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Ulver – ATGCLVLSSCAP

Ulver

ATGCLVLSSCAP | 2016

PONTUAÇÃO:

7.5

 

 

 

Parecem existir “realidades” numéricas particulares como fazendo parte integrante de um fascínio transversal dos povos. Em várias culturas e doutrinas reputado símbolo da completude e da perfeição, o número doze possui essa carga mítica e hermenêutica distintiva dentro do conjunto infinito mais popular. São numerosos os vestígios culturais com origem fundacional neste plural. Doze são as constelações que o sol percorre nos doze meses do ano. Doze são os apóstolos de Jesus, e as tribos de Israel. O dia e a noite estão ficcionados num intervalo de doze horas cada. Foram também doze as badaladas que encerraram o ano que acabou e inauguraram o ano que acabou de nascer. É neste cenário alegórico, não injustificado, que lançamos as considerações sobre o mais recente álbum dos Ulver (“lobos”), o colectivo experimental norueguês, que apesar de inicialmente se ter associado ao black e folk metal, é hoje caracterizado pelas suas idiossincráticas metamorfoses estilísticas que conservam, contudo, uma natureza permanente, e noctívaga.

Depois do trabalho conjunto com os Sunn O))) no álbum Terrestrials, de 2014, os lobos noruegueses, actualmente formados por Kristoffer Rygg (o principal elemento criativo e único constante desde a formação inicial da banda, em 1993), Tore Ylwizaker, Jørn Sværen, e a mais recente adição, o multi-instrumentista britânico Daniel O’Sullivan, – conhecido pela sua participação em projectos de rock experimental e drone metal como Guapo e Sunn O))), respectivamente –  chegaram-nos em Janeiro de 2016, com ATGCLVLSSCAP. Envolto de um meditado simbolismo, este é o décimo segundo álbum de estúdio da banda, editado pela recém-criada gravadora independente House of Mithology, sediada em Londres. As doze letras que o baptizam correspondem à inicial de cada um dos doze signos do zodíaco, e doze é o número de faixas que o compõe. Por curioso acaso ou por vontade da sorte, quis talvez o destino que doze meses passados do seu lançamento, se escrevêssemos a seu respeito.

Apelidado 12, o disco é resultado de gravações feitas em doze diferentes espectáculos ao vivo dados fevereiro de 2014, onde a banda experimentou um conjunto de improvisos posteriormente desenvolvidos em estúdio, e pelo qual O’Sullivan é o maior responsável. Os imersivos 80 minutos de temas transformam fragmentos do passado num álbum novo. Por ter esta génese re-inventiva de algum repertório antigo, ⅓ do álbum poderá soar estranhamente familiar. “England’s Hidden” é o tema de abertura e nele contém amostras vocais de “England”, faixa do álbum War of the Roses (2011). Diferentemente desta, eleva-se num simples instrumental que contempla um ambiente etéreo e obscuro, e onde ajudam as badaladas dos sinos que entoam subtil tristeza, relembrando os hábitos nocturnos que acompanham e têm definido o estilo da banda. “Glammer Hammer”, uma nova versão da mais leve mas igualmente crescente em intensidade “Glamour Box (Ostinati)” do álbum de inspiração clássica Messe I.X-VI.X (2013), é dos temas merecedores de especial destaque. Numa relação inversa, ganha corpo e peso com a soma da percussão de ânimo crescendo, que se move com rapidez tribal. A sobreposição do noise e a distorção nas cordas, acerta uma principal influência post metal, com o culto progressivo e a ligeira relutância da vanguarda. Igualmente uma reinterpretação, neste caso especialmente manifesta de “Doom Sticks” do EP de 2003 A Quick Fix of Melancholy, “Moody Stix” resgata-lhe a harmonia de origem. Sente-se-lhe a essência experimental, onde os condimentos sonoros são adicionados como alguém que prepara delicada poção. Sob o saliente cunho rítmico, e a continuada ressonância de fundo (típico das sonoridades de drone metal), riffs livres e disformes fazem-se ouvir ocasionalmente. “Cromagnosis”, é a quarta e a mais longa faixa. É a primeira a representar o conjunto de sonoridades totalmente inéditas que formam o núcleo central do disco, e, dentro destas, a que conhece maior inspiração. Numa trajectória propulsiva, que progride para uma marcha persistente e confiante, expande-se, e converte-se numa intensidade ritualística que faz recordar as raízes do krautrock, onde vários elementos progressivamente competem entre si.

A travessia pelo centro do álbum faz-se sem turbulência ou surpreendente manifestação de criatividade. O génio inventivo parece ter-se reservado às extremidades, não obstante um mérito poder ser reconhecido. “The Spirits That Lend Strength Are Invisible” desvincula-se de qualquer forma concreta. Preservando uma atmosfera cósmica, familiar no ambiente de câmara próprio de Tangerine Dream, parece ecoar ao fundo de um túnel imaginário, um frenesim sónico vindo de um lugar desconhecido no espaço e morada de outras vidas. “Desert Dawn”, ao contrário, vagueia onde parece já não existir vida. Um pouco mais corpórea e acusando inspiração no post rock, “Om Hanumate Namah”, tem aspecto de evocação divina, fazendo justiça ao mantra a quem deve o nome. Carregada de letárgica energia, “D-Day Drone”, transporta-nos ao estado provável de quietação que antecede ou procede uma tempestade. “Gold Beach”, com sintetizadores hipnóticos de raras variações e, porém, funcionando como “climatizante” de planos secundários, relega-se aos temas de menor significância.     

Já próximo do fim, numa enérgica ascensão, o álbum recupera o grão inicial, e incluí, arriscaria-se dizer, duas das mais cativantes performances vocais da banda até hoje. “Nowhere (Sweet Sixteen)”, dá nova talhe à canção do álbum Perdition City (2000) “Nowhere/Catastrophe” que completa dezasseis anos de idade. Substituiu-se o downtempo e a electrónica da composição original, pelo tom psicadélico dos anos 70. Rygg, de voz intensa e baixo timbre penetrante presenteia-nos com uma merecida e respeitada intervenção. A versatilidade da sua voz vem também reflexa em “Ecclesiastes (A Vernal Catnap)”, uma reinterpretação da parte final do tema “Tomorrow Never Knows” do mesmo álbum. O registo transforma-se de narração profética e saudosa para um ambulante canto fatídico. A interessante estética dos curtos dois minutos de duração de “Solaris”, converge, ao encontro da artwork da capa e em despedida, para a ilusão.

Pese embora potenciais pontos de contestação residam na não exclusividade íntegra dos temas, não se toma aqui o facto como insuperável constrangimento – tanto para quem já acompanha o trabalho do grupo, muito menos para quem lhe seja alheio. A nova roupagem dada às faixas originais, e mesmo nos casos onde a derivação é mais ostensiva, com elas não se confunde. Despersonalizam-se e formam uma nova entidade. Por contraditório que possa parecer, e salvo excepções, é onde o álbum assume o risco de não ser único que mais originalidade oferece. Pode não fazer representar a vaticinada perfeição, mas é séria a “tentativa” de sistematização e condensação daquelas que são as principais notas distintivas do conjunto lupino. Música da noite para ouvir também de dia, satisfará quem sofre de apetite para as coisas tristes.

 

Nota: Este autor utiliza o Antigo Acordo Ortográfico

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Por Ana L. Marinho / 21 Janeiro, 2017
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