lançado, várias vezes, mais do que um disco por ano. Sem dúvida, números dignos de respeito! Assim sendo, este foi o seu maior interregno até agora. De 2012 a 2015, Ben Chasny não lançou nada, física ou digitalmente, sob este nome, aumentando assim a expectativa dos fãs para o que aí vinha.

Desde cedo denominados como Psy-Folk ou New Folk, os Six Organs Of Admittance orgulham-se de ter uma carreira sólida e eclética, fugindo, sempre que podem, aos rótulos impostos pelos media. Este disco, Hexadic, é capaz de ser aquele em que se nota mais essa rotura. Ben Chasny, já vinha alterando a sua sonoridade (em Six Organs Of Admittance) desde a segunda metade dos anos 2000, com diversos discos inspirados em universos drone dominados por bandas como os La Monte Young, The Velvet Underground (em “Loop” e em “Metal Machine Music”, de Lou Reed) e, mais tarde, pelos Nurse With Wound, Sunn O)), ou até mesmo os Earth.

Em Hexadic, Ben Chasny quebrou todas as fronteiras musicais, levando o experimentalismo ao limite, tanto na forma escrita das canções como, também, na sua interpretação. Chasny passou os últimos anos a desenvolver uma “nova” forma de composição chamada “The Hexadic (open) System”, que determina que sejam os desenhos de um baralho de cartas (desenvolvido pelo artista) a escolher determinados elementos musicais, tais como a afinação, a intensidade do som e, até mesmo, o conteúdo lírico das músicas. As cartas funcionam para um número indeterminado de músicos e não têm nenhuma sequência previamente estabelecida, ou seja, saem à sorte (podem ser jogadas como póquer, inclusive).

A verdade é que este sistema não é particularmente inovador, pois já Iannis Xenakis (Stratégie, 1962) e John Zorn (Cobra, 1984) o tinham feito, chegando mesmo, este último, a fazer alguns concertos deste modo. O que Ben Chasny faz, neste caso, é aplicar o sistema das cartas à música rock e, como sabemos, rock é um género demasiado vasto para a cabeça do líder da banda, pois, de Rock (clássico) este disco tem pouco.

Hexadic é um álbum conceptual de cariz avant-garde e é claramente aquele que salta mais à vista pela sua diferença e dissonância perante a restante discografia. “The Ram”, a primeira música do disco, representa a liberdade musical. “Wax Chance”, o single, é a faixa que se aproxima mais do tão falado “Rock” de Chasny, com uma progressão rítmica estável, sem grandes contratempos e com vocais a fluírem sobre o ritmo base. Na terceira música o ouvinte leva uma chapada na cara, “Maximum Hexadic” é capaz de funcionar mal sob algumas drogas pesadas.

Depois da tempestade vem a bonança, e eis que nos chega “Hesitant Grand Light”, calminha, experimental, apaziguadora. Se existisse um subgénero chamado Satanic Drone, “Sphere Path Code C” era o seu criador. As guitarras cheias de distorção e feedback, pousando frequentemente nas mesmas notas, conjugado com a voz monocórdica de Chasny, tornam esta música numa ode ao Inferno. Quase que se sente o calor de Lucifer. “Vestige” é uma malha ambiental, também algo drone, que resultaria bem como banda sonora de um thriller psicótico. A ambientalidade negra mantém-se em “Future Verbs”. “Guild” encerra o disco devagarinho, com aquela sensação típica da despedida. Após se iniciar cheia de distorção e assimetria, encerra com a guitarra limpa a cantar ao lado do piano e da bateria. A mudança é gradual, o que torna esta música numa das mais bem conseguidas do disco.

Este disco é entusiasmante, pela forma como foi concebido, pelas descargas de distorção elétrica que recebemos quando ouvimos determinadas músicas mas, acima de tudo, pelos momentos em que Ben Chasny desliga o fuzz e a distorção e regressa às origens, criando planícies sonoras bastante agradáveis de se apreciar.

Ben Chasny queria algo fora do comum, livre, sem barreiras… e barulhento. Conseguiu-o!

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Por Diogo Alexandre / 2 Março, 2015

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Um gajo que gosta de música e escreve coisas estranhas.

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