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SubRosa – For This We Fought the Battle of Ages

SubRosa

For This We Fought the Battle of Ages | 2016

PONTUAÇÃO:

9.5

 

 

 

Faz mais ou menos dois meses que os SubRosa, oriundos de Salt Lake City, Utah, lançaram o mais recente registo através da Profound Lore. Uma combinação que tem criado trabalho de equipa ao longo destes últimos cinco anos e que conta com cerca de três álbuns de originais com a etiqueta da PFL nos lançamentos. Mesmo tendo lançado o álbum de estreia por vias da editora sueca I Hate (Protector, Jex Thoth, Evoken, etc) o surgimento do som aperfeiçoado e controlado que hoje conhecemos, foi quase exclusivamente graças aos recursos e ambição da Profound Lore. A editora canadiana tem sido responsável por alguns dos mais importantes registos destes últimos 5 anos, dentro da musica extrema, como é o caso de Full of Hell & Merzbow, Scar Sighted de Leviathan, Four Phantoms dos Bell Witch, Frozen Niagara Falls de Prurient e Altra Mors dos Evoken, portanto não é difícil imaginar a qualidade com que foi lidado este projeto. Por pura coincidência, os nossos compatriotas Sinistro encontram-se neste momento a partilhar palcos com os SubRosa pela Europa fora, algo que de uma forma ou doutra nos torna responsáveis para vos entregar a avaliação de um dos álbuns mais esperados de 2016.

Para além de ter sido constantemente patrocinado pela própria editora, este foi de facto um registo muito aguardado por parte dos adeptos de doom. Isto porque o seu antecessor More Constant Than The Gods deu mais aos ouvintes do que prometeu, e por força de hábito, que já se torna um mau hábito, a banda repete-se neste processo. Promete doom/sludge instintivo e poético, mas dá-nos muito mais do que isso. Mas antes de mergulharmos no registo, estudemos o trabalho anterior. No Help For The Mighty Ones, álbum de estreia com a editora canadiana, já a estabelecer uma transição de som e núcleo, o grupo começa a estudar e explorar sonoridades cuja complexidade estrutural deixa-se aprofundar pelas cavernosas badaladas de atmosfera e cor. Ainda muito dependente do ritmo, a banda deixa-se conduzir pelo latejar das guitarras, cujas gravíssimas cordas proporcionam ao lado dos violinos um contraste incrível. Como se desse para imaginar Neurosis com celtic music.

Com o emoldurar dos violinos, a música adquire uma textura espantosamente colorida e dinâmica, ainda sem perder a característica natureza do peso. A sonoridade embelezada pela clara afluência de chamber music, torna o registo ainda mais interessante em termos de material e execução. Apesar da produção não ser a melhor, este álbum já marca a transição e já define as linhas de pensamento daquilo que virá a ser o progresso do grupo.

Seguindo para More Constant Than The Gods, lançado em 2013, conta com o grupo a exercer alterações no ritmo e afinação das sonoridades. Notavelmente mais vocal, as três vocalistas do grupo, cada uma a suster um instrumento (guitarra, violino e violino) assumem o leme do navio e conduzem a distribuição de peso e serenidade ao longo do álbum. Passagens caracteristicamente melodramáticas, respiram e expiram cavernas e castelos, muralhas e fumaças de pólvora, muitas vezes introspetivas, não deixam de escrever parágrafos de fachadas góticas e arcadas ritualísticas. A lentidão é o principal alicerce a dar fruto a esta imagem de criação, quase que um rabisco no final do romance. A lentidão por sua vez, tanto pode ser responsável pela densificação do peso e impacto, como para o ampliar das emoções nas transições memoráveis.

Com o progresso das primeiras faixas chegamos à conclusão que a produção é a principal diferença, a contribuir já para uma sonoridade filtrada onde a transparência das decisões elevam a importância de um “concept album” neste contexto. A trazer um pouco de tudo, mas com um balanço muitas vezes desafogado, o ouvinte consegue recolher uma série de momentos memoráveis e impactantes, tanto por parte da mítica performance das vozes e da dualidade abrasiva entre os elementos de cordas. Ao contrário do registo anterior, o ritmo recolhe-se e deixa o resto guiar a maré. “Ghosts of a Dead Empire” e a “Cosey Mo” exploram essa versatilidade de controlo e equilíbrio, através de um ciclone de sons e elevações, transportando a sonoridade para um destino quase sempre climático e caótico.

