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TRUE WIDOW – AVVOLGERE

Review
TRUE WIDOW AVVOLGERE | 2016
João "Mislow" Almeida 22 de Novembro, 2016
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Jonathan Uliel Saldanha - Tunnel Vision

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True Widow, o trio texano de stonergaze retorna ao mercado com o muito aguardado Avvolgere, a partir da incontornável Relapse Records, que por sua vez se tem mostrado bastante saudável e ativa nos lançamentos e publicidade. Já temos aqui falado dos últimos álbuns de Nothing e Lycus, tal como bandas agenciadas pela própria editora a pisar território português em datas da autoria da nossa Amplificasom, o que nos permite dizer que de uma forma ou doutra, estamos indireta mas intimamente conectados com um dos, senão o mais relevante, nome de música extrema nos dias de hoje. Inevitável bajular a editora numa altura em que colossos como a Metal Blade, Nuclear Blast, Century Media e Earache, deixam sobrar muito espaço em termos de novidades e qualidade para editoras consideravelmente mais pequenas, mas ambiciosas, caso da própria Relapse, Profound Lore, Southern Lord e Season of Mist, falando num contexto atual, porque nem sempre assim foi.

Já temos falado inúmeras vezes acerca da evolução e progresso de estilos musicais que desafiam regras e padrões, grupos maioritariamente jovens que se arriscam a um abismo de redundância e/ou insucesso em nome do “making something new”. Cada vez há mais grupos a ressurgirem em sistemáticos revivals de géneros ultrapassados e cujos pontos altos ainda se encontram inalterados e preservados no dia de ontem, naturalmente, o desafio é maior e muitas das vezes não corre bem. Por outro lado, encontramos em minoria, um leque de artistas capazes de distorcer as regras e criarem paisagens baseadas em visões e ideias pouco fundamentadas, que com muito trabalho e dedicação tornam-se chaves de acesso para estilos completamente novos.

A conjugar com uma série de critérios e opções, uma banda consegue explorar esse mesmo caminho e ainda ter sucesso, sem se esforçar muito. A velha carta de production value só terá impacto se a sonoridade for expansiva e progressiva, simultaneamente solta e bem trabalhada e é aqui que inserimos True Widow. Sendo este um caso de continuidade, a banda tem de tomar proveito do pouco espaço que têm para melhorar e evoluir. É inegável a facilidade com que encaram este desafio e estando no ativo desde 2007, os texanos contam já com uma discografia recheada de lançamentos e atividade, 4 álbuns de originais e 2 EP’s desde 2008, conseguem marcar um percurso com consecutivos pontos altos, uns após os outros. O que lhes dá o prémio de consistência é o genuíno conforto no som que exploram e encaram. Lançaram o primeiro álbum, em nome próprio, através da End Sounds, com um som que se mostrava de fácil digestão composto por ritmos lentos e vozes embriagadas, entaladas num romance intravenoso com a nebulosa distorção das guitarras. “Fuzz” é a primeira palavra que surge em mente tomando em conta a nudez da sonoridade que ainda não perpetua a distorção, pelo menos não tanto quanto a melodia e a mudança intermitente de velocidades e compressão. Apesar dessa simplicidade, o jogo entre guitarra e bateria traz alguma geometria interessante ao som num todo, a funcionar como engrenagens ferrugentas em mudanças automáticas. “Clockwork”. Momentos inteligentes que exploram a genética texana com elementos de blues rock e country, mas claro, sem denunciar muito as raízes.

Com a devida atenção dada ao álbum de estreia, não é de estranhar a quantidade de fãs e adeptos que a banda conseguiu ganhar. Permaneceram a tempo de verem o segundo álbum da banda, As High as the Highest Heavens and From the Center to the Circumference of the Earth, que prometia tanto quanto o comprimento do título. Com a masterização tomada a cabo pelo senhor Howie Weinberg (Biffy Clyro, Pixies, Soundgarden, Pantera, Slayer) cujo fascínio pela característica continuidade de ritmo se demonstra com tremenda clareza neste lançamento dos americanos. Mas 2013 é o ano em que a banda assina pela Relapse Recs. e lança o terceiro álbum de originais. Para este ouvinte, pessoalmente claro, Circumambulant, conseguiu suscitar um leque de reações que nos outros lançamentos não foi capaz de estabelecer, pelo menos não tão fortes como no registo de estreia. 8 faixas de melancolia apedrejada em distorção calculada e estabilidade rítmica, a abraçar uma filosofia de simplicidade muito mais ascendente, o grupo consegue explorar mais precisamente as progressões de lentidão que muito espaço têm para adquirir melodia, saliências e personalidade. O baixo faz-se sentir ao ponto de ser inevitável relembrar bandas de sludge como Melvins, Corrosion of Conformity e EyeHateGod, mas sem a característica ferocidade desses mesmos grupos. Algo que é fácil de estabelecer imediatamente com as primeiras faixas “CREEPER” e “S:H:S” é a contínua circunspeção nos parâmetros instrumentais, muita discrição e critério nas decisões de escrita. Nada muito arriscado e inovador. O que, consoante o resultado final, pode elevar muitas críticas, mas verdade é que não há muitas bandas a fazer isto, e True Widow fá-lo muito bem.

