14
QUI
17
DOM
18
SEG
23
SAB
24
DOM
25
SEG
26
TER
27
QUA
28
QUI
29
SEX
30
SAB
31
DOM

Ulcerate - Shrines of Paralysis

Review
Ulcerate Shrines of Paralysis | 2016
João "Mislow" Almeida 05 de Dezembro, 2016
Partilhar no Facebook Partilhar no Google+ Partilhar no Twitter Partilhar no Tumblr

peixe:avião - Peso Morto

Red Fang - Only Ghosts


 

O death metal está cada vez mais distante da forma convencional com que se introduziu ao mundo. Um estilo que soava tão grave e cavernoso mas que pelas razões certas fazia sentido assim o ser. Florida, Estados Unidos, Death, Morbid Angel, Deicide, Cannibal Corpse, Obituary, todos padrinhos do antepassado sangrento e mórbido de um dos estilos mais controversos do mundo da música. Capas sanguinárias, letras macabras e miúdos de 18/19 anos com material que custam poupanças anuais a qualquer um. Desde que a invasão começou que se tem visto surgir cada vez mais grupos e apostas jovens noutros cantos do mundo: Holanda com Pestilence, Sinister e Gorefest, Reino Unido com Bolt-Thrower, Napalm Death e Benediction, Suécia com Entombed, Grave e Dismember e muito mais. O que esperar de um estilo que à partida parece tão primitivo e consumido por tédio sistemático de notas baixas e produção desvanecida? Pode parecer que não, mas death metal sempre foi um berço de músico prodígios. Com tão pouco tempo de existência e no estilo já existiam bandas a desafiar padrões, contrariar regras, aprofundar ideias e “tentar fazer algo diferente”. Os próprios criadores da estética, Death, foram dos primeiros a polarizar a arquitetura do género com influências jazz, enquanto que simultaneamente as misturava com prog rock dos anos 70.

Tantos anos depois e a vocação para esse desafio permanece mais forte do que nunca. Com o desenvolvimento dos anos 90, surgiu um leque enormíssimo de estilos novos e articulados a partir do formato original. Bandas como My Dying Bride, Opeth, Asphyx, Decapitated, Cryptopsy e muitas mais, foram das principais a tomar iniciativa nessa mudança de maré na anatomia da cena. Tornando-se cada vez mais predominada por Europeus, podemos quase dizer que fomos nós que tornámos o estilo Universal! Séc. XXI: tantos estilos novos, bandas que há cerca de uma década ainda estavam entaladas no sótão dos pais a tentar decorar uma passagem complexa numa música escrita pelos próprios, e que nos dias de hoje esgotam salas e invadem solos internacionais com toda a facilidade. Nem sempre assim foi, nem assim o será para sempre. Chegamos a Ulcerate, uma banda tão pouco reconhecida, parcialmente pela sua origem (Nova Zelândia) tem sido uma banda de exemplo, mesmo com a luta para se expor a nível mundial. Digressões Americanas já são raras por natureza e Europeias nem se fala.

Como se a localização nada acessível da banda não bastasse, o trio oceânico ainda é reconhecido por tocar uma das formas mais castigadores de Death Metal que se pode encontrar no mercado. Uma visão que prolifera combustão subatômica na forma de distorção e que se propaga como um cancro  nas pulsantes veias da bateria. Um som coletivo que, apesar da pobre qualidade de produção nos primeiros álbuns da banda, sempre soou natural e orgânico. Juntos há exatamente 14 anos, pode-se dizer que o grupo teve um arranque de carreira muito lento e divagante, a contar com apenas 2 demos e 1 compilação em somente 4 anos. Só em 2007 é que lançaram o álbum de estreia Of Fracture and Failure. O começo de uma discografia composta só por pontos altos e momentos memoráveis, conta com um álbum que compõe 45 minutos de caos subversivo e microscópicamente calculado, duplo pedal, guitarras gritantes, afinações à Neuorsis mas com a velocidade a triplicar, vocais amplos e uma fundação estrutural tão desafiante de descodificar. Muita variação de velocidade, prolongamentos de progressões explosivas e desenvolvimentos nunca antes vistos no estilo até hoje. Segue-se o segundo álbum de originais Everything is Fire, a alongar os 50 minutos de upgrade de qualidade no som e a aprofundar uma filosofia anatómica na fundação da estética de Ulcerate, o álbum em si é indiscutivelmente um ponto alto, uma memória incrível do quão longe o Death Metal viajou ao longo do tempo e o quão “estranho” e diversificado se tornou. Eu próprio sendo um ávido adepto da história e da herança do género, só consigo ver positivo naquilo que é o ponto de chegada de quase 30 anos de lançamentos e inovações. Acreditamos ávidamente que é neste álbum de Ulcerate que o grupo mostra todo o seu potencial em segurar, comandar e incendiar ainda mais a tocha da música extrema.