A incorporar elementos estrangeiros ao doom, é de louvar esta criação, que ainda em pleno século XXI, mostra-se ser um dos mais refrescantes e únicos lançamentos a incorporar elementos destes sem sucumbir à redundância do folk e celtic. Entre decapitações abrasivas de aço flamejante, a banhar as têmporas de uma inquisição castigada e o perecer no meio de um planalto verdejante banhado pela iluminação estelar de uma noite celta, podemos dizer que este álbum não nos dá nada senão razões para o visitar constantemente.

Três anos depois, chega o For This We Fought the Battle of Ages! Um esforço que abraça intimamente as passagens lamacentas e banhadas em lentidão, que através destas a banda toma proveito do sufocante espaço disponível para pincelar algumas das mais arrebatadoras pinturas no doom. A investir na exponencial presença de guitarras, muitas das vezes mais gritantes que o resto dos instrumentos, estas acabam por se polarizar com as vozes e bateria. Sem dúvida um registo que declara a permanência na estilística sonora, oficializa as caracteristicamente extensivas passagens de magia e do mórbido, numa natureza muitas das vezes mística e colossal.

Um som que para qualquer ouvinte se mostra hostil e bem sentido, tem a totalidade da sua masterização nas mãos do muito experiente senhor Brad Boatright dos From Ashes Rises, responsável pela técnica impingida em sucessos de Oathbreaker, Black Breath, Leviathan, Full of Hell, Wiegedood, Trap Them, Bell Witch, Iron Reagan, Toxic Holocaust, Magrudergrind, Halshug, Baptists e muito, muito mais. A circular entre as 4 mais ativas editoras do underground (Relapse, Deathwish, Profound Lore e Southern Lord), Boatright mostrou-me mais do que apto para expandir os limites e linhas deste dos SubRosa. Uma mais valia indiscutível que proporcionou ao registo uma elevação aguçada e polida.

A arrancar com o ressoar do baixo e guitarra, muito calmamente a banda se deixa apresentar pela suave voz de uma sirene, cujo desespero não se deixa transparecer pelas efémeras notas e entrelaçado jogo de timbres e palavras. “Despair is a Siren” não demora a mostrar-se presente, com uma breve introdução dá alcance a uma pulsação de peles e agulhadas de violino, enquanto que as guitarras dão cor ao sangue latejante e às marés cortantes, as sirenes sobrevoam no fundo enquanto a musa central cospe as palavras:

The earth is shifting like a plate/ My skin doesn’t fit anymore/ I’m hanging by the noose of their lamp cord/ I see the bars of the cage”.

O som explode e expande-se como uma queda em águas gélidas, as bolhas a trespassar os braços do afogado e a sentir o corpo a estalar à medida que a pressão das profundezas aumenta. Tudo à escala, o som pressiona-se sobre o perímetro humano, e retorce ao longo das linhas de cabelo, como se ao alcance de uma sirena estivesse. O corpo sente a pulsação de novo e contrabalança de novo para a harmonia e substancia na carne entre os murmúrios das cortas e vozes. Breve e finito, como que num consciente piso de realidade, apercebem-se do latejar a pesar nas mãos. O peso retorna, o corpo assimila a água nos pulmões, sufocante e amestrado:

The earth is shifting like a plate/ My skin doesn’t fit anymore/ I’m writhing in the flame of their ghost lights/ I see the bars of the cage

As notas agudas a ladrar ao longo das agressivas pancadas dos órgãos, lentamente a ceder à pressão, a esvaziar os músculos e as artérias, a escapar como uma fuga de ar deixa-se embelezar pela despedida até ao gritar:

Despair is a siren calling through the night/ The earth wraps itself in a shroud/ I curse my fate, I curse my free will

Ecoa facilmente nas paredes da consciência, o poderio indiscutível desta voz e das guitarras a acompanhar. Tudo colorido, tudo texturado, muito físico ao ponto de fornecer ao peito e braços uma sensação de empurrões sucessivos e persistentes ao longo destes 15 minutos de inicio. E muitas das vezes vemo-nos a enjoar e a fartar de uma música tão extensiva, se calhar nem tão comprida, como esta, mas esta primeira faixa não deixou aspetos negativos a mencionar, quase na sua totalidade perfeitamente executada, medida nas intervenções e composta na entrega. Uma pintura calculadíssima e lavada, a contar com um refrão que se eleva de tal modo a um ponto no céu complicadíssimo de alcançar num salto, que nem na mais alta montanha deste planeta conseguimos agarrar com as palmas das mãos.