Ao longo dos restantes três anos, a banda ganhou independência na estipulação de digressões e datas. Com uma base de fãs tão sólida e consistente, é prioritário estabelecer a sustentabilidade nas estradas, especialmente se for dentro do próprio país, e isso é algo que este trio se tem afeiçoado bastante a fazer. Tendo partilhado palcos já com Earth, Sleep, Cult of Luna, Pentagram, King Woman, e já tendo feito parte do plantel do Roadburn na edição de 2014, só mostra o quão viajados são estes três. Chega 2016, e esse trabalho todo em digressão acumula ideias novas e orçamento para entrar de novo em estúdio para um quarto lançamento, pela Relapse.

Avvolgere, 10 faixas avermelhadas por uma capa de álbum tão sinistra e espessa como o inicio da primeira faixa “Black Shredder”, que se apresenta com um denso riff pleno de distorção e saliência, a golpear insistentemente o ouvinte até a bateria surgir. A resultar numa interação interessantíssima, a música passa a conjugar inteligentemente a entrada do DH na voz, e notavelmente dispostas em camadas, as guitarras sobrepõem-se em grande destaque sobre a voz, dando-lhe a mencionada dimensão de profundidade que se falou no segundo lançamento As High as the Highest Heavens (...), mas com uma renovada dinâmica na mobilização do ritmo e variação deste no conjunto total. Perfeitamente dançável para quem gosta e ideal para “abanar o capacete” para quem é mais discreto, a personalidade contagiosa desta nova faceta da banda exige e com muita força, uma reação do ouvinte! “Theurgist” introduz-se com repetidas lacerações de cordas afiadas, como violinos mal afinados ou facas desgastadas, até à entrada da bateria e do baixo, ainda a perpetuar a “dançabilidade” no ritmo um bocado mais acelerado do que é habitual. Abrande de novo e D.H. canta melancolicamente as palavras:

What is the name you would like to be / I’ll never now just why you’ve come to me / I’ve never known this sort of sorcery / I wonder when or if you’ll tire of me” - “I can’t escape the way you’re holding me / Don’t believe I want you to leave

E de volta à hipnotizante progressão que se ouve no inicio da música. O incrível nesta faixa é a capacidade de os americanos conseguirem criar atmosfera e sufoco a partir de uma afinação tão limitada e vincada no peso do sludge, e ao mesmo fazerem-no soar o mais orgânico e relatable possível. Apesar de estar tudo organizado e distanciado por camadas, entendemos e interpretamos a escrita como um todo. A bateria funde perfeitamente com as cores e características da guitarra, enquanto que o baixo se sobressai acima de tudo. Duas faixas já despachadas e dá para concluir que existe muita variação no ritmo, muita decisão certa em momentos cruciais que por mais 10 segundos, poderia estragar a simetria e geometria na estruturação da música. Apesar da simplicidade, True Widow fazem questão de desembaraçar alguma ciência na escrita deste esforço. “FWTSLTM” é um exemplo de como uma boa relação entre acordes dispensa prolongamento extensivo e pede apenas uma determinada insistência na repetição. É engraçado como é que de um álbum para o outro, True Widow conseguiram estabelecer uma “dançabilidade” quase hipnótica nas guitarras. Neste caso, havendo dois compassos de ritmo em paralelo, estabelecidos entre baixo e bateria, o foco vira-se todo para os intermitentes impulsos nas notas mais salientes, que acabam por contribuir para uma atmosfera mais “relaxada” e nostálgica. Performance de luxo do DH a acompanhar este mesmo alinhamento de notas com o timbre introspetivo de country rock e blues rock.

“The Trapper and the Trapped” é um dos pontos altos absolutos do álbum. Conta com um ritmo bem acordado, cordas gravíssimas e assombrosas, e com uma dualidade interessantíssima entre a Nicole e o DH, quase a simular um dueto de country em formato stoner, plenas e ausentes de falhas, os timbres polarizantes incendeiam a guitarra inflamável à luz de um pôr-do-sol sulista rodeado por abrasadoras dunas num deserto algures em Texas, um camaro descapotável a acelerar no fundo e descascar os troncos no alcatrão, uma cascavel a dilacerar o calor e os cactos a abraçarem a terra seca do chão. A som progride numa espiral de eco e distorção, cada vez mais acentuado numa trip de droga descalculada. O carro aproxima-se do horizonte, e assim chegamos ao meio do álbum.