Sombrio, monstruoso, inigualável, sem precedentes, é assim que se caracteriza a nova geração de ruído calculado, pelo qual o trinco neo-zelandês lidera. Os adeptos habituam-se cedo à grandeza virtuosa do grupo, e verdade é que só há argumentos a motivar esse mesmo hábito. Chega The Destroyers of All, último álbum pela Willowtip Records, que como uma vedeta de futebol num clube de formação, observou o seu jovem prodígio a crescer, fortalecer e a criar condições para quando obtiver mais espaço, explodir de forma absoluta e permanente. Este foi o álbum que pediu à banda reconhecimento internacional, a cimentar cada vez mais a muralha arquitetónica que é a sonoridade do trio. Agora, sem parecer demasiado invasivo, a banda predura fases de reflexão e inalação em progressões de sistemáticas mudanças de velocidade, com uma fotografia cada vez detalhada daquilo que é a visão panorâmica do som. Os profundissimos guturais sublinham as pulsações vívidas do baixo enquanto se alonga entre cavalgadas apocalípticas e transições mais lentas invocadas por cataclismos cerebrais e hemorragias internas. A qualidade da banda torna-se um dado absoluto neste registo, algo que muito dificilmente conseguirão superar no futuro. Estruturalmente, está perfeito. Afinação, macabra, incendiária, abrasiva, coesa. Rítmico, do melhor que houve e haverá até hoje. Uma das mais memoráveis performances de bateria está no currículo do Jamie Saint Merat que conduziu a forma, postura e moldura deste registo, do início ao fim, nas suas baquetas de luxo e definição abstrata de desenvolvimento rítmico e estrutural.

O Vermis deixou-se passar um pouco despercebido por um leque de razões. A mais gritante é o facto de ter sido lançado pela Relapse Records, onde o fluir de lançamentos é muito mais quantificado por números e não propriamente por qualidade singular, apesar de isso ser algo perfeitamente notável no quarto lançamento da banda. Como foi dito, em relação ao que foi o sucesso prévio, há pouco espaço para desenvolvimento e melhoria, portanto a banda cria espaço para recriar definições e afinar pequenos pontos de identidade. A produção é claramente um ponto de viragem, definitivamente uma melhoria, corporal, verbal, de longe superior a todas as condições que tiveram até hoje. A masterização também está de luxo para não falar do característico organismo que se faz parecer entre linhas de velocidades e graduação de fibra, e é por isto mesmo que entre momentos de peso, que deixam de ser fases de introspecção mas sim de impacto vivido, há uma fluidez que até aqui não se tinha notado ainda. Como um tsunami de emoções e um furacão de trepidação constante! Apesar de num resultado final não ter havido melhorias gerais muito diferenciadas dos seus antecessores, o Vermis pronuncia-se através de uma dimensão mais abrasiva e profunda, as teias da fragilidade humana.