“Wound of the Warden” dá-nos mais um exemplo de aperfeiçoamento artesanal, a chegar aos 13 minutos de melancolia em banhos de lágrimas, palpitantes e intermitentes entre os músculos da distorção e os gravíssimos e monstruosos growls. O highlight desta faixa pronuncia-se pela formidável exibição de fundo, nos violinos, muitas das vezes a lembrar os panoramas míticos da Escócia e Irlanda. Panoramas verdejantes e explosivos, apedrejados e reforçados pelos longos ascendentes e medula animalesca dos planaltos britânicos.

Apesar de Utah ser um autêntico deserto, os SubRosa elevam um estilo de música que muito fácilmente transporta o ouvinte a um mundo plenamente distinto daqueles a que estão inseridos. Muitas vezes contextualizado nas escritas de Dostoyevsky, J.R.R. Tolkien e Franz Kafka, tanto levados a uma viagem de comboio num São Petersburgo enevoado pela neve, ou por uma capital Checa conquistada por castelos inseticidas e chuviscos desesperados, ou até mesmo por uma Middle-Earth exasperante, planaltos, trigo e madeira consumida por verdejantes panoramas de festa e melancolia centenária.

“Black Majesty” ilustra tão bem estas imersões frequentemente assumidas pelas viagens bem afirmadas pelas guitarras e bateria, empurradas de um lado para o outro de origem nas voluptuosas vozes e sensualíssimas pernas dos violinos. Se amor existe, encontram-no aqui.

A encantadora e italiana voz de artesã na “Il Cappio” dá transição a uma ponte de mundos, a despedir-se do clássico e imaginário, para uma cruel realidade moderna. “Killing Rapture” passa a transportar uma sonoridade mais reconhecível, apesar de folclórica e ainda muito orientada pela “fantasia”, a simplicidade na execução do peso denuncia uma intenção mais realista e atual. A dissecar e analisar um problema que se tem desvendado cada vez mais ao longo dos anos, a prisão do género e do sexo, os americanos ilustram espantosamente bem a ciência por trás da aflição de sermos empurrados a sermos alguem que não somos na verdade. Rejeitar limites e paredes, expulsá-las e incutir uma reconstrução espiritual e física, para impregnarmos este planeta com quem realmente somos.

So get a ticket/ Erase all difference/ Undo the burden of identity (your body is not your own)”

A exata lentidão ao longo deste registo penetra a impiedosa liderança das emoções, claustrofóbica e esmagadora, livre de ressentimentos e poderosa o suficiente para esmagar a noção de indivíduo. As letras mostram uma vontade de combater essa força e transmitem uma energia equiparável à de uma Deus, neste caso Deus, livre de encargos e construções pré-fabricadas da sociedade. Livre de fardos e regras. Abracemos a mensagem e o contexto.

A chegar ao fim, a mais curta faixa da lista dá-nos uma despedida dolorosamente dinâmica e movida. “Troubled Cells” dita-nos a última paragem no apeadeiro deste submundo. Não saímos e permanecemos na viagem de volta, relembramos tudo. As paisagens, os cumprimentos, os beijos e os amores, os lençóis pesados como cobertores de pedra, as pessoas e as personagens. Quase cancerígena o fecho desta odisseia de panoramas e retratos, com cada pintura a emergir num interminável jogo de estrofes e escovadelas de pastel em telas de dimensões imperdíveis. E quase a lacrimejar com as palavras e com a espinha a ser-nos a arrancada pela própria medusa, o paraíso dita-nos:

There is no greater good if you’re trodden underfoot / There is no greater good/ Paradise is a lie if we have to burn you at the stake to get inside/ Paradise is a lie if you’re not by my side”

Há muito que se pode ser dito acerca deste lançamento. A primeira coisa que deve ser mencionada é que é um desafio incrível fazer música extrema que seja tão ou mais iluminada do que aquela que já foi feita no passado. Evitar repetir caminhos, técnicas, influências e até mesmo estilos, é um desafio, sempre. SubRosa não tiveram dificuldades em conseguir esse alcance. Um grupo que pouco mais de 10 anos conta debaixo do cinto. Com um inicio redundante e a transitar entre sons à medida que progridem com cada concerto e digressão, a mudar e a cimentar cada detalhe e aresta à medida que entram em estúdio.  Manuseados e libertos, sem qualquer pressão e ideia pré-concebida de como isto deve ser feito, este grupo conseguiu entregar ao sub-mundo um dos, senão o, álbum mais memorável e impactante do ano. E isto sente-se em especial naqueles que não conheciam a banda e que não sabiam o que esperar deste lançamento. É de espantar, para alguns, mas para aqueles que já conheciam o trabalho, era de esperar grandeza deste conjunto, e assim lá chegaram.

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Por João "Mislow" Almeida / 25 Outubro, 2016

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