“OOTPV” como um sintoma maligno, surge com força e pulsão. Empurra um revolver de notas carregadas e obscuras, que com a entrada de DH adquire um corpo diferente na progressão, torna-se muito mais “desportivo” e folgado, que se deixa expandir progressivamente em formas genialmente desenhadas. O refrão deste esforço é capaz de ser dos mais interessantes e cativantes do álbum todo. Propaga-se num ecoar de flutuações maciças nas cordas:

I tried to run away / But I can’t seem to run / It’s something in the way / And I’m too scared to look

E faz-se sentir tão pesado no fundo da consciência, a similar uma despedida indesejada ou um percurso novo. Uma saída ainda não passada pela auto-estrada. A forma como a arquitetura geral da música está definida demonstra a qualidade de True Widow como músicos, que apesar de serem peritos naquilo que criaram, também conseguem tocar algo mais “tradicional” e forte, mas fazem-no com influência e intransigência. Isso é uma das coisas que mais se pode louvar neste álbum. A “Entheogen” abrande e tenta explorar ainda mais, se possível, o contorcer de emoções que se faziam sentir com mais frequência e em maior relevo nos álbuns anteriores da banda. Apesar de não ser, nem de perto nem de longe, a faixa mais sublinhada deste trabalho, conta sem dúvida com uma escrita plenamente matura e desenvolvida, honesta e sem tendências, permite ao ouvinte expor-se pela primeira vez neste consecutivo banho de rock’n’roll de riffs e groove. Interrompe o feel, mas com um argumento bem fundamentado e esclarecido.

“To All That He Elong” não exige muito estudo nem atenção. Uma faixa que nas palavras do baterista Timothy Starks serve de ponte, mas entrega uma beleza tremenda através da sua simplicidade. Rerverb a montes ao ecoar da voz da Nicole, tão breve quanto importante para transitar uma fase mais parada do álbum para outra mais refrescante e pronta para bombar.  “Sante”, das mais curtas faixas do álbum, a encaminhar-nos para um final triunfante oferece-nos um tema de jailbreak guiada pela Nicole na voz, a intercetar riffs carnudos e bem avermelhados da pulsação acelerada que lhes percorre pelas cordas. Progride suavemente, porém o refrão devasta o que pouco sobra desta apaixonante performance:

“I’m over you / I can see now / I can see you / Carry me out / Take me away / Take me right now / We can be us / Don’t pull me out”

“Grey Erasure” cai um bocado no esquecimento por falta de momentos memoráveis, mas não perde o valor pela arrepiante presença da voz do DH nos flancos da faixa. Muito a ressoar como uma típica malha de Doom psicadélico, a tonificação da guitarra encosta-se com uma postura de cimento a paredões de vidro, e esmaga tudo.

Calm but afraid, something’s out to get me

A última faixa “What Finds Me” vê a banda a retornar um bocado para as raízes de origem. Tornam-se divagantes, nebulosos, cansados, perspicazes, mas muito impactantes. Nicole faz-se sentir muito nos primeiros versos da faixa, porém sem que as tonificações do instrumental fiquem perdidas no meio do discurso. Os instrumentos falam mais alto que as vozes mas as palavras estão embriagadas, exaustas de uma viagem extensiva e massacrante, o tom mantém-se ideal para uma despedida sem soar demasiado “lamechas” ou cliché. Não há espaço para baladas, mas o ritmo é calmo e submisso. Acabam como começaram, com imensa personalidade.

É pedido um balanço, e para este ouvinte é difícil criar atrito com a realidade. True Widow é uma banda que tem declarado no passado muitos argumentos positivos e com potencial por desenvolver. Ideias e razões bem formadas para observar a banda bem de perto e estar atento àquilo que mais tarde ou mais cedo, pode vir a ser um álbum de viragem, mas claro, sem tirar valor e mérito aos álbuns anteriores. Apesar disso, sempre houve algo que se fazia sentir ausente. Uma dinâmica variável, algo móvel e pulsante que desse à estrutura uma vitalidade crucial para que a visão fosse memorável e perpétua, mas facto é que na transição para este álbum, esta foi a melhor decisão a tomar. Tornar tudo muito mais relatable e tangível para que haja mais na banda do que apenas um som cimentado. Avvolgere mostra não só um trio crescido e desenvolvido, mas também coleciona 10 faixas de puro envolvimento emocional e músico que acumula um resultado que não se tinha testemunhado nos outros lançamentos da banda. Um caso onde cada faixa, isoladamente, se demonstra como um ponto alto do álbum, e só isso mostra que, qualquer que tenha sido a decisão, esta funcionou e resultou. No fundo, é isso que queremos de qualquer álbum que ouvimos, que seja funcional e tangível ao ponto de nos conectarmos com ele, e isso foi conseguido aqui, sem atrito.
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