2016, um ano que acumula álbuns de qualidade como um miúdo coleciona os cromos da bola na caderneta, e este álbum, meus amigos, é o cabeçalho da coleção! The real deal! O mais engraçado disto tudo é o quão estupidamente boa é a discografia de Ulcerate até agora. Esforço atrás de esforço, sempre com recursos a variar e com ambições constantes, a banda produz e entrega sistematicamente qualidade e mais qualidade. O que poderá vir neste novo lançamento através da Relapse, designado por Shrines of Paralysis? Pode-se dizer que nunca, uma hora de death metal fez tão bem à alma como este álbum. “Abrogation”, a primeira faixa do álbum que começa tão translucidamente mas com um núcleo tão impetuoso que só vem a sublinhar o quão claustrofóbicas estãos as linhas de notas, é imediatamente um enxaguamento de memórias negativas, como um cálice a abrir portais intermináveis com imagens dos mais sombrios momentos das nossas vidas. Miserável atmosfera que se deixa propagar entre o pedal duplo e as frequentes pinceladas nos pratos, quase tão recorrentes como o contraste entre o pesado e o melódico nas cordas, a proporcionar equivalências geométricas entre momentos calmos e compostos, e desenvolvimentos catatônicos de peso, quase sempre orientado por camadas e sub-divisões.

A verdadeira orientação da banda para a virtuosidade denota-se principalmente nas faixas mais extensivas, caso da segunda, terceira e quarta, “Yield to Naught”, “There are No Saviours” e a “Shrines of Paralysis”, cada uma a ultrapassar os 7 minutos de execução, onde um círculo de variação perpetua-se em diâmetros esquizofrénicos e raízes excêntricas, através de blast beats mecanicos, vocais crescentes e guitarras musculares. A transição mais groovy na “Yield to Naught” demonstra a flexibilidade da banda para surgir em momentos claramente derivados para o ritmo e para a dançabilidade. Termina num ponto altíssimo onde a repetição dá à estrutura uma flutuação perpétua de notas que até agora ainda não se tinha testemunhado na banda. Essa mesma filosofia sofre transfiguração na terceira e quarta faixa, que por todo o  mérito da banda são composições que traduzem uma experiência inédita para o ouvinte. Tanto uma como a outra, exploram hélices patológicos de artérias e tecido muscular, a perambular tumultos de absoluto controlo e tectônica de puro encanto, a hipnotizar como um êmbolo transitório, da esquerda para a direita para a esquerda para a direita, a agitação absurda de sonoridades de ferro e aço é, até aqui, inigualável. “Chasm of Fire” e “Extinguished Light” recusam a acessibilidade e abraçam a velha genética para com desenhos espessos de linhas rasgadas e zumbidos distorcidos de baixo, a iniciar calmo, com um repetitivo toque de cordas ao ritmo de batidas ritualísticas, sempre lentas, sempre refletindo sobre a cor da melodia. São as mais caóticas exemplares neste registo, facetas ideais a quem agradaram muito o primeiro e segundo álbum da banda. “End the Hope” é uma despedida bem dada a um álbum que deu tudo o que tinha a dar do início ao fim. Na verdade, até faz sentido chamar deste fecho um resumo daquilo que foi Shrines of Paralysis num todo. Groove, momentos calmos, ritmos isotéricos, guitarras gritantes e bateria conquistadora, estou completamente rendido ao resultado final.

Não há como negar o talento desprovido de elementos estrangeiros à música. Isto é um claro exemplo de muito trabalho e esforço por parte de uma banda que só sabe fazer isto. Uma banda que no canto mais distante do mundo, consegue ser colocada, apesar das adversidades geográficas, no mais alto patamar do death metal moderno. Esta é uma ode à odisseia que tem sido a exploração do esqueleto bruto e cru do estilo. Para além de ser uma obra prima no seu direito, e é isto que faz desta banda algo tão poderosa e inevitável, é que, mesmo sendo um ponto indiscutível deste ano, ainda não é o melhor álbum da banda até agora. Apesar disso, o mérito é admitido e dado. Um grupo de três membros que assim se manteve desde o nascimento do projeto, a produzir e a executar álbuns de uma excelência e consistência de mestre há já nove anos! Lançamento após lançamento, o organismo respira, pulsiona, a musicalidade só vai ganhando vida com cada entrada no estudio. Esperemos que nunca fiquem famosos, porque se são tão pouco reconhecidos com tão boa música, não há desejo para mudanças. Shrines of Paralysis deixou uma marca, e foi profunda. Agora, expira.

 
por
em Reviews

Ulcerate - Shrines of Paralysis
Queres receber novidades?
Comentários
http://www.MOTORdoctor.PT
Contactos
WAV | 2017
Facebook WAV Twitter WAV Youtube WAV Flickr WAV RSS WAV
Queres receber novidades?