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Swans - The Glowing Man

Review
Swans The Glowing Man | 2016
Frederico Figueiredo 15 de Janeiro, 2017
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O renascimento dos Swans em 2010 com My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky extraviou a banda do domínio das canções para um automatismo composicional guiado pela espontaneidade de um cadáver esquisito. Os Swans tinham embarcado em travessias cíclicas, convergentes e tântricas, com a tensa insinuação de que o mundo já devia ter acabado. Esta nova pele, sob as rugas de uma carreira reassimilada e subgéneros reciclados, encerra-se aqui, em forma de implosão, com The Glowing Man.

O trabalho apresenta-se como uma grandiosa cacofonia orquestrada nos bastidores da eternidade. “Cloud of Forgetting” marca o início da celebração com a ameaça sibilante de guitarras às quais se aglutinam esboços de riffs e acordes sob uma cadência hipnótica que muito lembraria uns Neurosis. As vocais de Michael Gira orbitam com a densidade de um mantra, no estertor desesperante sugerido pela contraparte instrumental. O crescendo levita os sentidos em estado de alerta e revela a mensagem excisada pela purga: “Children, I am blind”. Palavras que desvelam um esforço de torpor reflexivo e confissão lacerada, continuado pelo álbum como uma cansada tentativa de redenção de um ego dissociado.

“Cloud of Unknowing” reanima-nos dos escombros da entrega, em estilo de protofonia wagneriana. As vocais são entoadas de forma desolada e devastadora num movimento sincopado e confluente. A mestria com que a dissonância é incorporada na complexidade das composições (sugerindo a genialidade de La Monte Young e do Theatre of Eternal Music), serve de palco para a urgência com que Gira chora: “Ah I/Ah I am/Ah I am/I AM NOT/I AM NOT... I am calling/Calling/I am calling/Calling”.

Notas espectrais de um piano, articuladas com ritmos bruxuleantes abrem caminho para “The World Looks Red/The World Looks Black” (letra originalmente escrita para os Sonic Youth), com o Golgotha pessoal sempre presente e ominoso: “The weight of my body is too much to bear/The immovable fact buries my mind/Bury my mind”. A faixa termina em nota vertiginosa, com “People Like Us” a suavizar a queda numa imediatez semi-decadente, quase dançável.

“Frankie M” recupera, assustadoramente, o esplendor da era White Light from the Mouth of Infinity, assumindo o etéreo, um caráter perturbador e anticlimático, num exercício de camuflada ansiedade. Jennifer Gira ocupa, de forma cândida, o lugar de Jarboe em “When Will I Return”, numa toada lúgubre e exótica, perfeitamente enquadrável no The Great Annihilator.

O tema título, consiste numa multifacetada faixa que expõe uma versatilidade aparentemente caótica, que inicialmente reflete o trabalho de Mike Oldfield no “Tubular Bells” (ou mesmo de Ray Manzarek em “The End”), para progressivamente nos precipitar para uma martelada pneumática a recordar Greed, passando também pela sensualidade rítmica de uns Sonic Youth. Uma curiosa simbiose de rock industrial (que em parte traz à mente, de igual modo, os Ministry), faz o nosso cérebro vergar em bizarras rotações, deixando-o à beira da desintegração na constatação calamitosa: “I am a no no no no nothing man

Sucede-se um momento de claridade que fecha o álbum num espírito upbeat evangelista, anunciando: “All creation is hollow”.

The Glowing Man é elaborado nos mesmos moldes dos seus precedentes The Seer e To Be Kind, enfatizando, porém, a componente mais imaterial das composições, remetendo-as para a dissolução num transe contínuo. Trata-se do fecho de mais um capítulo na carreira dos Swans, na sua presente encarnação. Neste sentido, poderíamos aglomerar os trabalhos pós-2000 como um único opus, sendo o presente esforço, um apropriado e profano epitáfio para o caos integrado sob a máscara de peso experimental que caracteriza a banda. Assim é, uma escatológica cacofonia que revela um trabalho que tanto tem de catártico como de catastrófico, mas sempre em inegável grandiosidade.
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