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Weyes Blood – Front Row Seat To Earth

Weyes Blood

Front Row Seat To Earth | 2016

PONTUAÇÃO:

9.4

 

 

 

Ah América…! Expoente máximo da cultura ocidental, terra de oportunidades, sonhos, e (provavelmente o conceito que lhe melhor assenta) massividade. Como qualquer animal, e não se enganem da nossa condição, a facilidade de atingir algo deixou-a incapaz de se satisfazer com os seu conseguimentos. Assim, a concretização colectiva encontrou na imensidão a forma de estimular a sua líbido, tornando o acto de sonhar algo que se veste em XXL. Dos hambúrgueres, aos copos de litro, contornando os diâmetros dos implantes mamários até desafiar o alcance da vista em torres que não têm fim, os EUA são capazes de produzir uma política do huge que permite a Trump conquistar a sua vitória, como são capazes também de produzir a sua antagonia de less is more, onde felizmente encontramos um dos melhores álbuns deste ano.

Weyes Blood é o projeto de Natalie Merling – nome despercebido, mas constante no percurso contra-cultura norte-americano. Companheira de cantigas de Ariel Pink, antiga integrante do apogeu multi-instrumentalista experimental que são os Jackie-O Motherfucker e, apesar de só agora chamar a si alguma notoriedade, presenteia-nos este ano o quarto álbum da sua carreira. Não obstante do seu percurso, e apesar de seguir fielmente a escola do revivalismo, em nenhum dos seus trabalhos conseguimos encontrar indícios que nos apontem para o momento que presenciamos hoje. Habituada a explorar uma musicalidade voltada para o dramatismo pesado e cheio do psicadelismo, ou a simplicidade minimalista acústica de uma balada, finalmente este ano encontra o cômpito da sua versatilidade, e ninguém estava preparado para isso. Front Row Seat to Earth é uma obra prima moderna, um pedaço de passado tornado presente, composto por mínimas doses de tudo do melhor que a cultura musical americana já nos ofereceu.

Defensora assumida de que o conservadorismo é a nova forma de ser avant-garde, não é de estranhar que Weyes Blood nos transporte para os finais da década de sessenta, inícios de setenta. Essencialmente folk, basta escutar algumas canções para perceber que concluído numa outra época, hoje seria um essencial na história da música, a par de álbuns como Tapestry de Carole King. De facto, não são necessárias muitas audições para sermos totalmente arrebatados pela beleza desta obra discográfica, que apesar de soar respeitável, não se leva demasiado a sério. Na capa de Front Row… podemos encontrá-la a interpretar uma espécie de sereia executiva – correspondente ao ambiente mágico e sereno das suas composições e à sobriedade da sua voz madura – onde contrasta o facto de usar umas banais sapatilhas – característica mais despretensiosa e subtil da sua sonoridade, ponto fulcral neste seu trabalho. É um universo cheio psicadelismo e exuberância, que em “Do You Need My Love” encontra o seu apogeu máximo. Uma pequena orquestra de metais, piano, cordas e percussão vão abrindo o caminho para que vento e trovões (de forma literal) venham a convergir com um cada vez mais adensado sintetizador, até atingirem o clímax personificado no suster de uma vocalização por tempo indeterminado. Nesta música encontrámos tudo, mas tudo mesmo, que Natalie Mering tem para dar, desde a mestria total em conjugar sons tão distintos de uma forma tão sublime (como anteriormente encontrámos em “Used To Be”) até ao poder de dominação vocal e forma soberba de contar histórias (como posteriormente escutaremos em “Seven Words”), fatores que levam o álbum para um patamar invejável no que toca à arte de compor canções. O que faz esta fórmula ser vencedora, é que toda a monumentalidade espiritual e tântrica que ela consegue construir neste trabalho, advém de mínimas doses muito bem concebidas e vividas de todos os seus elementos.

É assim, dentro deste espaço musical, que Weyes Blood conta uma história de desaventuras amorosas, onde tudo acontece no oposto do que se pretendia acontecer. No fim de o escutarmos percebemos que o contrário do conteúdo aplica-se à forma: Se por um lado a escrita é irreverente, seguindo uma pauta trágico-cómica, o som é claramente ponderado e pensado a escrever uma linha o mais harmoniosa possível. É a convergência de todas estas pequenas peculiaridades que Mering produziu, que fazem de um álbum de revivalismo, a coisa mais refrescante que ouvimos em 2016. Num dos anos mais confusos, agressivos, barulhentos e azarados que há memória, Front Row Seat to Earth  é um pequeno oásis de sossego e misticismo para a alma, e todas as considerações escritas/lidas aqui sobre ele são momentos de ofensa ao mesmo por não o estar a respirar na sua plenitude.

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Por João Rocha / 29 Novembro, 2016

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