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Weyes Blood - Titanic Rising

Review
Weyes Blood Titanic Rising | 2019
João Rocha 08 de Abril, 2019
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Waste of Space Orchestra - Syntheosis

Sermon - Birth of the Marvellous
O ano era 2016, encontrava-me no escritório e, como em todos os dias de trabalho daquela altura, as minhas únicas companhias eram resmas de papel amontoadas na secretária e um álbum aleatório a tocar de fundo. Calhou naquele dia ter começado a tocar Front Row Seat to Earth, e imediatamente a labuta ficou em suspenso e caí numa hipnose da qual ainda hoje não saí completamente. Weyes Blood era uma sereia executiva em tons de azul-mar – referência à identidade visual do álbum – e eu era um autoinfligido náufrago pelo seu canto. Em transe, seguia-a para onde podia. Vi-a em nome próprio, vi-a em festivais, e babava-me dos ouvidos enquanto perdia o controlo do coração. Lembro-me de desesperadamente tentar arranjar o LP para a minha coleção, e da dor de este se encontrar sempre esgotado (nem nas banquinhas de merchandising nos finais dos concertos). Lembro-me também da alegria quando o meu melhor amigo da altura o encontrou numa loja na Alemanha e o adquiriu para mim. Ainda hoje é dos álbuns que mais roda no meu gira-discos.

Posto tudo isto, é óbvio que a imparcialidade não será o forte desta carta de amor review, mas em minha defesa, e da artista em questão, Weyes Blood tem composto música tão perfeita que até o mais carrancudo dos críticos terá dificuldades em apontar-lhe defeitos. Assim, em 2019, Natalie Merling – o seu verdadeiro nome –, lança Titanic Rising, reclamando todos os vossos corações e levar as réstias que havia deixado do meu.

Agora com trinta anos, a cantora americana já leva mais ou menos com 15 anos de carreira em cima. Assumidamente uma aficionada pelas sonoridades do passado glorioso americano, de Fleetwood Mac a The Carpenters, é defensora da tese que o passado é o caminho para ser-se avant-garde no presente. A convivência com Ariel Pink mostrou-lhe como concretizar a sua visão musical, e é daí que nasce o já mencionado álbum de 2016. Revivalismo em todo o seu esplendor, mas ao mesmo tempo refrescante e inovador, adicionando-lhe sons da atualidade para fazer música do futuro. Agora, com Titanic Rising, usa a mesma fórmula, mas em modo 2.0.

Comecemos pelo óbvio: a produção. Weyes Blood atingiu a notoriedade no meio com a Mexican Summer, mas agora é lançada pela bem maior Sub Pop. Com isso vê aumentado o leque de possibilidades criativas, aumento orçamental, e acessibilidade a maiores nomes da música. Chama a si Brian D’Addario dos The Lemon Twigs, assim como Jonathan Rado dos Foxygen. Este trio consegue fazer um upgrade no que havia sido estabelecido em Front Row Seat to Earth, orquestram o revivalismo futurista e criam uma das maiores obras-primas de pop-psicadélico de que há memória. Aliás, vão muito para além disso. Pegam em cânones popianos e trocam-lhe as voltas, elevam-no, e criam algo absurdamente único. “Everyday”, a mais eufórica faixa do álbum, saltita durante maravilhosos cinco minutos e sete segundos. Numa qualquer música pop, a soma da repetição do refrão perfaria praticamente metade do tempo contabilizado. Aqui, a sua soma não chega a ultrapassar os trinta e cinco segundos. Sim, eu fiz as contas. É uma música que se aguenta a si própria, sem necessidade de recorrer a muletas de catchiness para nos penetrar na alma. Recorre a um paulatino e subtil crescendo até atingir a apoteose. Podemos identificar esta conceção musical em praticamente todas as faixas, nomeadamente em “Movies”, momento alto de Titanic Rising. A faixa atira-nos diretamente para o cenário do artwork da capa, e vemo-nos submergidos na penumbra sufocante das confissões quase adolescentes de Natalie. O ambiente sonoro é o desenrolar de um enredo de um filme de ficção científica: é futurista, é negro, é espacial. Estamos a afogar-nos no fundo do oceano, mas depois lá vem a orquestra, e com ela a nossa heroína a agarrar-nos e a puxar-nos de novo à tona da água. Termina o filme, mas não cai a cortina. A sessão continua.

No entanto, é redutor classificar este álbum como pop (mesmo que o mimemos com subgéneros para lhe dar um ar mais intelectual). Aliás, é redutor classificá-lo seja de que forma for. Em Titanic Rising há tanto de pop como existe de rock, folk, eletrónica, americana, etc. Há Beach Boys, Bob Seger, Joni Mitchell, The Carpenters, Enya, MGMT, Fleetwood Mac, Julia Holter, Beatles, Brian Eno… Existe Natalie Merling no apogeu da sua personalidade enquanto artista. As composições vestem-se e despem-se com as letras quase ingénuas que escreveu. Estas contrastam com as sonoridades que as acompanham: assim, há tristeza e desespero num mundo eufórico e alegre e vice-versa. “Mirror Forever” é um hino de autoajuda, ao mesmo tempo que transpira cinismo, desejo, ódio e amor, tudo entoado sobre um som que só podemos comparar à conceção mental de uma marcha militar criada por Brian Eno.

O álbum termina com “Nearer to Thee”, e os mais atentos denotarão que esta faixa instrumental já fora ouvida como background orquestral em “A Lot’s Gonna Change”, música que abre o mesmo. Ora, reza a lenda que a última música tocada nos salões do RMS Titanic foi precisamente “Nearer My God to Thee”, que empresta alguns dos seus acordes às faixas supra mencionadas. Isto é pura justiça poética! Todas estas peculiaridades e incongruências fazem aqui sentido. Fazem-nos perceber a nossa plenitude enquanto humanos, capazes de viajar à velocidade do som através das nossas emoções. O próprio título do álbum antagoniza a nossa condição. A ideia de elevação de um barco que se afunda. Um grito de esperança a anunciar que nada é estanque. A ressurreição da alma como uma fénix.

Todas estas riquezas poéticas, sonoras e emocionais criaram um dos melhores álbuns da década. Weyes Blood teve em Titanic Rising a oportunidade que todo o músico almeja: o de fazer o álbum dos seus sonhos. Sem condicionantes e com acesso a tudo o que necessita. O segredo do sucesso, o fator diferencial, aqui, foi o facto de transbordar talento. Agarrou a oportunidade e simplesmente entregou-se de corpo e alma a explorar toda a sua criatividade sem comprometer a sua identidade musical, prova mais que suficiente de que a sua maturidade enquanto artista está bem cimentada. O resultado é um iceberg massivo contra o qual embatemos. Resta a cada um perceber se Natalie Merling o vai deixar afundar ou se o vai puxar para junto de si, em cima do seu pedaço de madeira.
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Weyes Blood - Titanic Rising
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