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The Drones – Feelin Kinda Free

Review
The Drones Feelin Kinda Free | 2016
Marco Montenegro 11 de Janeiro, 2017
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É sempre estranho, estando-se habituado a um sabor característico, quando a nova rodada surge com texturas completamente diferentes. As expressões faciais são inevitáveis e o rosto contorce-se como se não percebesse a forma que tem de assumir. Os The Drones resolveram sair da sua zona de conforto, e isso é estranho. Punk em atitude, mas sem a direcção sonora mais punk ou garageira, como preferirem.

Feelin Kinda Free é uma colecção desalinhada de canções. Dispara os The Drones para várias reminiscências, todas elas distintas e construtoras de uma identidade sonora distinta e aventurosa. Desde os conterrâneos Birthday Party, ao post-punk de uns Gang Of Four ou Public Image Limited, passando pelo experimentalismo no wave de Lydia Lunch, ou o lado mais psicadélico de uns Can, são múltiplas as referências que se podem encontrar. Claro, devidamente enquadradas no espírito misantrópico da banda nascida em Perth, Austrália, em 1997.

O sucessor de I See Seaweed, lançado em 2013, é uma “a bad trip you can dance to”, como fazem questão de vincar os The Drones na press release que acompanhou o lançamento do disco. Mas não só. O borrão consome bem mais pano.

Títulos como, “Private Execution”, “Then They Came For Me”, em alusão a Bertold Brecht, ou “Shut Down SETI”, dão o mote para a chapada que se avizinha - Feelin Kinda Free é um disco com dimensão crítica feroz. E é mesmo. Mas é muito mais do que um impulso visceral. É tremendamente político. E “político”, sem espasmos vagos, tem um sentido prático e objectivo. Quase como um manifesto. As palavras do vocalista da banda, Gareth Liddiard, em entrevista ao The Guardian, cuspidas ainda antes do novo registo dos The Drones, estar fora do forno, são elucidativas. “It’s time leftwingers grew some balls. You don’t have to be clever about it – just grow some hairy ones.”

Mesmo assim, por vezes, perceber o que querem transmitir em concreto, é um exercício mais comichoso, pelas referências particulares a momentos da história da Austrália, e por arrasto do Império Britânico, como em “Taman Shud” ou “Sometimes”, e necessita de um microscópio calibrado. Mas, a grosso modo, é algo aproximado a isto: Há uma Austrália branca, que tenta fazer tábua-rasa do seu passado colonialista, e, simultaneamente, medrosa do seu presente, onde a imigração é uma realidade emergente, e com o qual não sabe lidar. História e contemporaneidade australiana, é por onde serpenteia muito do novo trabalho da banda do país dos cangurus.

“It’s time to have a groovy Drones record. We’re sick of being a bunch of drags.”, remata Liddiard na entrevista já mencionada.  Feelin Kinda Free são os The Drones a despirem-se e a querem despir. O mundo está doente e em estado pré-apocalíptico. Precisa de bandas sonoras para ser suportável. E ser suportável, significa dançar conscientemente sobre as suas cinzas, e se necessário alimentar-se delas.
[Este autor escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico
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