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TV Rural - Sujo

Review
TV Rural Sujo | 2015
Diogo Alexandre 30 de Dezembro, 2015
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David Bowie - BlackStar

Mariana Vergueiro - Morning Rain

Três anos depois, os TV Rural regressam para o seu terceiro longa-duração. É o great comeback de uma das bandas portuguesas mais subvalorizadas do panorama musical nacional. E, se nos álbuns anteriores, a banda de Oeiras se apresentou de forma mais pura (leia-se, menos polida), - em Filomena Grita!, álbum, igualmente bom (tal como o seu sucessor), que peca apenas pela sua parca consistência, e em A Balada Do Coiote, um western calminho, possivelmente, protagonizado por Clint Eastwood e uma outra qualquer menina bonita dos anos 60, em que ainda se nota alguma jovialidade da banda, terminando, repentinamente, com um (belo) cover de António Variações  – é neste Sujo que as estrelas se unem e fazem com que o quinteto elabore, aquele que é na minha opinião, o melhor disco da sua carreira, até ao momento.

Não existem momentos de quebra: 13 canções muito bem escolhidas e muito bem dispostas sobre a obra. Conseguimos traçar uma viagem do início ao fim do disco, com todos os seus elementos obrigatórios, algo que o torna extremamente coeso e que este que vos escreve aprecia bastante. Depois disto tudo explicado (e entendido), acrescento que o título da obra não engana o ouvinte: é sujo (na sonoridade e não na produção), cru, à grunge! Será esta uma referência ao Dirt dos Alice In Chains? A pergunta fica no ar...

Logo nas primeiras faixas percebemos o quão bom este disco vai soar. “Bailarina”, tema gingão incapaz de deixar alguém quieto. A quebra aos 3:20 com o coro a entoar “foste porque quiseste, porque te deixaste levar” acompanhado por palmas, promete muito ao vivo. O groove rock continua em “Tiro No Pé”, canção que também poderia ter sido escolhida como single, onde David Jacinto, quase em modo spoken word, anuncia ao público a emboscada perfeita para a caçada dos “porcos”(sejam eles animais racionais ou irracionais, dependendo da interpretação). É a vida rural a vir ao de cima e nada os vai deter. Ruralidade que se mantém em “Pedra É Pedra” (e em, praticamente, todo o disco), o single do álbum. A velocidade desce e agora é o baixo que lidera a procissão num tema que retrata a vida do trabalhador primário, uma área em que se trabalhava (e trabalha) muito por muito pouco. “Falas demais e acabas despedido” foi a frase que nos ficou na cabeça.

O rock mais cru volta em “Caga Nisso”, uma malha perfeita para se meter bem alto, em horas de ponta, numa qualquer rotunda do nosso Portugal. “Metes-te à frente, tudo à grande. (/Travas a fundo, porque sim). Porque pensas que podes, não podes. Mas fazes (/finges) que podes” seguido do “caga nisso” quase sempre dito pelo nosso companheiro, sentado do nosso lado direito, rementendo-nos à nossa insignificância perante tamanhos néscios.

Após nova descarga energética em “Estava-se Mesmo A Ver”, a temperatura corporal volta a estabilizar aquando de “Maratona” (o segundo single deste disco), começando calma e negra para depois, já embalados com o ritmos constante da primeira fase da música, explodir com a distorção ligada e bem espalhada, fazendo-nos lembrar um Dick Dale mais roqueiro e menos surfista. As variações rítmicas tornam esta música numa das mais interessantes do álbum, parecendo-nos sempre “fresca” quando a escutamos. Os pormenores do baixo no preenchimento do final da música foram muito bem conseguidos.

Regressamos ao feeling inicial do disco com “Não Sou Uma Flor No Teu Jardim”, detentora daquela que já é a sonoridade típica dos TV Rural, com coros de fácil apreensão e onde o ritmo da guitarra e da percussão não nos deixa ficar parados. “Ligeiro Ciúme” volta a acalmar os ânimos auditivos porque os líricos estão mais atiçados que nunca, comparando o ser-humano a um cão quando se trata de amor ou de ciúme. “Até que podia ser menos doentio, mas depois não era a mesma coisa”.

“Se Te Faz Tremer” traz a sujidade e a “rapidez” do grunge, anteriormente falada, para o registo. É rock puro e duro. Segue-se um “Lamento” ao estilo de vida pós-industrial: trabalho-casa-trabalho, onde não existe tempo suficiente para se estabelecerem importantes relações afectivas. “Mais um dia pro trabalho (ou car$%ho), ainda agora vim de lá. Puta de vida de trabalho que me tira o sono, e o sono que me dá...”

“Um Febrão Que Custa A Curar” é a canção mais próxima da balada, uma bem triste (quase à “Something In The Way”), de todo o disco. O álbum termina de uma forma inesperada, deixando-nos a pensar naquilo que aconteceu à rapariga retratada na letra da música. Terminando num ligeiro fade out, somos imersos numa paz profunda que pede continuidade. Esperamos mas não chega mais.

Talvez seja este o grande trunfo de Sujo: iludir os seus ouvintes que por aí mais virá, deixando-nos na expectativa de algo que não vem a acontecer. Agora só no próximo disco porque este acabou de vez.
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