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Strand of Oaks – Hard Love

Strand of Oaks

Hard Love | 2017

PONTUAÇÃO:

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Strand of Oaks é o alter-ego de Timothy Showalter. No passado dia 17 de fevereiro, Showalter lançou o seu quinto álbum, o antecipado Hard Love.

É impossível falar de Hard Love sem primeiro referir o seu trabalho anterior Heal, álbum aclamado pela crítica em 2014 e responsável por trazer para a ribalta o nome Strand of Oaks. Timothy, ao longo dos seus quatro primeiros álbuns, transita de uma música acústica, calma e emocional com alicerces altamente folclóricos para uma música que procura desenvolver-se e respirar numa atmosfera mais rica em partículas rock. Ora, se esta transição ocorre de forma lenta e gradual nos seus três primeiros álbuns, Heal surgiu para romper com tudo e por completo. Juntaram-se guitarras elétricas desgovernadas a sintetizadores, resultando numa música ruidosa e incendiária, que serviu como pano de fundo para Showalter retratar os seus anos de adolescente até às amarguras da vida adulta. Heal foi assim um marco, uma espécie de metamorfose musical para Strand of Oaks.

Em Hard Love, Showalter volta-se a debruçar sobre aquilo que é a grande inspiração para o seu trabalho: a sua vida pessoal. O artigo que o site norte-americano Stereogum publicou, escrito por Ryan Leas que acompanhou Showalter em vários momentos entre o lançamento dos seus dois últimos álbuns ajuda-nos a perceber que este é um homem numa jornada de redenção, um homem que se está a aperceber dos muitos erros que cometeu e como esses erros magoaram as pessoas que mais ama. “Why can’t there ever be a record where it’s about, hey, the rock star returns home and redeems himself and is good to the people he loves? How come that isn’t the story we can tell?” questiona-se ele perante Ryan. De facto, podem esperar canções sobre as suas vivências desde o lançamento de Heal: as experiências e os excessos da vida na estrada, a vontade de lutar por um casamento atribulado, de estar mais presente na vida sua mulher, ou até mesmo sobre aquilo que é ver o irmão mais novo às portas da morte.

O álbum inicia-se com a faixa-título “Hard Love”. Começa como uma balada, em que Showalter, ofegantemente, fala dos seus problemas domésticos, transformando-se lentamente numa melodia rock que cria um clima preparatório para o resto do álbum.

Segue-se “Radio Kids”, a única canção do álbum em que se recua no tempo, muito em semelhança ao que acontece em canções como “Goshen ‘97” ou “JM” do álbum anterior. Showalter mais uma vez sente-se nostálgico em relação aos seus tempos de miúdo, quando ouvir música, sem se importar com mais nada, era tudo para ele. Apesar de saber que esses tempos mágicos nunca mais voltarão, ele embrulha a música com uma aura alegre e positiva. Sem dúvida um dos pontos altos do álbum.

A nível sonoro, Hard Love não esquece a sonoridade deixada por Heal, principalmente na primeira metade do álbum, em que faixas como “Radio Kids” ou “Salt Brothers” nos invadem como uma nuvem elétrica e parece que foram diretamente retiradas do seu antecessor. Podemos dizer que este álbum vinca a intenção de Strand of Oaks de continuar a explorar a atmosfera rock. Contudo, não se limita à esfera indie rock e, principalmente na segunda metade do álbum, procura satisfazer-se em ambientes mais psicadélicos com “On the Hill” ou “Taking Acid and Talking to My Brother”, e aproveita para se divertir com composições como “Quit It” e “Rest of It” em que se dá uma busca pela natureza do rock ‘n’ roll. Este é então, um álbum relativamente mais versátil que os anteriores, mas sem que essa versatilidade se traduza em grandiosidade. Aliás, sente-se que foi sacrificada a essência existente em Heal, em que as músicas manifestavam-se naturalmente umas após as outras.

No início da segunda metade do álbum surge “Cry”, uma balada conduzida por um piano em que Showalter se apresenta despido, confessando e sofrendo. É uma música que pretende ser a peça fulcral da obra, mas o efeito acaba por ser o oposto: parece apenas desconectada do resto das músicas, tal como os vocais de Showalter parecem incompletos sem o turbilhão de sons elétricos a servir de muleta. Sucedem-se as músicas “Quit It” e “Rest of It”, livres e selvagens, que apesar de não serem marcantes ajudam a dar alguma luminosidade ao álbum.

E por último chega-nos aquela que é música mais admirável do álbum: “Taking Acid and Talking to My Brother”. Esta música celebra o facto de o seu irmão recusar-se a morrer e tem este nome não porque Showalter tenha tomado qualquer substância alucinógena, mas porque afirma que ver o seu irmão à beira da morte, e não pregar olho durante cinco dias, foi a experiência mais psicadélica que vivenciou. Durante oito minutos, os riffs de guitarra psicadélicos e rodopiantes e os vocais reverberantes sugam-nos para uma espiral inescapável que é a mente de Showalter naqueles cinco dias, revelando o seu descontrolo e falta de capacidade para ajudar o seu irmão. Esta música deixa o sentimento que de facto havia potencial para mais momentos de imensa espectacularidade terem sido alcançados ao longo do álbum, o que aconteceu poucas vezes.

Ora se Heal foi uma metamorfose musical, Hard Love é o resultado de uma metamorfose de caráter, é o trabalho de um homem que se começou a preocupar em trazer mais energia positiva para si e para os seus. Ainda que o resultado seja um álbum que musicalmente fica aquém do esperado e que não flui da maneira desejada, não deixa de ser um álbum capaz de entreter, com alguns pontos altos que realmente são recompensadores.

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Por Luís Rodrigues / 23 Março, 2017

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